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Olhando Para Dentro 1930-1960 (Bruno Cardoso Reis) (Em História Política Contemporânea, Portugal 1808-2000, Maphre - nota...

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sábado, 14 de janeiro de 2023

Memórias de Bordo

 

Memórias de Bordo IV

O Fim de uma era (4)

  

 Zarpámos nessa mesma tarde rumo a Madagascar onde o navio foi abastecer de combustível. Antsiranana, porto situado no extremo setentrional da ilha, foi o destino, (salvo-o-erro).

   Estava mau tempo. O mar, anteriormente azul, era agora verde-esmeralda. No trajeto cruzámo-nos com um cargueiro à deriva. Ao fim de uma ou duas horas, em que nos mantivemos por ali, a pairar, passámos-lhe um cabo e iniciámos o reboque.

   Costumava ir para a ré observar o navio; a proa branca, alta, não muito lançada, tinha uma certa imponência. Uma suave cachoeira esverdeada, com rendilhados brancos, transfigurando-se a cada instante, enfeitava-lhe a base. Tinha nome esquisito. Durou uns dias, quatro ou cinco. Tive pena quando, já perto de terra, transferimos o reboque. Habituara-me a vê-lo diariamente.

   No porto tivemos permissão para uma curta visita à cidade. Havia por lá uma feira de artesanato. - Basso! vamos procurar um táxi. – Não há; só há riquexós, olha ali. – Não queria acreditar e continuei a procurar um táxi; nada! – Vamos a pé! – disse eu. – São quase vinte quilómetros! – Foda-se! Vamos para bordo! – Vamos à feira; damos um dinheirinho a ganhar ao homem; é assim que ganha a vida. - Contrafeito, voltei a olhar para os riquexós, talvez dois. O operador era um meia-leca, tipo filipino, de tanga, ou calções. Lá fomos. Pagámos-lhe, salvo-o-erro, dez dólares cada. Sentia-me desconfortável, não gostava daquilo. Durante cerca de meia hora, o “meia-leca” puxou o riquexó numa impressionante cadência, talvez da ordem dos 20 Km/h. – Que grande fundista! E a puxar uma carroça com dois marmanjos dentro! – Em competições oficiais fazia miséria!

  Chegados na feira, ficou o estafeta à nossa espera e demos uma volta pelas barracas de vasto e rico artesanato. Comprámos umas peças; eu, um escudo com duas lanças em madeira negra - que ainda guardo -, e regressámos a “casa”.

   Largámos para a derradeira etapa do nosso Vera Cruz; a travessia do Índico. Voltámos à rotina diária. Passados quatro ou cinco dias a temperatura exterior foi aumentando até atingir cerca de 40 a 45 C. A Casa das Caldeiras, transformou-se numa espécie de fornalha, e a tarefa da “injeção”, uma tortura a que não nos furtávamos apesar de, nalgumas zonas, suportarmos, temporariamente - por 5 a 10 minutos - temperaturas da ordem dos 50 a 55 C.

   A certa altura ocorreu algo extraordinário; o pôr-do-sol! Começava cedo, cinco, seis horas da tarde, e durava horas, duas ou três; o céu tingia-se, integralmente, de tons avermelhados, laranjas amarelos! Nunca vira nada assim! Costumava ir para a amurada do convés assistir a este maravilhoso espetáculo da natureza de que ainda guardo memória visual.

      Num quarto noturno, chega-se, sorrateiro, o azeiteiro, o “Polícia”, alegado cadastrado, que, constou-se, cumprira pena no Limoeiro: - “Sô” terceiro; sabe o que é isto? – Uma folha de serra. – Respondi. – Não! é uma gazua! – Uma gazua? – Sim, serve para abrir portas. – Disse, num fôlego, o eletricista; o das “televisões” do Infante. - Fantástico! Devia haver uma em todos os navios. - Disse eu. – E há, mas esta é especial, além de portas abre cadeados, faz-se assim, fez o gesto, dá-se um jeitinho e já está! Pega-se numa folha de serra de aço rápido, parte-se ao meio e, na mó, faz-se este ângulo, assim, “tá” a ver? – Disse o Polícia. – Olhe, ofereço-lha! – Obrigado, ponha aí junto ao telefone. – Disse eu, por cortesia, sem saber o que fazer àquilo.

   Num dos quartos seguintes, já no último terço da etapa, voltou a chegar-se o “Polícia”. – “Sô” terceiro, esta noite não há nada p’ra gente! - Nos paquetes era costume haver uma espécie de merenda a meio dos quartos, variava com o navio; gelado de dia, febras à noite, no caso do Infante, no Vera Cruz não me recordo. Prosseguiu: - Se o “sô” terceiro quisesse podíamos fazer uma omelete. – Uma omelete? E como fazíamos isso? – O “sô” terceiro ia à câmara dos mantimentos e trazia uns ovos. – Eh lá! Isso não é grande ideia! Os ovos fazem falta ao Despenseiro. – Disse eu, pensando que ele estava a gracejar. – Não fazem nada; estão lá muitos, não conseguimos comê-los todos. Ficam cá para os chinocas. Isso é que era bom!

