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Olhando Para Dentro (notas)

Olhando Para Dentro 1930-1960 (Bruno Cardoso Reis) (Em História Política Contemporânea, Portugal 1808-2000, Maphre - nota...

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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

RAÍZES

 Raízes


Algures na região de Soure, para os lados da Pouca Pena, ainda vive o Portugal profundo rural, de pinhais, quintas, fazendas, eiras, riachos, rios, agora polvilhados de tratores e serenos agricultores da saudade.

O tempo do trabalho de sol a sol, assalariado ou próprio, sob o jugo da enxada, da foice, da gadanha, do arado e dos ancestrais e pacientes companheiros de quatro patas, já não se vislumbra.

Vão passando tratores, com gente sorridente saudando quem passa. Gente já distante do seu zénite, serenamente feliz, tratando das suas lavras ou pinhais numa espécie de liturgia onde os já ausentes de alguma forma permanecem, quais fantasmas da memória.


Junto a nós pára um trator alaranjado. No lugar do piloto, um sujeito de amplo sorriso, barba feita, de boné - que o sol queima -, trajado mais para passeio que para trabalho.

- Bom dia, “Manel”. Fui dar uma volta ao bocado lá de cima.

- Bom dia, já viste que as pontas do gadanho estão gastas? Já estão no parafuso! Então, vais à procura do almoço?

- Não! Ainda tenho que fazer ali em baixo! Tenho que merecer o almoço!

- Tenho que merecer o almoço! Quantas vezes perguntei a mim mesmo se merecia o almoço, o descanso, a amizade, ou o amor de alguém! Este vínculo entre as “coisas boas” e o seu merecimento é enobrecedor.

Do outro lado da rua, mesmo em frente, pára uma reluzente carrinha preta, tipo van. Ao volante, uma mulher de chapéu azul pergunta se queremos queijo. Lembrei-me do Malhadinhas, o almocreve exímio no jogo do pau que raptara a mulher com quem casara e calcorreava serranias e povoados no seu morzelo, mercadejando o que calhava e terçando justas com algum valente.

Surpreendi-me. O aspeto novíssimo da viatura e a descontração da condutora sinalizavam prosperidade do negócio. Talvez a região não seja tão despovoada como parece. Quase toda a gente tem automóvel, ou mais que um, e os supermercados não estão longe. Contudo, a coisa parece funcionar.

Entrelaçam-se as habitações rústicas, sóbrias, algumas em tosco, com moradias novas ou reabilitadas. Os filhos dos agricultores formaram-se. Dedicam-se aos serviços nas cidades próximas, ou mais longínquas, alguns no estrangeiro. A expansão dos serviços públicos, as autoestradas, a proximidade da via férrea, o teletrabalho, permitem a muitos deles fixarem-se nas aldeias e vilas paternas. Juntam-se-lhes emigrantes e forasteiros, aqueles movidos pela saudade, estes em busca da tranquilidade que as grandes urbes não consentem. Da terra, geralmente, tratam os menos jovens, mais por hábito, profundamente arraigado, que por necessidade. Para alguns, uma espécie de liturgia com que celebram os ausentes que se recusam a partir.


Seguimos para casa do resineiro, o Manuel Morgado, que não encontráramos na eira que a Maria Arminda, sua mulher, nos indicara. Além do manto de milho dourado, naquele fim de manhã luminoso, não havia sinal do Manuel. Ajudava-nos na georreferenciação das terras e pinhais. Identificar o labirinto dos tradicionais marcos, por vezes ocultos na vegetação, é tarefa ao alcance de poucos.

