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Olhando Para Dentro 1930-1960 (Bruno Cardoso Reis) (Em História Política Contemporânea, Portugal 1808-2000, Maphre - nota...

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segunda-feira, 16 de março de 2020

No Segredo dos Deuses


No Segredo dos Deuses
(Notas da entrevista de Alexandre de Marenches a Christine Ockrant em 1986)
 
A II Guerra Mundial:
   Preocupado com a crescente concentração de poderes nas mãos de Hitler e com o pedantismo irrealista dos responsáveis da defesa francesa - ainda empolgados com o desfecho da I GM, os políticos e militares franceses julgavam o seu exército capaz de manter invioláveis as suas fronteiras, revelando total desconhecimento do “estado da arte” das forças alemãs.
  Durante a ocupação da França, Alexandre de Marenches, viria a testemunhar, estarrecido, o degradante espetáculo das denúncias dos seus compatriotas ao ocupante. Terminada a guerra, de regresso a França ao lado do marechal Juin, o ex-combatente aristocrático, descobriu, com grande surpresa, quarenta e dois milhões de “resistentes”! De falsos resistentes. Traidores que se afirmavam patriotas tal como por cá depois do 25 de abril de 1974.
   Este livro, entre outras coisas, descreve o bulício militar que se vivia em Argel, onde se cruzavam as forças aliadas e fervilhavam as intrigas, bem como o corpo expedicionário sob comando do marechal Juin. Este era composto por cerca de cento e trinta mil homens, dos quais, cerca de cem mil, indígenas do “ultramar” - berberes, cabilas, pieds-noirs, tabores marroquinos - e pela 1ª divisão francesa livre, composta por unidades oriundas do império francês; taitianos e gente das feitorias da Índia. Ben Bella, futuro Presidente da Argélia, integrou este corpo expedicionário acabando distinguido enquanto ajudante de atiradores. Para as forças armadas francesas, estava em causa desfazer o trauma da vergonhosa debandada de quarenta após colapso da célebre “linha Maginot. Durante a ocupação, o jovem Alexandre de Marenches - 20 anos -, determinado a não cair nas mãos dos ocupantes, fugiu para Madrid, atravessando os Pirinéus, sozinho e a pé.
   Entre o relato de episódios pitorescos ocorridos no teatro de guerra, Alexandre de Marenches dá conta da ingenuidade do Departamento de Estado americano - mandato de Roosvelt - ao confiar na boa-fé de Estaline na sequência dos acordos de Teerão em 43, proibindo os exércitos aliados de marcharem para leste, como pretendiam os seus chefes militares, prevendo a ameaça comunista.
   Graças a este equívoco os simpatizantes soviéticos infiltraram-se em departamentos estratégicos americanos, incluindo o círculo presidencial, onde obtiveram documentação classificada que lhes foi útil na posterior guerra de desinformação entre as duas potências que ficou conhecida por “guerra fria”.
   Na origem da boa vontade dos americanos para com Estaline esteve a intenção de arrefecimento da exigência deste aos aliados de abertura duma nova frente de combate a ocidente com vista a aliviar o esforço militar do exército russo. Roosevelt era o Presidente americano, Eisenhower o comandante supremo interaliado e George Marshall o estratega militar.
   Um dos episódios sinistros praticado pelos dirigentes soviéticos relatado consistiu no fuzilamento de dezenas de milhar de russos refugiados que se encontravam nas zonas ocupadas pelas forças americanas e inglesas e devolvidos à União Soviética - segundo refere Nicholas Bethell no seu livro The Last Secret, teriam sido cerca de 2 milhões; uma sentença de morte a que muitos tentavam escapar preferindo atirar-se dos comboios em movimento contra as redes de arame farpado eletrificado.
   Consequência da desagregação institucional na França liberta os comunistas tomaram o poder nos núcleos de Resistência, caso de Limoges, constituindo governos locais semelhantes aos famosos “sovietes” da Revolução de 1917. Impossibilitado de impor a ordem por falta de efetivos militares devido à recusa de cedência por parte de Eisenhower, De Gaulle, acabou por fazer concessões aos comunistas franceses, integrando alguns deles no seu governo e amnistiando Maurice Thorez, desertor célebre.
   Estaline, de origem camponesa e ex-seminarista, adepto dos métodos de Sun Tzu, é descrito como antigo terrorista, patrão do Kominform e do Komintern, responsável pela morte de milhões de pessoas. Intrujão, explorava a credibilidade dos seus interlocutores, simulando cordialidade, tolerância e solidariedade.
      A Administração americana intercedeu no espaço público favoravelmente ao regime soviético tornando-o simpático aos seus cidadãos. Truman, que sucedeu a Roosevelt e que contava entre os seus colaboradores próximos um tal Joseph Davies, amigo de Estaline desde os seus tempos de embaixador dos EUA em Moscovo, fez vista grossa à anexação de Konigsberg e parte da Prússia oriental, tal como fizera Churchil. Paradoxal!
   Tudo isto levou Alexandre de Marenches a considerar que, apesar de terem vencido o nazismo, os Aliados perderam a guerra para outro sistema totalitário, o fascismo vermelho­­­­; o cancro marxista espalhara-se pelo mundo. Ficou a dever-se à ingenuidade de Truman e Marshall a ocupação da Europa de Leste pela URSS.
   Vinculados aos acordos de Teerão, Yalta e Potsdam, os chefes Aliados Ocidentais acreditaram que o mesmo ocorria com Estaline. Enganaram-se! Caiu a “cortina de ferro” sobre milhões de europeus, a URSS passou a ter três votos na ONU enquanto os EUA mantinham apenas um. E, se é verdade que muitos “cérebros” nazis foram recrutados pelos Aliados, muitos mais foram engordar os quadros da URSS.