– A resposta fez-me pensar; a viagem estava no fim…podia ir lá ver a reserva de ovos. – Mesmo que haja ovos não temos onde fazer a omeleta! – Temos, temos, é na válvula de saída de vapor da caldeira de estibordo (uma válvula aí com 0,5 m de diâmetro e a cerca de 120 o C). Já está tudo pronto, a tampa da válvula está a rebrilhar, o Zé de Alfeizerão - um dos fogueiros - tratou de tudo; só faltam os ovos. – Então e como é que abro a porta da câmara? – Com a “gazua” que lhe ofereci! – Ah, grande malandro!- disse para mim, pegando na “gazua”, junto do telefone e avançando para a câmara dos mantimentos, descrente nas “virtudes” da “coisa”. Meti a ponta da folha na ranhura do cadeado, rodei ligeiramente para a direita e, clique! O cadeado abriu! – Ai aquele filho da mãe; se calhar é mesmo verdade a estória do Limoeiro!- Disse para comigo.

   Abri a porta e entrei. Mesmo em frente uma resma aí de uma dúzia de fiadas de ovos. - Sempre é verdade! Uma caixa a menos não faz falta nenhuma; deixa-me cá levar duas, senão não chega para todos. – Olha os chinocas, hãTá bem, tá! – Eh, lá! Será que aquilo ali é o que estou a pensar? - Era! Vinhinho verdinho branquinho, Casal Garcia ou coisa parecida! – Venham para cá duas, que isto às secas não dá nada! – Vinha a sair quando me deparei com uma bateria de chouriços suspensa do teto. Alto aí, que omeletes lisas não matam a fome; venham para cá duas.

   Entreguei a “carga” ao “Polícia” que, com o fogueiro, foi preparar a tão ansiada omeleta. E não é que, contra a minha espectativa, saiu perfeita? Saboreada a deliciosa refeição, com a frescura do verdinho ainda no paladar, saciados, prosseguimos as nossas tarefas de condução das bravateantes, impassíveis e cúmplices caldeiras.

   Nos dias seguintes, andou o Despenseiro, esbaforido, a investigar a causa do misterioso “desaparecimento” dos ovos. Moita-carrasco; ninguém se desmanchou e as caldeiras não falam. Nem demos pela falta dos ovos nas ementas.

   Dias depois chegámos a Kaohsiung. Ficámos ao largo durante, talvez, duas semanas. Não faltaram mantimentos.


Artesanato de Madagascar

Porto de Antsiranama

Artesanato de Madagascar
(Continua)

PS:

o   - Não estou certo se o porto foi o de Antsiranana.

o   - O Zé de Alfeizerão é nome fictício; não recordo quem foi o chef do quarto; se      um dos fogueiros, se o electricista.

o   - O “Polícia” está numa das fotos que em tempos publiquei, à porta do Majestic.

Peniche, 14 de Janeiro de 2023

António Barreto

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

A Invasão em Brasília


 

A Invasão dos Edifícios dos Três poderes em Brasília

 

   A invasão que se verificou no dia 8 de Janeiro de 2023, dos edifícios do Governo, do Congresso e do Senado, por alegados apoiantes de Jair Bolsonaro, em que foi destruído diverso património mobiliário e artístico, tem causas próximas, intermédias e remotas.

   A causa remota e primordial consistiu na anulação da sentença de condenação de Lula da Silva, com restituição dos respetivos direitos políticos. A fundamentação apresentada foi a da inadequação do foro do Tribunal de Primeira Instância, onde todos os crimes foram provados, tal como nos dois Tribunais superiores subsequentes.

   Lula da Silva continua arguido e deverá ser julgado novamente, se não ocorrer prescrição, cujo prazo, por sinal e no seu caso devido à idade, é reduzido para metade. Ainda assim, só depois de findo o mandato tal julgamento poderá ocorrer.

   Sucede que o Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Edson Fachin, responsável pela anulação, foi nomeado em 2015, para o cargo, por Dilma Rousself, sucessora de Lula da Silva, com o apoio deste e do partido de ambos, o Partido dos Trabalhadores (PT).