Num cruzamento vimos um nicho. O Góis, engenheiro de profissão mas agricultor de coração, parou o carro. Fui ver. Estava cuidado, limpo e com bonitas gerberas vermelhas aos pés de Nossa Senhora do Rosário. Fotografei-o. Reconfortam-nos estes encontros, mais ou menos inesperados, no nosso quotidiano. Recordam-nos que não estamos sós na cruzada da vida. Na solidão dos dias, do cimo do trator ou de enxada às costas, persignando-se ou orando em silêncio, pedirá o agricultor a bênção a Nossa Senhora. E isso encorajá-lo-á naquele dia,





Venera-se o Espírito Santo por estes lados; uma herança dos Templários, que, lá pelo século XII, marcaram a região pela espada e pela Fé. Celebram-no com uma procissão anual. O seu símbolo, transportado num andor, artisticamente enfeitado com pinhões e outros adornos, é o âmago da espiritualidade. Uma obra de abnegação e Fé em que todos, na aldeia, se empenharam.



Abrem o cortejo dois soldados da GNR em traje de gala, nos seus vistosos, caracoleantes e solenes cavalos brancos. Seguem-se os figurantes, que precedem uns, e sucedem outros, o andor do Espírito Santo. Encerra o cortejo religioso, o Sr Prior, sob o pálio, com a Sagrada Eucaristia. A fechar, o mundo profano, seguidos pela multidão, a comovente amálgama de músicos, homens e mulheres de várias idades e profissões, de mãos delicadas uns, de mãos grosseiras outros, todos de olhos nas respetivas pautas, irmanados na música e na transcendência do momento. Nas bermas da estrada assistem os populares, inclinando a cabeça à passagem do andor e do Pálio. Frente à capela, a multidão aguarda. Há emoção à chegada. No cimo da pequena escadaria, antes de entrar na capela, onde ficará uns dias, faz-se uma última apresentação do Espírito Santo. Há peitos a reprimir soluços. E uma lágrima furtiva cai num rosto a meu lado.



Era, ainda, cedo. O Góis decidiu passarmos pela casa do Henrique, genro do “Manel da Assamassa”, o primo que esmagara o peito no guiador da bicicleta quando se despistou na descida de saibro e pedra a caminho da fazenda.



Sorridentes, chegaram o Henrique e família. Entre ela, grave e triste a Maria ainda deprimida pela inesperada viuvez. No amplo átrio da luminosa e solitária moradia, na esquina do cruzamento para a Pouca Pena, a obra-prima do Henrique; uma piscina com aquecimento natural. Vimos a garagem e a cave. Nesta, está o seu posto de trabalho. Ampla secretária, PC “artilhado” e cadeira a condizer. Daqui controla o ambiente interior de edifícios como hospitais, hotéis e similares. Despedimo-nos e seguimos rumo a casa do resineiro.





Ao chegarmos, uma rosa invulgar pareceu dar-nos as boas-vindas. Fotografei-a. A tonalidade avermelhada e a textura aveludada sobressaiam no fundo verde-claro da folhagem.



No átrio esperavam-nos o “Manel” e a Maria Arminda, sua mulher. Tinha ido à nascente. Vinha gente de fora recolher água. Contou-nos como tivera a ideia de plantar melancias quando se deparou com fartura de água. E vingaram, disse-nos com um brilhozinho nos olhos.




Contou-nos, com contido orgulho, como conhecia todas as propriedades das redondezas. Ilustrando-o com episódios pitorescos. Com a generosidade habitual das gentes locais, declarou-se-nos pronto a ajudar enquanto pudesse; porque “os maios iam passando”!

- Porquê os maios? Perguntei-me! Talvez seja o início do ciclo agrícola, o tempo de semear. Afinal, o ciclo da vida. Uma forma de assinalar o tempo.

Referiu os elevados custos das escrituras das propriedades rurais, cerca de 500 euros cada! - Até nos ajuntamentos! - disse a Maria Arminda. O emparcelamento, necessário à viabilização económica das propriedades rurais e ao desenvolvimento do interior, é dificultado pela ilimitada voracidade do Estado, capturado pelos grupos que o colonizaram.

As duas Marias tinham-se abraçado. Recordaram tempos de infância. Foram colegas na escola da aldeia. Breve mas genuína felicidade esta a de reencontrarmos gratas amizades, como costumam ser as da infância.

