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Olhando Para Dentro 1930-1960 (Bruno Cardoso Reis) (Em História Política Contemporânea, Portugal 1808-2000, Maphre - nota...

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domingo, 9 de agosto de 2026

Notas sobre Humberto Delgado

 

Notas sobre Humberto Delgado

 

Humberto Delgado


Humberto Delgado, Henrique Galvão e alguns republicanos - Cunha Leal, José Relvas, Mendes Cabeçadas, Sinel de Cordes, João Belo, Vicente de Freitas e outros -, apoiaram o golpe militar de 1926 e, alguns deles, Salazar. O estado caótico do país conduziu ao golpe militar liderado pelo general Gomes da Costa, um veterano de guerra.


Delgado, por incumbência de Salazar, que queria carreiras aéreas com as províncias ultramarinas, foi o fundador da aviação civil em Portugal.


O contacto que teve com altas patentes americanas no âmbito da NATO, mudou a sua visão do mundo. A fraude nas eleições de 1958, de que fora candidato, com o apoio das oposições, determinou-o a derrubar o regime


Era corajoso, arquitetou o assalto ao quartel de Beja - no qual interveio Varela Gomes, o homem da 5ª Divisão que, em 75, inviabilizou a manifestação do 28 de Setembro convocada por Spínola, em pleno PREC, contra Vasco Lourenço, que ele próprio, ingenuamente, nomeara Primeiro-Ministro, e os comunistas que dominavam o país com o apoio do MFA e dos partidos tidos por moderados.


Apesar de procurado pela PIDE entrou em Portugal disposto a participar no fracassado assalto ao quartel de Beja. Quando chegou tudo tinha terminado. A PIDE patrulhava a zona, mas Delgado conseguiu escapar.


A “Revolta da Sé” – conspiração realizada em 1959 na Sé Patriarcal de Lisboa -, na qual participaram Manuel Serra, Henrique Galvão – que viria a fazer dele o líder político do sequestro do Santa Maria -, Jaime Cortesão, António Sérgio, Ferreira de Castro, entre outros, resultou da mobilização que a sua candidatura provocou entre os opositores de Salazar, decididos a derrubar o regime.


Com o apoio da comunidade lusa no Brasil - grande parte apoiava Salazar -, fundou um núcleo de cariz político e um campo de treino de operacionais com os quais pretendia derrubar Salazar.


Passada a euforia mediática do sequestro, com os recursos e os apoios, no Brasil, a escassearem, desentendeu-se com Galvão, e foi juntar-se ao grupo de Argel - Mário Soares, Álvaro Cunhal, Piteira Santos, Manuel Alegre, Emídio Guerreiro e outros.


Sob proteção de Ben Bella, o presidente Argelino que fora cabo do exército francês e dava guarida e apoio logístico aos opositores de Salazar –, o General fundou a FPLN – Frente Patriótica de Libertação de Nacional – com o propósito de congregar, sob sua tutela, todos os oposicionistas, articulando ações de natureza insurrecional contra o regime.


Considerando-se legitimado a liderar a Frente Patriótica, não aceitou subjugar-se aos soviéticos, que pretendiam liderar a oposição através do PCP.


A sua determinação em provocar ações insurrecionais no país contendia com a via encetada pelo PCP, empenhado no endoutrinamento das populações preparando-as para um futuro golpe militar, como veio a acontecer em 74.


Irredutível, o “General Sem Medo” abandonou a FPLN e fundou a FLP - Frente de Libertação de Portugal, com alguns dissidentes, mas de âmbito mais restrito, consumando a divisão dos oposicionistas.


Apoiou os grupos de guerrilheiros inimigos das forças armadas portuguesas, diplomaticamente, e fornecendo-lhes armamento soviético, via Checoslováquia.


Delgado nutria um profundo desprezo pelos combatentes portugueses, o nosso “zé soldado” que, com o futuro adiado, passava tormentos nas matas de África em nome de Portugal. Por isso o considero traidor.