   Isto não caiu bem na população em geral e nos apoiantes de Bolsonaro em particular. Estes passaram a ver o STF não como o guardião da Constituição, politicamente, equidistante, mas como uma instituição vinculada ao PT. Esta perceção foi reforçada pelo facto de a maioria dos Ministros do STF terem sido nomeados, três por Lula da Silva; Ricardo LewandowskiCarmen Lúcia e Dias Toffoli; quatro por Dilma RousselfLuiz FuxRosa Weber, Roberto Barroso e Edson Fachin. Dos restantes, Nunes Marques e André Mendonça, foram nomeados por Bolsonaro; Gilmar Mendes Fernando Henrique Cardoso e Alexandre de Morais por Michel Temer. Estes dois últimos Presidentes, politicamente simpatizantes do PT.

   Como se vê, os ministros do STF afetos ao PT estão em maioria e o seu comportamento em todo o mandato de Bolsonaro caracterizou-se por uma hostilidade permanente e sistemática a este, ao seu Governo e aos seus apoiantes. São as causas intermédias.

 A lista é extensa; veja-se aqui: https://revistaoeste.com/login/?redirect_to=https://revistaoeste.com/politica/stf-ja-tomou-123-medidas-contra-bolsonaro-mostra-levantamento;

e aqui:

https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2022/stf-tse-quais-sao-as-acoes-e-inqueritos-nas-duas-cortes-podem-afetar-a-campanha-de-bolsonaro/; e aqui: https://www.metropoles.com/brasil/veja-as-ocasioes-em-que-o-stf-barrou-decisoes-do-governo-bolsonaro.

     Juristas conceituados, de que se destaca Ives Gandra Martins consideram que o STF extravasou as suas prerrogativas legais, invadindo áreas da competência dos poderes legislativo e executivo, quebrando a regra fundamental do regime democrático, que consiste no equilíbrio dos três poderes, Legislativo, Executivo e Judicial.

Ver aqui: https://www.youtube.com/watch?v=JmVMspeFlm4.

   Ao ativismo do STF juntou-se o da Comunicação Social dominante, com destaque para o Folha de São Paulo e a TV Globo; ignorando as realizações positivas do executivo, vedando o acesso à divulgação das suas ideias e dos seus apoiantes, estigmatizando-os politicamente, e fazendo o contrário ao seu adversário e respetivos apoiantes. Há mesmo um vídeo, publicado nas redes sociais, com funcionários da TV Globo, a felicitarem-se efusivamente com o resultado eleitoral.

   As razões próximas prendem-se com a terminante recusa do Supremo Tribunal Eleitoral (STE) em fornecer os códigos fonte das urnas eleitorais para confirmação dos resultados da contenda. Tal fortaleceu a ideia de que parte das urnas teriam sido manipuladas, seja pela anterior recusa pelo STE do uso do voto impresso, seja pela anormalidade dos resultados detetados por auditores internos e especialistas externos.

   Mas não só; o ativismo politico-eleitoral do STF e do STE - que partilham o mesmo Presidente, Alexandre de Morais - ultrapassou tudo o que uma democracia idónea consente. Proibiram aos apoiantes de Bolsonaro, uso de termos e expressões pejorativas a Lula, ainda que verdadeiras; mas não o inverso. Congelaram as receitas dos jornalistas livres ou simples ativistas favoráveis a Bolsonaro, tendo alguns que se exilar para não serem presos. Congelaram as contas bancarias de vários empresários, alegados financiadores da campanha deste. Prenderam artistas, agricultores, camionistas e até Senadores da República - apesar do estatuto de impunidade destes -, sem processo formal, sem direito de defesa e mesmo sem facultar às vítimas, o devido acesso processo legal. O Presidente do STF, qual imperador romano, pôs e dispôs a seu belo prazer, sem que fosse acionado qualquer dispositivo legal para restabelecimento da normalidade democrática. O Presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco, bloqueou, todos os pedidos de impedimento de vários senadores, de que se destaca Marcel Van Hatten.

   O resultado eleitoral foi equilibrado, 50,9 % para Lula e 49,1 % para Bolsonaro. A dúvida é pertinente, e o STE teria evitado os desacatos se, em devido tempo, tivesse facultado os códigos-fonte das urnas. Ao recusá-lo, legitimou a dúvida e a indignação, razão pela qual, o considero principal responsável pelo ocorrido, tal como ao Presidente do Congresso.

   Por outro lado, competia às autoridades federais tomar providências, atempadamente, para impedir a invasão, uma vez que, segundo consta, sabiam que iria ocorrer. Caso se tenha verificado a presença de infiltrados do PT instigadores dos atos de vandalismo, justifica-se a ideia de que a invasão foi prevista e desejada pelos apoiantes de Lula, como legitimação da perseguição e prisão, indiscriminada e bárbara, dos manifestantes, que se verifica.