De melancia e melão no saco, da lavra dos primos, despedimo-nos e rumámos ao Casal das Brancas. Previa-se chuva para o dia seguinte. O Góis queria semear nabos; de cabeça e de flor.

Semeou-os, no pó, nessa tarde. Envoltos pela poeira, Góis e trator sulcaram a terra cuidadosamente, preparando a sementeira. Com gesto pendular do braço, foram lançadas as sementes misturadas nos grãos de areia numa liturgia secular.



Choveu no dia seguinte.

Peniche, 14 de outubro de 2026

António Barreto

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Uma Manhã em Buarcos

 

Uma Manhã em Buarcos



Manhã de primavera, luminosa, campos verdejantes, salpicados de amarelo, ainda orvalhados. Vinha a pé, seriam umas 0730 h, para a escola da professora Matilde, ali por cima do barbeiro, o Sr Alberto.


Ao dobrar a casa do salva-vidas deparou-se-me um cenário indelével: vasto plano de areia em matizes de pérola, mulheres em passo de corrida, vergadas ao peso dos cabazes de sardinha, que transportavam para as camionetas dos comerciantes, miúdos de pé descalço e vestuário de ocasião, munidos de bicheiro e raifol, agachados na muralha frente ao Chico, à beira da estrada, esperando do momento exato.


À passagem da mulher com a sardinha, já em cima da muralha, saltavam como felinos, num ápice, puxavam com o bicheiro umas sardinhas para dentro do raifol e fugiam, para perto, sob as injúrias das mulheres furiosas sempre a correr, na ânsia de se livrarem da carga o mais rápido possível.


Passada a "tempestade", regressavam os miúdos, apanhavam as sardinhas caídas e preparavam-se para nova investida, que era preciso ganhar o almoço para a casa.


Bateiras, botes e lanchas, na borda do mar ou ao largo, bailavam ao sabor da maré. Na cala, meia dúzia de traineiras, transvazavam a sardinha para as chalandras, que as descarregavam em terra.


Faziam-se os lotes numa zona demarcada com cordas e estacas, com comerciantes, leiloeiro, pescadores, maleiros, povo e o inevitável guarda-fiscal de caderno e lápis em riste, supervisionando a venda, não fosse escapar-se alguma sardinha pelas abertas.


Tudo isto banhado pela suavidade, fresca e alegre, daquela manhã de primavera. Enchi-me de coragem e tomei uma decisão; naquela manhã não podia ir à escola! O mais certo era levar umas reguadas no dia seguinte e uns cascudos da minha mãe. Não fazia mal; tinha que ser parte daquilo.


Na areia, encostada à muralha e junto à rampa do largo estava uma lancha em ruínas. Os bancos estavam bons. Era o que precisava; entrei, sentei-me, imaginei-me no mar, e, numa espécie de ato de contrição, rapei do caderno que levava na mala e pus-me a fazer as “obrigações”. E escapei!




Peniche, 23 de outubro de 2026

António Barreto

domingo, 27 de setembro de 2026

Lufada de Ar Pestilento

 

Lufada de ar Pestilento


Este Vilas Boas não tem o pedrigree de Pinto da Costa, porém, tal como este foi, VB, não passa de um testa de ferro de algo mais vasto e profundo; das elites locais, políticas e económicas. Consulte-se a composição dos órgãos sociais do FCP-SAD, para compreender melhor.


Por um lado, há um ressentimento histórico do Porto relativamente a Lisboa, que vem de muito longe! Desde o Marquês de Pombal, com o "massacre dos taberneiros", na sequência da criação da Zona Demarcada do Douro, passando pelas primeira e segunda guerras liberais, da guerra da Maria da Fonte/Patuleia, na qual o o Conde das Antas teve papel de algum relevo.


Por outro lado, o FCP tem dimensão política implícita! Essa foi a grande arte de PC! A elevada densidade demográfica da região, a lealdade incondicional dos adeptos ao clube e, claro, ao seu líder, permitiu-lhe, com o seu jogo de palavras associado ao espetro da rebelião, sempre em fundo, garantir a tolerância ativa dos principais partidos políticos.


