Raízes
Algures na região de Soure, para os lados da Pouca Pena, ainda vive o Portugal profundo rural, de pinhais, quintas, fazendas, eiras, riachos, rios, agora polvilhados de tratores e serenos agricultores da saudade.
O tempo do trabalho de sol a sol, assalariado ou próprio, sob o jugo da enxada, da foice, da gadanha, do arado e dos ancestrais e pacientes companheiros de quatro patas, já não se vislumbra.
Vão passando tratores, com gente sorridente saudando quem passa. Gente já distante do seu zénite, serenamente feliz, tratando das suas lavras ou pinhais numa espécie de liturgia onde os já ausentes de alguma forma permanecem, quais fantasmas da memória.
Junto a nós pára um trator alaranjado. No lugar do piloto, um sujeito de amplo sorriso, barba feita, de boné - que o sol queima -, trajado mais para passeio que para trabalho.
- Bom dia, “Manel”. Fui dar uma volta ao bocado lá de cima.
- Bom dia, já viste que as pontas do gadanho estão gastas? Já estão no parafuso! Então, vais à procura do almoço?
- Não! Ainda tenho que fazer ali em baixo! Tenho que merecer o almoço!
- Tenho que merecer o almoço! Quantas vezes perguntei a mim mesmo se merecia o almoço, o descanso, a amizade, ou o amor de alguém! Este vínculo entre as “coisas boas” e o seu merecimento é enobrecedor.
Do outro lado da rua, mesmo em frente, pára uma reluzente carrinha preta, tipo van. Ao volante, uma mulher de chapéu azul pergunta se queremos queijo. Lembrei-me do Malhadinhas, o almocreve exímio no jogo do pau que raptara a mulher com quem casara e calcorreava serranias e povoados no seu morzelo, mercadejando o que calhava e terçando justas com algum valente.
Surpreendi-me. O aspeto novíssimo da viatura e a descontração da condutora sinalizavam prosperidade do negócio. Talvez a região não seja tão despovoada como parece. Quase toda a gente tem automóvel, ou mais que um, e os supermercados não estão longe. Contudo, a coisa parece funcionar.
Entrelaçam-se as habitações rústicas, sóbrias, algumas em tosco, com moradias novas ou reabilitadas. Os filhos dos agricultores formaram-se. Dedicam-se aos serviços nas cidades próximas, ou mais longínquas, alguns no estrangeiro. A expansão dos serviços públicos, as autoestradas, a proximidade da via férrea, o teletrabalho, permitem a muitos deles fixarem-se nas aldeias e vilas paternas. Juntam-se-lhes emigrantes e forasteiros, aqueles movidos pela saudade, estes em busca da tranquilidade que as grandes urbes não consentem. Da terra, geralmente, tratam os menos jovens, mais por hábito, profundamente arraigado, que por necessidade. Para alguns, uma espécie de liturgia com que celebram os ausentes que se recusam a partir.
Seguimos para casa do resineiro, o Manuel Morgado, que não encontráramos na eira que a Maria Arminda, sua mulher, nos indicara. Além do manto de milho dourado, naquele fim de manhã luminoso, não havia sinal do Manuel. Ajudava-nos na georreferenciação das terras e pinhais. Identificar o labirinto dos tradicionais marcos, por vezes ocultos na vegetação, é tarefa ao alcance de poucos.
Num cruzamento vimos um nicho. O Góis, engenheiro de profissão mas agricultor de coração, parou o carro. Fui ver. Estava cuidado, limpo e com bonitas gerberas vermelhas aos pés de Nossa Senhora do Rosário. Fotografei-o. Reconfortam-nos estes encontros, mais ou menos inesperados, no nosso quotidiano. Recordam-nos que não estamos sós na cruzada da vida. Na solidão dos dias, do cimo do trator ou de enxada às costas, persignando-se ou orando em silêncio, pedirá o agricultor a bênção a Nossa Senhora. E isso encorajá-lo-á naquele dia,
Venera-se o Espírito Santo por estes lados; uma herança dos Templários, que, lá pelo século XII, marcaram a região pela espada e pela Fé. Celebram-no com uma procissão anual. O seu símbolo, transportado num andor, artisticamente enfeitado com pinhões e outros adornos, é o âmago da espiritualidade. Uma obra de abnegação e Fé em que todos, na aldeia, se empenharam.