   Merece referência, a postura de um comentador político português, de seu nome João Miguel Tavares, que, numa crónica do Público de 10 de Janeiro de 2023, alegadamente, defende que deveriam ter sido usados meios letais para conter a invasão! Ou seja, se bem entendi para o, geralmente moderado, equilibrado, ponderado e, supostamente culto comentador, as forças de segurança deveriam ter morto a tiro os manifestantes. Assim. Sumariamente. Milhares! Homens, mulheres e crianças! Um caso que nos ajuda a perceber a perigosa derrapagem que o regime democrático português sofreu desde 75 e a baixa estirpe de alguns comentadores políticos da nossa praça.

   Finalmente refiro a Constituição da República Portuguesa que, numa das suas cláusulas, confere ao cidadão o direito de usar a força quando estão em causa os seus direitos fundamentais legalmente consagrados e o Estado não cumpre o dever de os garantir. E é esta a fundamentação dos que defendem o direito dos cidadãos ao uso de armas de defesa.


Alexandre de Morais - Presidente do STE e do STF

Peniche, 12 de Janeiro de 2023

António Barreto

sábado, 7 de janeiro de 2023

Memórias de Bordo

   

                                                             O Fim de uma era (3)

 

       Os dias seguiam pachorrentos a 16 a 18 nós, por aí. Nos portos não havia ordem de sair. O tempo de permanência era o suficiente para a manobra da carga. Luanda, Lobito - talvez Moçâmedes, Cape Town e Durban (não estou certo) -, Lourenço Marques e Beira.

   Desta vez não tive oportunidade de dar umas braçadas nas águas calmas, translúcidas e cálidas das praias da Barracuda, em Luanda, da Restinga no Lobito, da baía de Moçâmedes, nem na piscina do Ferroviário, em Lourenço Marques. Na passagem do Cabo, o avistamento da ilha de Robben - onde Nelson Mandela estava preso -, e da Table Mountain, era sempre um acontecimento.

   Na Beira desembarcou o imediato, meu tio João. A turbulência que se vivia nos portos ultramarinos, com greves múltiplas e sucessivas, à semelhança do que sucedia na Metrópole, impedia qualquer previsão fiável, suposta causa de dissidência com o Comandante. Tive pena, gostava de o ver por ali. O 1º Piloto Bettencourt, homem cordial e popular, subiu a imediato.

   Da Beira seguimos para a Ilha de Moçambique. Desta vez tivemos permissão para ir a terra - por pouco tempo - talvez por anteceder a longa travessia do Índico. Talvez o Comandante Manaças nos quisesse premiar pelos cerca de 30 dias antecedentes, “diretos”.

   A ilha, que teve importância estratégica na rota comercial de Portugal no Índico, nos séculos XV e XVI, fora alvo das investidas dos holandeses no século XVII - destaque para os cercos de 1607 e 1608 -, onde, por essa época, se instalaram os Jesuítas e se deu início ao comércio de escravos para o Brasil, entrou em declínio no século XIX após a independência desta colónia - 1822 - e a proibição da escravatura em 1837.    

    Todo um acervo monumental atesta a sua importância e a presença lusitana; a Fortaleza de São Sebastião, o Forte de São Lourenço, o Fortim de Santo António, a Capela de Nossa Senhora do Baluarte, o Palácio e a Capela de São Paulo, a Igreja da Misericórdia, o Convento de São Domingos, a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, o Hospital, e outros.

   A missão evangélica Católica da epopeia ultramarina de Portugal, contraofensiva à expansão islâmica Otomana, travada na batalha de Lepanto em 1571, com participação de uma esquadra portuguesa, está bem demonstrada pela profusão de monumentos católicos.  

   Do lado oposto, a cidade de Macúti – macúti: folhas de coqueiros usadas na cobertura das palhotas -, construída pelos autóctones quando, no século XIX, lhes foi franqueado o acesso à cidade!

    Baltazar Rebelo de Sousa, Governador-Geral de Moçambique de 1968 a 1970, destacou-se, entre outras coisas, pelo papel que desempenhou na integração da comunidade islâmica da região, objeto de discriminação económica, social e institucional, estabelecendo acordos com os respetivos chefes na sequência de negociações realizadas precisamente na Ilha de Moçambique. 

    Uma esplêndida luminosidade matinal banhava a ampla praça quadrilátera, irregularmente pavimentada a cimento e limitada por edifícios de dois a três pisos, de cores variadas, com destaque para o rosa, amarelo e branco, salvo-o-erro. No meio estacionavam quatro riquexós pretos, impecáveis, com os respetivos operadores, negros, ao lado. Nunca tinha visto! Fiquei chocado. Aquilo parecia-me surreal!

   O Basso: - Vamos dar uma volta pela ilha, Barreto. - Recuso-me a andar numa carroça puxada por um homem. - Eh, pá, mas eles agradecem, ganham um dinheirinho, é a vida deles. - Não me sinto bem com isso. - Hoje estou arrependido; teria ficado a conhecer melhor a ilha.