Peniche, 14 de Março de 2020
António Barreto

domingo, 15 de março de 2020

No Segredo dos Deuses


No Segredo dos Deuses 

Introdução:  

Não é possível compreender a geopolítica do nosso tempo sem conhecer o submundo dos serviços secretos dos governos, em especial dos países mais influentes.

   Alexandre Marenches - Conde Marenches - foi diretor dos serviços secretos franceses de 1970 a 1981, durante os mandatos de Georges Pompidou e Giscard D’Estaing. De ascendência aristocrática - remontando aos primórdios do Franco-Condado - Marenches gozou de um estatuto social que lhe proporcionou relacionamento privilegiado com notáveis de aquém e de além atlântico; gente da cultura, da política, das forças armadas e até da aristocracia - com destaque para as casas de Bourbon e Marroquina -, circunstância que marcou as suas carreiras de militar e de agente secreto.

   Voluntário na II GM, Marenches seguiu a tradição de seu pai - condecorado por feitos na I GM - batendo-se pelos Aliados, na frente italiana. Integrado no exército francês, acabou por juntar-se ao comando do marechal Juin - futuro braço direito do general De Gaulle - como seu ajudante de campo. Juin, com assento no Comando Geral Aliado, respeitado entre militares e conhecedor das proezas da família Marenche, acabaria por suscitar o afeto e admiração do futuro espião.

   Numa entrevista conduzida por Christine Ockrent, editada em livro, o ex-espião, além da sua visão peculiar do mundo, revela episódios surpreendentes sobre os bastidores da II GM e as movimentações geopolíticas da época, algumas das quais com reflexos nos dias de hoje, quarenta anos depois.
 
Peniche, 07 de Março de 2020
António Barreto

sábado, 14 de março de 2020

Nós os portugueses (Maria Filomena Mónica)


Tenho vergonha de viver no meu país (10 de Setembro de 2006)

“…Além de pobre, Portugal é o país mais desigualitário da Europa. O rendimento médio dos 20 % dos indivíduos mais ricos é, em Portugal, 7 vezes superior ao dos 20 % mais pobres, quando, na Europa, esse número é de 4. Como se isto não fosse suficiente, a mobilidade social é diminuta, o que significa que os filhos dos pobres continuam a não ter oportunidade de subir na vida…./

/…Só 7 % dos alunos cujos pais frequentaram o ensino primário obtêm um grau universitário, enquanto, de entre os alunos cujos pais tiveram uma formação superior, 67 % o conseguem.”

Uma tarde no Centro de Saúde (22 de Outubro de 2006)

“…A conversa terminou (com outras pacientes na sala de espera), de forma azeda, até porque, pelo meio, percebera uma coisa. Os centros de saúde não são o que aparentam, mas centros de convívio. No fundo, substituíram as mercearias de bairro: é aqui que as vizinhas convivem, discutem e intrigam.”