Abrem o cortejo dois soldados da GNR em traje de gala, nos seus vistosos, caracoleantes e solenes cavalos brancos. Seguem-se os figurantes, que precedem uns, e sucedem outros, o andor do Espírito Santo. Encerra o cortejo religioso, o Sr Prior, sob o pálio, com a Sagrada Eucaristia. A fechar, o mundo profano, seguidos pela multidão, a comovente amálgama de músicos, homens e mulheres de várias idades e profissões, de mãos delicadas uns, de mãos grosseiras outros, todos de olhos nas respetivas pautas, irmanados na música e na transcendência do momento. Nas bermas da estrada assistem os populares, inclinando a cabeça à passagem do andor e do Pálio. Frente à capela, a multidão aguarda. Há emoção à chegada. No cimo da pequena escadaria, antes de entrar na capela, onde ficará uns dias, faz-se uma última apresentação do Espírito Santo. Há peitos a reprimir soluços. E uma lágrima furtiva cai num rosto a meu lado.
Era, ainda, cedo. O Góis decidiu passarmos pela casa do Henrique, genro do “Manel da Assamassa”, o primo que esmagara o peito no guiador da bicicleta quando se despistou na descida de saibro e pedra a caminho da fazenda.
Sorridentes, chegaram o Henrique e família. Entre ela, grave e triste a Maria ainda deprimida pela inesperada viuvez. No amplo átrio da luminosa e solitária moradia, na esquina do cruzamento para a Pouca Pena, a obra-prima do Henrique; uma piscina com aquecimento natural. Vimos a garagem e a cave. Nesta, está o seu posto de trabalho. Ampla secretária, PC “artilhado” e cadeira a condizer. Daqui controla o ambiente interior de edifícios como hospitais, hotéis e similares. Despedimo-nos e seguimos rumo a casa do resineiro.
Ao chegarmos, uma rosa invulgar pareceu dar-nos as boas-vindas. Fotografei-a. A tonalidade avermelhada e a textura aveludada sobressaiam no fundo verde-claro da folhagem.
No átrio esperavam-nos o “Manel” e a Maria Arminda, sua mulher. Tinha ido à nascente. Vinha gente de fora recolher água. Contou-nos como tivera a ideia de plantar melancias quando se deparou com fartura de água. E vingaram, disse-nos com um brilhozinho nos olhos.
Contou-nos, com contido orgulho, como conhecia todas as propriedades das redondezas. Ilustrando-o com episódios pitorescos. Com a generosidade habitual das gentes locais, declarou-se-nos pronto a ajudar enquanto pudesse; porque “os maios iam passando”!
- Porquê os maios? Perguntei-me! Talvez seja o início do ciclo agrícola, o tempo de semear. Afinal, o ciclo da vida. Uma forma de assinalar o tempo.
Referiu os elevados custos das escrituras das propriedades rurais, cerca de 500 euros cada! - Até nos ajuntamentos! - disse a Maria Arminda. O emparcelamento, necessário à viabilização económica das propriedades rurais e ao desenvolvimento do interior, é dificultado pela ilimitada voracidade do Estado, capturado pelos grupos que o colonizaram.
As duas Marias tinham-se abraçado. Recordaram tempos de infância. Foram colegas na escola da aldeia. Breve mas genuína felicidade esta a de reencontrarmos gratas amizades, como costumam ser as da infância.
De melancia e melão no saco, da lavra dos primos, despedimo-nos e rumámos ao Casal das Brancas. Previa-se chuva para o dia seguinte. O Góis queria semear nabos; de cabeça e de flor.
Semeou-os, no pó, nessa tarde. Envoltos pela poeira, Góis e trator sulcaram a terra cuidadosamente, preparando a sementeira. Com gesto pendular do braço, foram lançadas as sementes misturadas nos grãos de areia numa liturgia secular.
Choveu no dia seguinte.
Peniche, 14 de outubro de 2026
António Barreto