Com o apoio, de jure, de Ben Bella – que lhe disponibilizara instalações e uma estação de rádio, de que se apropriaria Manuel Alegre após a sua morte -, e lhe prometera ajuda financeira, armamento e apoio aéreo, dum grupo de ex-militares espanhóis - cerca de 40 mil, exilados em Paris e empenhados no derrube de Franco -, e outros operacionais sob seu controlo, planeou invadir Portugal pelo Algarve – à semelhança do que fizera o Duque de Alba no século XVI – convencido que tal bastaria para um levantamento insurrecional geral no meio militar.


Apesar da falta de comprovação documental acredito ter sido esta a gota de água que terá levado Salazar a decidir neutralizar Humberto Delgado.


A PIDE, porém, graças aos agentes que infiltrara entre os conspiradores, - Ernesto Lopes Ramos, subinspetor, infiltrado como Dr Castro e Sousa, e o funcionário do consulado em Itália, Mário de Carvalho - conhecia todos os seus movimentos, do grupo de Argel e do grupo de Paris.

Segundo Cerqueira, Humberto Delgado acreditou em quem mais confiava, Mário de Carvalho, e deslocou-se a Villanueva del Fresno, onde se encontraria com um grupo de conspiradores portugueses, oriundos do meio militar, prontos a lançar uma rebelião contra o regime.


Henrique Cerqueira, avisou-o do perigomas o General, arriscou, não queria faltar ao compromisso com Mário de Carvalho. Esteque ficara de o acompanhar, acabou por sair de cena, desconhecendo-se o seu paradeiro. Quem insistiu em o acompanhar foi Arajaryr Moreira a sua secretária brasileira.


Os "conspiradores" aguardados foram, afinal, Casimiro Monteiro, Rosa Casaco, Agostinho Tienza e Ernesto Lopes Ramos, o infiltrado Dr Castro e Sousa. Assassinaram-no a 13 de Fevereiro de 1965 no lugar de Los Almerinespróximo de Villenueva del Fresno.


Casimiro matou Delgado, Arajaryr foi morta por Agostinho. Silva Pais, diretor da PIDE foi o mentor da “Operação Outono”. Delgado levara a sua pistola de defesa pessoal e não se submeteuConsta que Salazar teria dado ordens para o não matarem.


Delgado, lutava por uma democracia em Portugal mas nunca foi socialista. Inebriado pela campanha eleitoral, via-se com o dever histórico de derrubar a ditadura. Egocêntrico, determinado, autoritário e ingénuo, subestimou Cunhal e os soviéticos. Julgava-se uma espécie de super-homem e comportava-se como tal. O fascínio, a urgência da luta, tornaram-no imprudente, aventureiro. E isso foi-lhe fatal.


Henrique Cerqueira, no seu livro “Acuso”, culpa os conspiradores, em particular Mário Soares e Álvaro Cunhal, pelo assassinato do General. Segundo ele, saberiam da emboscada e nada fizeram para o impedir, insinuando que teriam interesse na sua morte.


Que saiba, nada foi comprovado, porém, é certo que os planos do General colidiam com os do PCP, que atribuía ao General a causa do recrudescimento da repressão da PIDE contra os seus militantes.


Delgado aproximara-se dos soviéticos, por pragmatismo, e afastou-se deles por convicção e medo; convenceu-se de que tencionavam matá-lo.


Apoquentado com um problema de saúde abdominal, Cunhal consegui-lhe internamento num conceituado hospital da Checoslováquia. A cirurgia correu mal e quiseram levá-lo para Moscovo. Delgado temeu pela vida e recusou o convite.


Surgiu então a oportunidade de se tratar em Itália, que viria a ocorrer com sucesso. Nesse contexto conheceu Mário de Carvalho, que o acompanhou, estabelecendo-se uma relação de forte cumplicidade conspirativa, que viria a ser fatal ao General.


Subsistem dúvidas sobre quem teria convencido o General a deslocar-se a Villanueva Del Fresno. Uns dizem ter sido Ernesto Ramos Lopes, o subinspetor infiltrado no grupo de Paris, mas Henrique Cerqueira afiança que foi Mário de Carvalho.


Mário Soares, segundo alguns, apropriou-se do legado político de Delgado ao propor-se, espontaneamente, para advogado da família, nos processos que se seguiram, em Espanha e em Portugal.