   Apareceram uns colegas com um roteiro e juntámo-nos a eles numa visita aos principais edifícios e monumentos locais. Todos tínhamos consciência do valor simbólico e Histórico da Ilha e foi com certa emoção que calcorreámos as ruas da cidade. Porém, não visitámos o outro lado; alguém terá dito que não era seguro e o tempo escasseava.

   Finda a inesquecível visita, regressámos a bordo prontos para largar rumo a Madagáscar.


                                                                 Ilha de Moçambique

(Continua)      

   Peniche, 05 de Janeiro de 2023

   António Barreto

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Memórias de Bordo

 

O fim de uma era (2)

 

   Nos céus de Lisboa ouviu-se o troar da sereia do Vera Cruz. Deixando para traz o cais de Alcântara, deserto, o navio cruzou a magnífica ponte rumo à derradeira aventura. Aquele rugido, outrora alegre e altivo, soava-me triste, melancólico e vazio; desta vez nem um só acenar se avistou no cais.

   Na ocasião nem percebi bem o que estava a suceder; aparentemente tratava-se de uma simples medida de racionalização económica; perdido o monopólio do transporte ultramarino não havia capacidade para competir no mercado internacional. A entropia política, social e económica que se vivia no país não era propícia à reestruturação e reorientação da Companhia; faltava capital, competência e, sobretudo, vontade política.

   Um conjunto de sensações foi-se revelando; o fascínio da navegação, essa magia se sulcar os mares, a satisfação de tripular um navio histórico num momento histórico, e a expetativa da longa viagem por mares “desconhecidos” - oceano índico - para destino exótico, Kaohsiung, na ilha de Taiwan, a que os navegadores lusos nos tempos áureos de Portugal atribuíram o bonito nome de Formosa.

  Tínhamos o navio por nossa conta; fraco consolo, que se resumia ao uso de uma das piscinas e a calcorrear livremente os vários espaços, destituídos da animação de outrora; salas de cinema, salões de baile e festas, bares, etc.

   Ocupar os tempos livres era a nossa principal preocupação. No pequeno lençol de água no convés da turística, a ré, a que pomposamente chamávamos piscina, passávamos uma boa parte do dia. No mergulho distinguia-se o Rogério que se atirava de cabeça do varandim do convés superior, algo que ninguém mais se atreveu a fazer; O “Pintas”, o nosso campeão nacional dos 100 metros livres, dava-nos lições de natação. 

   Num dos salões alguns colegas faziam regulares tertúlias jogando cartas e conversando descontraidamente. Uma das vezes, já a viagem ia bem lançada, talvez a um terço, aproximei-me do solitário piano que lá estava, surpreendido por lá o terem deixado e com pena do destino que o esperava. Desajeitadamente, comecei a dedilhar as teclas; não sabia tocar mas conhecia a escala e alguns acordes. A custo lá saiu qualquer coisa com que cantarolei, baixinho, quase em segredo, uma cançoneta que tinha aprendido no Império.

   Esgotada a inspiração, rumava ao camarote quando um colega, concentrado no jogo, e algo displicentemente deixou escapar: - Oh, Barreto vai lá tocar, pá. - Mas o quê? Não sei tocar piano! - Eh, pá toca qualquer coisa! - A viagem ainda ia no início, talvez na zona dos trópicos, mas o peso do silêncio e a ansiedade da espera já se faziam sentir. E lá fui dedilhar as teclas como calhava. Quanto ao piano, não sei se riu se chorou, mas fiquei com pena dele, até porque estava afinado.

   A viagem ia correndo tranquila, sem eventos de mau tempo, mas, nos primeiros quinze dias a casa das Caldeiras foi um autêntico pandemónio, cada quarto era uma aventura! As sequelas do incêndio que deflagrara ao cais de Alcântara traduziram-se em múltiplos curto-circuitos, e a tarefa da “injeção” era um inferno! A acumulação de fuligem era tal que, invariavelmente, entupia as respetivas bacias de recolha e escoamento; cada um de nós terminava a tarefa “cozido” e revestido de fuligem da cabeça aos pés. Passado este período o funcionamento das caldeiras estabilizou, regressando à quase normalidade.

     Num dos quartos noturnos combinei com o Basso (salvo-o-erro) preparar uma armadilha ao Melo - era o 2º Oficial do nosso quarto e fazia serviço no piso de controlo -, atraindo-o para a casa das caldeiras com um pretexto qualquer e pregar-lhe uma valente banhada, ao passar sob o labirinto de escadas e passadiços metálicos. Todo “lampeiro” fui para o piso superior com um balde cheio de água enquanto o Basso dava uma “tanga” ao Melo. Este, fino, não foi no paleio. Ficou a empreitada frustrada e lá vim eu, desanimado, despejar o balde para as cavernas.