 
 Peniche 14 de Março de 2020
António Barreto

Nós os Portugueses (Maria Filomena Mónica)



Em busca de Cesário Verde (3 de Setembro de 2006)

   “…A 10 de Junho de 1880, ninguém reparou que havia sido publicado o mais genial poema escrito durante o século XIX. (O Sentimento de um Ocidental).
Peniche, 22 de Fevereiro de 2020
António Barreto

sábado, 7 de março de 2020

Nós os Portugueses (Maria Filomena Mónica)


Nós os portugueses (27 de Agosto de 2006)

   “…Outra forma ainda mais idiossincrática, de se olhar o país, consiste em relembrar as frases que os seus filhos mais ilustres proferiram, alguns no leito de morte.  Antes de expirar, a 11 de Maio de 1858, eis o que o grande cético Rodrigo da Fonseca terá dito: “nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste” Poucos anos mais tarde, Alexandre Herculano, o intelectual do regime, proclamava do alto da sua cátedra rural: “Isto (o país) dá vontade de a gente morrer”, o que faria, com reconhecido êxito, em 13 de Setembro de 1877. Mas não eram apenas os políticos e os intelectuais que se compraziam em denegrir o país. Após uma ida a Alcobaça em 1852, o futuro rei D. Pedro V anotava, com desagrado, a forma como a família real ali havia sido recebida: “era quase impossível romper por entre as turbas que rompiam em aclamações, ao som das músicas e ao ruído insuportável dos clássicos foguetes, sem os quais não pode haver regozijo público em Portugal”. Mais próximo de nós, Salazar olhava a população que a providência o encarregara de disciplinar com mal disfarçado desgosto. Entre os intelectuais e as massas existiu sempre um abismo.”…/

/…Tal como sucede no caso de uma pessoa, a memória de uma nação é a base da sua identidade. É por isso que considero que, sem uma historiografia rica, viva e polémica, o debate sobre as características nacionais é uma imbecilidade.”

 
Maria Filomena Mónica


Peniche, 22 de Fevereiro de 2020
António Barreto

Nós os Portugueses (Maria Filomena Mónica)


A violência da escola moderna (11 de Junho de 2006)


“…O que nenhuma (esquerda e direita) é capaz de reconhecer é que, pela sua própria natureza, a instituição escolar representa uma violência - uma boa forma de violência - mas, apesar de tudo, uma violência….
…Se estas duas instituições, a escola e a família, se resignarem ao status quo, os valores civilizacionais que considerávamos adquiridos correm o risco de desaparecer.”

Maria Filomena Mónica
 
Peniche, 22 de Fevereiro de 2020
António Barreto

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Nós os Portugueses (Maria Filomena Mónica)


Na cauda da Europa (16 de Julho de 2006)

   “…Sucede que, com a globalização, a concorrência aumentou, podendo acabar por nos liquidar. Os sete países recentemente integrados da UE, que possuem um PIB per capita inferior a Portugal, ultrapassar-nos-ão antes de 2050, uma vez que exibirão taxas de crescimento mais elevadas do que as nossas. O rendimento médio português passará a ser o mais baixo de todos. De novo, estaremos onde sempre estivemos, isto é, na cauda da Europa. Dois fatores existem - a sempiterna fraca produtividade e o envelhecimento da população - que explicam esta situação.”

   Antero de Quental, nas palestras, que proferiu em 27 de Maio de 1871, chamadas “Conferências do Casino”, atribuía o atraso luso a três causas: o Concílio de Trento (a Religião Católica), o estabelecimento do Absolutismo (a destruição das liberdades locais) e o desenvolvimento das “Conquistas Longínquas” (os Descobrimentos).

  Passadas décadas, alterados os regimes e a demografia, mantém-se o interesse pelas causas do nosso atraso - a dimensão do mercado, o analfabetismo popular, a situação periférica - sem que se tenha chegado a uma conclusão definitiva.

   Tem sido moda comparar o caso português com o da Finlândia, país pobre que enriqueceu subitamente. Contudo, surpreendentemente, a causa não foi a tecnologia - Nokia - mas a maior produtividade da sua agricultura face à portuguesa.

   Em 1850 o PIB per capita dos dois países era idêntico, mas em 1914, o de Portugal baixou para metade do da Finlândia.

   Porém, não devemos desesperar, rezam as projeções demográficas que os europeus estão em vias de extinção antes do ano 3000; o último francês expirará em 2107, o último italiano em 2180 e o último inglês em 2780. Quanto ao último português não há estudos.

   Contrariando a teoria de Malthus, não será por falta de alimentos que a Civilização que conhecemos desaparecerá, mas por falta de vontade de procriar.
 
Maria Filomena Mónica

Peniche, 1 de Março de 2020
António Barreto