Esta é a razão pela qual o PS se considera o herdeiro político de Delgado, pretendendo, implicitamente, reivindicá-lo ao rebatizar o aeroporto da Portela com o seu nome, estabelecendo o contraponto ao aeroporto Sá Carneiro.


Considero inadequada a alteraçãoApesar de Humberto Delgado ter sido o fundador da aviação civil em Portugal – era Oficial da Força Aérea -, e de ter dado a vida pela democracia, não lhe perdoo a traição aos combatentes portugueses e a Portugal.


                                                       Vasilij Kandinskij - Park of St. Cloud - Entrance, 1906.

Peniche, 9 de agosto de 2026

António Barreto


sábado, 27 de junho de 2026

O Declínio da Europa

 

O Declínio da Europa


A Europa perdeu a vantagem tecnológica decorrente da Revolução Industrial e procura, desesperadamente, criar um novo ciclo com a "crise" climática. Não vai funcionar! Foi a expansão do comércio internacional, subsequente à descoberta de novas rotas marítimas - de que Portugal foi pioneiro -, que deu origem à primeira Revolução Industrial.


O mercado, a expansão da procura, foi a sua causa. Agora pretende-se forçar um novo ciclo por via administrativa, impondo critérios ao mercado. Não funcionará!


Mas não é tudo; com a caducidade dos atos coloniais, os países europeus perderam a exclusividade do acesso às matérias primas e aos mercados das respetivas colónias bem como do correspondente transporte.


Por outro lado, a competitividade chinesa decorre dos reduzidos custos do trabalho - em regime de semi-escravatura, num contexto de capitalismo de Estado - enquanto na Europa, os custos do trabalho são altos e compulsivamente crescentes.


O Estado Social Europeu, desenvolvido no pós-guerra graças às elevadas taxas de crescimento económico nos trinta anos seguintes, são incompatíveis com as taxas de crescimento atuais.


A exclusividade do conhecimento, que gerou a economia de alto valor acrescentado, inexiste!


Entretanto, o novo ciclo da Revolução Industrial, virá, sem sombra de dúvida, da IA! E que revolução vai ser!


Finalmente, a superioridade normativa europeia, gerada nos séculos XVIII e XIX, fator importante do neocolonialismo subsequente à descolonização, está esbater-se. Enquanto as universidades europeias transformadas em centros de doutrinação ideológica, estão em declínio, os países emergentes, China, Índia, etc., criaram as suas próprias fontes de conhecimento, reduzindo a sua dependência nesta matéria.

Conclusão: De uma forma ou de outra os europeus estão condenados ao empobrecimento; ou reduzem-se os custos do trabalho, ou "descobrem-se" novos fatores indutores de ganhos de produtividade, ou o declínio da quota no mercado internacional continuará a aumentar.


A via, que tem sido seguida, da expansão do mercado interno pela imposição do consumo, é limitada e indutora de tensões sociais.


É neste contexto que surge a questão da imigração; um dos propósitos desta avalanche de imigrantes é, precisamente, o da redução dos custos do trabalho pelo aumento da oferta, apostando na economia de baixo valor acrescentado.


Um delírio gerado pelo desespero.


A UE tem que mudar de rumo, reduzindo tecnocracia e liberalizando a economia.





Peniche, 27 de Junho de 2026

António Barreto

terça-feira, 9 de junho de 2026

Retornados, não. Abandonados, sim!

 

Retornados, não. Abandonados, sim!


Não sei quem teve a ideia de chamar retornados aos portugueses de África que vieram para Portugal por ocasião da independência das ex-colónias. Mas sei que a intenção era a de atenuar a tragédia que se estava a viver. A consciência da culpa e o medo da reação das populações aguçou o engenho aos descolonizadores, auto-convencidos do seu papel divino de libertadores dos povos oprimidos sem perceberem que os atiravam para ao braços do neocolonialismo.


Ora, retornado é alguém que regressa ao local de origem por sua livre vontade. E não foi isso que sucedeu! Vítimas de perseguição dos bandos de malfeitores, a quem os "bravos" do MFA e dos partidos de abril entregaram as províncias ultramarinas, os portugueses de África, ante a passividade das tropas portuguesas, que cruzavam os braços, indiferentes às barbaridades, de todo o tipo de que eram vítimas, foram obrigados a fugir, correndo mil perigos, para salvar a pele. Muitos ficaram pelo caminho, mortos, abusados e estropiados. Muitos eram nativos de África, nunca seriam retornados.