   Um belo dia, vinha a entrar de quarto quando, no mesmo local, fui “vítima” duma banhada monumental! Ainda hoje estou para saber quem foi o autor, mas suspeito de tenha sido o “malandro” do Melo. Após a façanha desapareceu sem deixar rasto! O que vale é que aquilo até sabia bem devido ao calor que por lá se fazia sentir. Na verdade, precisávamos de “construir” eventos para quebrar a longa monotonia.

  À noite havia ensaio de fados num dos bares; o guitarrista, colega da máquina, era um velhote de Alfama. Safava-se bem. Já eu, na viola, era tipo José Afonso; “primeira, segunda e marcha à ré”. Com alguns colegas a assistir lá íamos treinando uns castiços a que juntava alguns temas do meu reportório pop.

   Certa vez desentendemo-nos com a harmonia; como não havia meio de chegarmos a acordo, o bom do guitarrista, com disfarçada indignação, aconselhou-me as tocar numa “caixa de sapatos”. Provavelmente estava certo uma vez que eu andava “a apanhar bonés”. Achei graça e prosseguimos.

   Aquilo dava para “desopilar”. Numa das ocasiões, o Basso; - Barreto toca aí a dos vampiros. - Eh, pá, não sei essa! - É do Zeca Afonso! - Começou a cantarolá-la, enquanto eu procurava os respetivos acordes; no dia seguinte entregou-me a letra num papelinho que depois passei à máquina e ainda tenho.

   Por essa ocasião os temas do José Afonso e do Adriano eram muito populares, mas eu, de facto, não conhecia “Os Vampiros”; uma obra-prima do nosso Zeca que até aí me tinha escapado, apesar de admirador de ambos.


Vera Cruz

(Continua)  

Peniche 04.11.2023

António Barreto

sábado, 26 de novembro de 2022

A Liberdade de Ensino em Portugal

                                                     

                                            Cortes Constitucionais de 1822

 

    A liberdade de ensino é um dos campos de combate político mais intenso da democracia portuguesa. em que os partidos de esquerda defendem o controlo pleno do Estado de todo o processo, e os de direita propugnam pela liberdade de ensino. De um lado, concebendo o cidadão propriedade do Estado, impõe-se-lhe o estabelecimento de ensino, as matérias curriculares e a certificação da aprendizagem, incluindo conceitos de natureza ideológica que enformam o partido do poder. Do outro defende-se a liberdade de escolha do estabelecimento de ensino, em conformidade com as preferências de cada cidadão, com especial relevância da formação do espírito crítico, sem prejuízo da submissão à certificação pública final aplicável.

   Tendemos a pensar que vivemos tempos de esplendor tecnológico e social, resultado de uma dinâmica de progresso multidisciplinar contínuo, graças sobretudo à massificação e evolução do sistema de ensino e ao aperfeiçoamento dos regimes políticos democráticos.

  Porém, nem sempre é assim; deparamo-nos, por vezes, com temas atuais que foram estudados e discutidos, com excelência, em tempos remotos. Foi o que constatei ao embrenhar-me na leitura da “Discussão dos Artigos do Projeto da Constituição referentes ao Ensino”, relativos aos artigos 215 e 216, nas Cortes Constituintes, em 29 de Março de 1822, na sequência da revolução liberal de 1820

   Discutindo-se o sistema de ensino em Portugal - espantei-me ao verificar que eram as próprias populações a exigir escolas ao Estado, que as não conseguia satisfazer integralmente; a natureza do ensino público, as qualidades, dignidade e retribuição dos professores, o ensino privado e a liberdade de ensinar e de aprender.

   Chamou-me a atenção, no referido debate, a intervenção do Deputado pela Baía, Cipriano José Barata Almeida, firme defensor da independência do Brasil, que passo a reproduzir:

   - Sou de opinião que se suprima este artigo 216: porque convém que cada um ensine ou aprenda à sua vontade. Nós estamos acostumados a fazer monopólio de tudo, e por isso queremos fazer o mesmo com a cultura do espírito, ciências e belas letras, como se foram tábuas, marfim, pau-brasil, etc. A cultura do homem pede liberdade, e sem esta ele não pode ser feliz. É certamente tirania prender o desenvolvimento das faculdades intelectuais. Há porventura maior violência do que obrigar a tirar uma carta ou licença para poder ensinar? E se a não tira, tomar-se-lhe conta disso, suspender-se e oprimir-se? Para o bem comum é preciso que se não estabeleça monopólio da cultura do espírito. Por conseguinte deve ser determinado que cada um possa ensinar e aprender a seu arbítrio com quem quiser, sem que nenhuma autoridade lhe possa obstar: isto é necessário para que os corregedores, as câmaras, ou outra qualquer autoridade não estejam sempre embaraçando os professores com os seus exames, licenças e outras coisas semelhantes. Queremos nós pôr censura prévia no espírito humano quando a detestámos na tipografia? Longe de nós semelhante projeto.