Contudo, há uma questão primordial: o tema da regionalização, consignado constitucionalmente e desejado pelos grandes partidos, por razões complexas que podem ter contornos venais.


O FCP é o ponta de lança desse processo. A estratégia passa por agregar em torno do clube a população local - os restantes clubes históricos da cidade, Salgueiros, Boavista foram desaparecendo, ou perdendo relevância desportiva e social -, e, através da hiperbolização da guerra com o Benfica, definindo-o como paradigma do centralismo e reminiscência do Salazarismo - "em política, o que parece, é" - e afirmando o FCP como vítima da "longa noite fascista", provocar uma rotura social no país suporte da institucionalização da regionalização.


Se repararmos nas vicissitudes policiais e judiciais ao longo das décadas envolvendo assuntos espúrios relacionados com o FCP - foram muitas e muito graves -, vem à cabeça do cidadão comum a ideia de que, no Porto não se aplicam as leis do país! Que há uma conduta eminentemente leniente, por parte de membros das autoridades, com o propósito de "cavar" a fratura social e institucional.


Um dos maiores exemplos disso é o caso do Madureira! Cometeu, alegadamente, toda a espécie de atos intimidatórios; a árbitros e respetivas famílias, adversários e até a atletas do clube, e ninguém, ninguém, teve a coragem de o meter na cadeia! Quando tiveram que o fazer, o FCP-SAD constiuíu-se assistente na qualidade de lesado (salvo-o-erro)! A querer fazer tolos de todos nós!

Este é o campo de batalha que os dirigentes do Benfica, sócios e adeptos, devem entender e unindo-se, impedirem os enxovalhos ao seu clube reduzindo-o à insignificância. Quando a força social do Benfica tiver impacto eleitoral, tudo mudará.




Peniche 26 de Setembro de 2026

António Barreto



sábado, 19 de setembro de 2026

Capim em Chamas

 

Capim em chamas

de

Cyprian Ekwensi


Não é sobre guerra, como pensei; é sobre África. Descreve de forma simples e atrativa, o quotidiano de uma tribo nigeriana, os Fulani. Os Fulani são uma tribo nómada que vive da criação de gado, caprino e bovino e agricultura de subsistência. Alimentam-se à base de farinha de milho e leite, carne e peixe.

Tratar do gado, mantê-lo junto e seguro, conduzi-lo de pastagem em pastagem é a sua “ciência” mais valiosa. A distinção de alguém mede-se pelo número de cabeças de gado que possui. Queimar o capim é o método que usam para garantir o rejuvenescimento das pastagens. Os rios são as suas vias prediletas, onde o gado se dessedenta e os pastores fazem a sua higiene pessoal.

Vivem em cubatas, que levam consigo quando se deslocam. Os laços familiares são muito fortes, cabendo à mulher as tarefas domésticas e aos homens o pastoreio. Todos contribuem. O conhecimento transmite-se de pais para filhos e estes reverenciam-nos. Reverência que se mantém ao longo da vida, mesmo quando se emancipam, formam o seu próprio rebanho e partem para longe.

Tratam as doenças com mezinhas caseiras à base de plantas. O chefe, escolhido, da tribo, dirime os conflitos internos e defende-a de ameaças externas. Têm mitologia própria a que recorrem para entender certos fenómenos da vida pessoal e coletiva.

Para noivar, um rapaz tem que se submeter ao sharro, cerimónia realizada ante a tribo, ao som de música e com as candidatas preparadas, em que aquele tinha direito a escolher noiva desde que suportasse, sem queixas, as chicotadas do rival.

Uma rapariga só estava, formalmente, comprometida, quando entrasse na cubata do rapaz. Até lá era livre. Por sua vez, uma escrava, geralmente prisioneira de uma tribo rival, deixava de o ser no momento em que dava à luz. O pai do noivo negoceia com o pai da noiva o “preço” desta em cabeças de gado.