Por conseguinte, o termo mais apropriado para os classificar é o de escorraçados, ou de perseguidos, ou, ainda melhor: os abandonados!


Abandonados pelo país de Afonso Henriques, de D. Dinis, de D. João I, de D. João II, de D. Manuel, de D. Sebastião, de D, João IV e seguintes.


E desse feito juram orgulhar-se os seus autores!


E falam em "reparações" aos que os perseguiram, aterrorizaram, lhes confiscaram os bens e destruíram quase tudo o que foi construído ao longo dos séculos.


Quem aterrorizou, roubou e matou já cobrou as ditas "reparações"!


Para os abandonados do ultramar não há "reparações"! Reconhecer-lhes esse direito seria admitir a culpa, a traição à Pátria. Nunca o farão!


É mais fácil e cómodo atribuir-lhes a culpa da tragédia como consequência da alegada "exploração" dos nativos, esquecendo o suor que derramaram a desbravar e tornar férteis aquelas terras de fim do mundo que tanto amaram.


Nem um pedido de perdão, nem um pedido de desculpas, quanto mais reparações!


E assim nasceu, sem honra nem glória , esta terceira república que, alucinadamente, conduz Portugal e os portugueses à insignificância e ao opróbrio, sem sequer olhar para trás e perceber que Portugal não nasceu em abril de 74, mas da visão e determinação de um Homem há quase 900 anos.




Peniche, 9 de junho de 2026

António Barreto



Benfica - o caso Mourinho

 Benfica – O caso Mourinho


O caso é complexo e não se lhe conhecem os detalhes. Porém, há parâmetros óbvios: Mourinho, despedido do Fenerbahçe, tinha a carreira em declínio. Rui Costa com eleições à vista precisava de um trunfo, Bruno Lage, depois de um meio-brilharete no mundial de clubes e da qualificação meritória para a Liga dos Campeões, tinha perdido a equipa devido à entrada titubeante no campeonato. A chegada de Mourinho deu um impulso motivacional à equipa sénior, às equipas da formação, aos adeptos, resultando num alívio de tensões sobre a Direção e na reeleição de Rui Costa.


Num contexto de disputa dos direitos televisivos, o Benfica foi empurrado para fora da Lga dos Campeões, atirado para a Liga Europa, sob condição, com o propósito de desvalorizar o clube e reduzir a sua quota na distribuição dos direitos televisivos. Tenho a impressãde que Mourinho tinha anticorpos no Benfica e, por outro lado, não deve ter gostado da passividade do clube ante os sistemáticos "equívocos" de arbitragem, sempre, em prejuízo, direto ou indireto, do Benfica.


A evidente e reiterada subjugação dos clubes ao "manto verde", a perspetiva de deambulação pela 2ª Liga europeia no Benfica, de atacar a Liga dos campeões no Real, e, naturalmente a valorização remuneratória, decidiu Mourinho a aceitar o convite deste, onde Florentino, debatendo-se numa crise de confiança perante os adeptos face ao desastre desportivo da época, carecia, tal Rui Costa de novo trunfo.


E resultou. Foi reeleito, num processo em que o Mourinho anuiu à propaganda eleitoral do Presidente do Real, revelando falta de caráter por estar estar, ainda, ao serviço do Benfica.


Gostaria que tivesse ficado, pois parece-me que estava a fazer um grande trabalho na monitorização dos jogadores da formação,


O certo é que o Benfica não consegue fazer o que o Real fará: contratar os melhores jogadores da Europa. Nem é nisso que reside o mérito dum Treinador.


Confio no Marco Silva, sei que fa um bom trabalho: é competente, corajoso e sente o clube. O que não sei é se a Direção tem capacidade para enfrentar, frontalmente, os inimigos do Benfica.


Porém, já anunciaram uma nova investigação aos clubes de futebol. Cheira-me a esturro. Oxalá me engane, mas o visado deve ser o Benfica. Ilibado do caso Saco Azul, é preciso inventar nova suspeita cuja investigação durará mais dez anos!