   Quanto às ciências maiores, diz o artigo, que este importante objeto, será cometido a uma diretoria geral dos estudos: é preciso que também se não faça monopólio, nem haja diretorias para nenhuma ciência, mas que se facilitem as matemáticas, o direito, a medicina a quem quiser aprender, e com quem quiser, e em qualquer parte, com toda a liberdade; aliás tornaríamos, a pouco e pouco, para o antigo despotismo, para a ignorância e escravidão.

   Magnífico! O controlo dos espíritos dos cidadãos como via para a ascensão ao poder e sua manutenção, continua atualíssimo, e é demonstrativo da ausência de progresso, neste capítulo, em Portugal, apesar de decorridos duzentos anos, da ascensão da República e do advento da democracia em 75.

   Concluo que devemos olhar melhor para o passado para percebermos o presente e desbravarmos os caminhos do futuro com mais eficácia.




Peniche, 26 de Novembro de 2022

António Barreto

sábado, 19 de novembro de 2022

Memórias de bordo

                                                                 

                                                               O Fim de uma Era (I)

 

   No dia e hora previstos - ao meio-dia do dia seguinte ao incidente verificado na Casa das Caldeiras, nos idos de 75 -, o “Vera Cruz”, com a caldeira de bombordo vante fora de serviço, largou amarras do cais de Alcântara para a sua derradeira viagem com destino a Kaohsiung, na ilha “Formosa” - atual “Taiwan” -, onde o aguardavam maçarico e rebarbadora, prontos a desfazê-lo em mil pedaços.

   Uma tripulação de contingência tinha sido escalada; o Comandante era o Manaças, homem grave e autoritário, de crânio liso; o imediato, para minha satisfação, era o meu querido tio João Catulo, homem cultíssimo e reservado; o 1º Piloto era o Bettencourt, amigo, cordial e descomplicado; o 2º Piloto era o Teles, ilhavense amigo que adorava a vida do mar, chegando a dizer, com ironia, que ainda lhe pagavam para fazer o que mais adorava; andar no mar.

   Na máquina tínhamos; a Chefe, o “Porfírio Rubirosa”- não recordo o nome próprio -, gracejo que corria entre nós pelo seu ar aprumado e enfatizado de que se destacava o inseparável boné, - uma alusão jocosamente carinhosa ao célebre playboy dominicano, que “arrastara a asa” à nossa Amália quando esta, nos seus tempos áureos, destruía corações pelo mundo; o 1º Maquinista era o Telmo, homem cordial, discreto e muito respeitado entre nós, os 2ºs Maquinistas eram, o Brito “maluco”, homem bom, um tanto exuberante e brincalhão, que nada tinha de maluco; o Pintassilgo, o nosso campeão de natação, sempre pedagógico, tranquilo e cordial; o Melo, calmo, eloquente e eficiente, de fisionomia típica de um sul-americano e o Abreu, o nosso “homem-golo”, amigo de longa data, sempre sereno e discreto. Além de mim, do grupo dos 3ºs faziam parte; o Airoso, grande amigo e companheiro desde os tempos do secundário, o voluntarioso Adalberto, de São Martinho do Porto; o Basso companheiro de peripécias por terras de Chiang Kai-Check, politicamente avançado, com quem aprendi o célebre tema de José Afonso “Os Vampiros”; e o irreverente e amigo Rogério, militante progressista - soube muito mais tarde - de barbichas à Fidel Castro.

    Dos restantes tripulantes não me recordo; marinheiros, cozinheiros, despenseiro, fogueiros, empregados de câmara, etc. Porém, lembro-me do azeiteiro - fazia não sei bem o quê nos compartimentos a vante da Casa das Caldeiras -, de alcunha o Polícia, um homem de Alfama - salvo-o-erro, constando-se cadastrado -, conversador de historietas e anedotas, instigador de um episódio engraçado já na reta final da viagem. Não havia artífice; os trabalhos de torno eram efetuados pelo Melo e pelo Abreu, que na adolescência tinha sido torneiro.

   Não tinha bem noção do que estava a suceder; na minha mente habitava uma suave tristeza pelo fim de um dos ícones mais destacados da nossa Marinha Mercante, a satisfação de ter sido escolhido para uma viagem histórica que se adivinhava particularmente dura - pela duração, além de contornar a África, teríamos que fazer a travessia do Índico, e pelo agravamento das condições térmicas, habitualmente severas na Casa da Máquina -, e a agradável espectativa de conhecer o “mundo novo”, da China insular.

