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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Uma Manhã em Buarcos

 

Uma Manhã em Buarcos



Manhã de primavera, luminosa, campos verdejantes, salpicados de amarelo, ainda orvalhados. Vinha a pé, seriam umas 0730 h, para a escola da professora Matilde, ali por cima do barbeiro, o Sr Alberto.


Ao dobrar a casa do salva-vidas deparou-se-me um cenário indelével: vasto plano de areia em matizes de pérola, mulheres em passo de corrida, vergadas ao peso dos cabazes de sardinha, que transportavam para as camionetas dos comerciantes, miúdos de pé descalço e vestuário de ocasião, munidos de bicheiro e raifol, agachados na muralha frente ao Chico, à beira da estrada, esperando do momento exato.


À passagem da mulher com a sardinha, já em cima da muralha, saltavam como felinos, num ápice, puxavam com o bicheiro umas sardinhas para dentro do raifol e fugiam, para perto, sob as injúrias das mulheres furiosas sempre a correr, na ânsia de se livrarem da carga o mais rápido possível.


Passada a "tempestade", regressavam os miúdos, apanhavam as sardinhas caídas e preparavam-se para nova investida, que era preciso ganhar o almoço para a casa.


Bateiras, botes e lanchas, na borda do mar ou ao largo, bailavam ao sabor da maré. Na cala, meia dúzia de traineiras, transvazavam a sardinha para as chalandras, que as descarregavam em terra.


Faziam-se os lotes numa zona demarcada com cordas e estacas, com comerciantes, leiloeiro, pescadores, maleiros, povo e o inevitável guarda-fiscal de caderno e lápis em riste, supervisionando a venda, não fosse escapar-se alguma sardinha pelas abertas.


Tudo isto banhado pela suavidade, fresca e alegre, daquela manhã de primavera. Enchi-me de coragem e tomei uma decisão; naquela manhã não podia ir à escola! O mais certo era levar umas reguadas no dia seguinte e uns cascudos da minha mãe. Não fazia mal; tinha que ser parte daquilo.


Na areia, encostada à muralha e junto à rampa do largo estava uma lancha em ruínas. Os bancos estavam bons. Era o que precisava; entrei, sentei-me, imaginei-me no mar, e, numa espécie de ato de contrição, rapei do caderno que levava na mala e pus-me a fazer as “obrigações”. E escapei!




Peniche, 23 de outubro de 2026

António Barreto

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