O método é simples; consiste em pôr em prática a metáfora de Damocles; manter a espada sobre o pescoço da vítima pronta a desferir o golpe fatal a qualquer momento.


Salvo melhor opinião, é esta a causa primordial do silêncio do Benfica ante as malfeitorias de que tem sido vítima em todas as frentes.


Há uma forma de acabar com isto, mas não vejo ninguém a referi-la: apontar o dedo ao partido do Governo que compactua com o estado atual da arte. Mas isso exige arte, sabedoria, engenho. Infelizmente, os "grandes benfiquistas", os notáveis, só o são se o Benfica ganhar, Ante a injustiça preferem calar-se.


Precisamos de um líder que saiba apontar o caminho aos adeptos e simpatizantes e se coloque à frente das "tropas" frente aos que querem reduzir o clube à vulgaridade. Como disse o outro: “isso são outros quinhentos”



                                       Bert Hardy - A boy and girl hold hands under an archway

                                        in the Gorbals, a slum of Glasgow, 31st January 1948.


Peniche 08 de Junho de 2026

António Barreto

sábado, 25 de abril de 2026

Patriotismo em Angola

 

Patriotismo em Angola



“Lá bem no centro do enorme refeitório, alguns militares subiram para cima das mesas e munidos de guitarras e violas, começaram a cantar a “Grândola Vila Morena”, O nervoso que se apossara de mim durante os discursos, desaparecera com a descarga algo tempestuosa do mal que me invadira, mas parecia-me que qualquer coisa desconfortante começava novamente a bulir comigo. Esperei que terminassem a canção para me retirar e evitar assim qualquer situação mais delicada. Mas o grupo, em vez de dar por finda a sua atuação, arrancou com uma segunda volta.


A barreira do suportável tinha ou estava prestes a ser ultrapassada pelo que, voltando-me para o Granjo de Matos, disse:

- Ordene silêncio através do sistema sonoro e que saiam de imediato de cima das mesas!

Após todos os homens terem retomado os seus lugares em volta das mesas, disse ao Comandante:

- Ordene posição de sentido e informe que vamos todos cantar o Hino Nacional!


Mais uma vez a ordem foi cumprida sem a mínima hesitação e voltei uma vez mais a pedir ao Granjo de Matos:

- Ordene novamente sentido e vamos cantar mais uma vez o Hino Nacional!

Novamente aquelas vozes ressoaram através do refeitório, fazendo vibrar até os menos crédulos.


Fez-se um silêncio profundo, mesmo impressionante. Aguardei dois ou três minutos que pareceram uma eternidade e disse ao Comandante:

- Mande pôr todo o pessoal de pé e informe que o Comandante-Chefe das Forças Armadas de Angola vai sair!


Poderia ter utilizado uma porta lateral, ali mesmo ao lado da mesa em que me encontrava. No entanto, e sem qualquer hesitação, decidi avançar pelo meio daquele corredor humano com a certeza de que alguma coisa iria acontecer. E aconteceu...Quando havia percorrido cerca de metade da distância que me separava da saída uma autêntica explosão de palmas irrompeu por toda a sala. Foi um momento difícil. Limitando-me a acenar com o braço como que num agradecimento, não consegui evitar que umas lágrimas teimosas me rolassem pela face.”


Silva Cardoso Alto Comissário de Angola em 1975, nas comemorações do 25 de abril em Luanda, em “Angola Anatomia de Uma Tragédia”


Silva Cardoso, foi Oficial da Marinha, e da Força Aérea, tendo-se destacado na guerra de Angola, desde o seu início, durante a recuperação dos territórios do norte derrotando os terroristas da UPA.

Liderou a instalação da Força Aérea em Angola e foi destacado para imobilizar o Santa Maria em caso de o navio se dirigir para Luanda, como tinha sido planeado por Henrique Galvão. Para este fim esteve estacionado em Cabo Verde com o seu avião equipado com mísseis prontos a disparar sobre o leme do navio, retirando-lhe o governo. Não foi necessário, depois de muitas peripécias o navio aportou no Recife.


Peniche, 25 de abril de 2026

António Barreto