      Tratava-se, sim, de uma medida de racionalização económica; perdido o monopólio do transporte marítimo garantido pelo Pacto Colonial desde o longínquo século XVI, a nossa frota mercante deixara de ser economicamente viável, num contexto de grande turbulência institucional, económica, social e política que o país atravessava.

    Por outro lado, os líderes da nova ordem política empenhava-se em desmantelar um dos pilares identitários tradicionais dos portugueses; a sua vocação marítima, “o país de marinheiros, de naus, de esquadras e de frotas…”, que dera “novos mundos ao mundo”, cantado por António Nobre e Camões. Uma nova era implicava nova identidade e esta, segundo Eduardo Lourenço, não se ergue sem a destruição prévia da anterior.

(Continua)



Peniche, 19 de Novembro de 2022

António Barreto

sábado, 12 de novembro de 2022

Um Pouco de História (XV)

 

A República Romana

 

   Regressado a Itália para preparar a expedição a África e combater o que restava dos exércitos de Pompeu, César, desapontado com a gestão desbragada de Marco António, e apesar do seu contributo no domínio dos insurgentes republicanos, Milo, Célio e Dolabela, substituiu-o no cargo de Regente de Itália por Lépido, e seguiu para a Sicília.

   Em África tinham-se reunido as tropas de Pompeu, sobreviventes das batalhas de Farsália, Dirráquio, de Corcira e de todo o Oriente, a que se fora juntar Marco Octávio com a esquadra da Ilíria, onde a sublevação fracassara.  

   Aí, as forças republicanas eram governadas por Varo com o apoio rei númida - Juba -, sob a presidência de Catão. A fúria de vingança uniu númidas e romanos na destruição das cidades inimigas e na chacina implacável de todos os prisioneiros, apesar da oposição de Catão, que, apesar de tudo, conseguiu salvar Utica.

   Juba, Varo e Metelo Cipião, ambicionavam o lugar de Comandante em Chefe das forças republicanas, as quais preferiam Catão, tendo este escolhido Cipião - descendente de Cipião Africano - para o cargo.

   Presidindo em Utica ao anti Senado romano, Cipião, cumpria, com zelo e firmeza, um dever que sabia condenado ao fracasso. Armando Libertos e Líbios, constituiu catorze legiões, quatro das quais eram númidas armadas à romana, a que se juntavam mil e seiscentos cavalos germanos e celtas, um esquadrão de cavalaria ligeira de númidas - com besteiros a pé e a cavalo -, cento e vinte elefantes e a esquadra de cinquenta e cinco navios comandada por Públio Varo e Marco Octávio. Com os abundantes mantimentos reunidos e contando ainda com a sublevação das tropas cesaristas da Campânia, esperava-se obter a desforra de Farsália e restaurar a República.

   Do outro lado, César, que sempre soubera conduzir e motivar as suas tropas nas condições mais adversas graças ao seu engenho e ousadia, enfrentava agora a rebelião das legiões da Campânia; fartas de combater campanhas atrás de campanhas, recusavam-se a partir para África, exigindo as baixas e tudo o que lhes tinha sido prometido depois da expedição à Gália; saques, terras e espólios.

   Uma comissão de Senadores enviada por César e comandada pelo historiador Salústio à Campânia, com o fim de persuadir os insurgentes, fracassou, tendo sido insultado o emissário e mortos alguns senadores. Decididos, os soldados marcharam sobre Roma exigindo as baixas e as terras a César.

   Este, perito em controlar homens e multidões, que para cada crise inventava um novo expediente, não se intimidou; foi a Roma ao encontro das legiões, e da tribuna do Foro interpelou os soldados, perguntando-lhes, com desdém, o que pretendiam.

  Quando, milhares de vozes em uníssono lhe responderam ruidosamente que queriam as baixas, respondeu-lhes que já as tinham e que lhes daria tudo o que lhes prometera no dia do seu triunfo…com outras tropas, chamando-lhes quirites (burgueses), com desdém.

  Feridos no seu orgulho militar, descontentes, envergonhados e ofendidos, os soldados murmuraram entre si - pois não haviam de ir com o seu general até ao fim da guerra?-, acabando em uníssono, a pedir perdão a César, implorando que os levasse a África.

   Este anuiu perdoando-lhes a leviandade e afirmando, entre aclamações delirantes, que lhes daria tudo o que prometera e que compraria, com o seu dinheiro, as terras necessárias se as do Estado não fossem suficientes.

   Assim terminou a insurreição.

Júlio César

Créditos: História da República Romana, de Oliveira Martins

Peniche, 12 de Novembro de 2022

António Barreto