Publicação em destaque

Olhando Para Dentro (notas)

Olhando Para Dentro 1930-1960 (Bruno Cardoso Reis) (Em História Política Contemporânea, Portugal 1808-2000, Maphre - nota...

Pesquisar neste blogue

sábado, 25 de abril de 2026

Patriotismo em Angola

 

Patriotismo em Angola



“Lá bem no centro do enorme refeitório, alguns militares subiram para cima das mesas e munidos de guitarras e violas, começaram a cantar a “Grândola Vila Morena”, O nervoso que se apossara de mim durante os discursos, desaparecera com a descarga algo tempestuosa do mal que me invadira, mas parecia-me que qualquer coisa desconfortante começava novamente a bulir comigo. Esperei que terminassem a canção para me retirar e evitar assim qualquer situação mais delicada. Mas o grupo, em vez de dar por finda a sua atuação, arrancou com uma segunda volta.


A barreira do suportável tinha ou estava prestes a ser ultrapassada pelo que, voltando-me para o Granjo de Matos, disse:

- Ordene silêncio através do sistema sonoro e que saiam de imediato de cima das mesas!

Após todos os homens terem retomado os seus lugares em volta das mesas, disse ao Comandante:

- Ordene posição de sentido e informe que vamos todos cantar o Hino Nacional!


Mais uma vez a ordem foi cumprida sem a mínima hesitação e voltei uma vez mais a pedir ao Granjo de Matos:

- Ordene novamente sentido e vamos cantar mais uma vez o Hino Nacional!

Novamente aquelas vozes ressoaram através do refeitório, fazendo vibrar até os menos crédulos.


Fez-se um silêncio profundo, mesmo impressionante. Aguardei dois ou três minutos que pareceram uma eternidade e disse ao Comandante:

- Mande pôr todo o pessoal de pé e informe que o Comandante-Chefe das Forças Armadas de Angola vai sair!


Poderia ter utilizado uma porta lateral, ali mesmo ao lado da mesa em que me encontrava. No entanto, e sem qualquer hesitação, decidi avançar pelo meio daquele corredor humano com a certeza de que alguma coisa iria acontecer. E aconteceu...Quando havia percorrido cerca de metade da distância que me separava da saída uma autêntica explosão de palmas irrompeu por toda a sala. Foi um momento difícil. Limitando-me a acenar com o braço como que num agradecimento, não consegui evitar que umas lágrimas teimosas me rolassem pela face.”


Silva Cardoso Alto Comissário de Angola em 1975, nas comemorações do 25 de abril em Luanda, em “Angola Anatomia de Uma Tragédia”


Silva Cardoso, foi Oficial da Marinha, e da Força Aérea, tendo-se destacado na guerra de Angola, desde o seu início, durante a recuperação dos territórios do norte derrotando os terroristas da UPA.

Liderou a instalação da Força Aérea em Angola e foi destacado para imobilizar o Santa Maria em caso de o navio se dirigir para Luanda, como tinha sido planeado por Henrique Galvão. Para este fim esteve estacionado em Cabo Verde com o seu avião equipado com mísseis prontos a disparar sobre o leme do navio, retirando-lhe o governo. Não foi necessário, depois de muitas peripécias o navio aportou no Recife.


Peniche, 25 de abril de 2026

António Barreto