À semelhança das sociedades atuais, as populações rurais desconfiam das gentes que viviam nas cidades. Tinham um certo desprezo pelo seu modo de vida. Contudo, há grande hospitalidade entre as tribos dispersas pelo território.

Frases curtas, impecavelmente pontuadas, com os diálogos muito bem sinalizados, por vezes algo ingénuos. Para mim, uma bela lição de sintaxe e humanidade.

Transcrevo um trecho que me cativou:

“Jalla sentou-se. Com os joelhos afastados e as mãos apoiadas no cajado. Passeou os olhos pela pastagem. Era estranha a maneira como esta grande extensão de mato se comportava:nos dias de feira, os caminhos estariam cheios, mas, em dias como este,o Sol batia no capim, nos espinheiros e nas gardénias, e nem uma alma perturbava a quietude os caminhos escaldantes”

Vassily Kandinsky - Blue Rider

Peniche, 20 de Setembro de 2026

António Barreto


sábado, 12 de setembro de 2026

Ansaie Climatique

 

Ansaie climatique


Intigamente os óstralopiteques lusitanes usavem saques de pane, cestes de vime, de folhe de madêra e materiali orgânique.


Óspois vierem os ciantistas, os ténicos e os palíticos dezer que isso era retógrade, que passríamos a fazer comós amaricanos; o que era moderne eram os saques de plástique descartábeles. Era más prátique.


Intigamente, os ciantistas e ténicos das andustrias eram munto atrasados; usavem os prigosos amoníaque anidre e o dióxide de crabone nos sitemas fegríficos!


Óspois ficarem inteligentes e sábios e inventarem os fréons, mais segures e barates que massificarem a utilizaçon do frie na presrevaçon dos alimentes.


Ópois ficaraem todes burros ótra vez e vierem dezer que os freons na podia ser; proque destruiem o gás ozone da strastosfera, dexavem passari os ráis vióletas, esquentavem o planeta e merríamos todos esturricados.


Portantes resolverem voltar a usar o ameníaco e o dóxide de crabone; fazem bem ó planeta e já na morre ninguém no inferno.


Calma! na ficarem burros pa sempri, proque come descobrirem que os plastiques descratabels fazem mal ós habitantes dos oceanes, inventarem as taxas!


Mas isso foi os palítiques! com muntas taxas aplicades ós plástiques, já na há prigo pós oceanes e ficames todos munto, mas munto cebelezados.


Já na fazemos mal à natureza, nem à strastosfera, nem a nada! (se calhar ainde morremes asfixiades em tantas taxas e tanta cebelização e sebadoria!)


Ainda bem que passámes a acreditar nos ciantistas e nos politiques! Os téniques, coitadinhes fazem o que lhes mandem, ósenão atirem-nos borda fora.



kandinsk cidade velha - 1902


Editado em 31/08/2026, Peniche

António Barreto


domingo, 9 de agosto de 2026

Notas sobre Humberto Delgado

 

Notas sobre Humberto Delgado

 

Humberto Delgado


Humberto Delgado, Henrique Galvão e alguns republicanos - Cunha Leal, José Relvas, Mendes Cabeçadas, Sinel de Cordes, João Belo, Vicente de Freitas e outros -, apoiaram o golpe militar de 1926 e, alguns deles, Salazar. O estado caótico do país conduziu ao golpe militar liderado pelo general Gomes da Costa, um veterano de guerra.


Delgado, por incumbência de Salazar, que queria carreiras aéreas com as províncias ultramarinas, foi o fundador da aviação civil em Portugal.


O contacto que teve com altas patentes americanas no âmbito da NATO, mudou a sua visão do mundo. A fraude nas eleições de 1958, de que fora candidato, com o apoio das oposições, determinou-o a derrubar o regime


Era corajoso, arquitetou o assalto ao quartel de Beja - no qual interveio Varela Gomes, o homem da 5ª Divisão que, em 75, inviabilizou a manifestação do 28 de Setembro convocada por Spínola, em pleno PREC, contra Vasco Lourenço, que ele próprio, ingenuamente, nomeara Primeiro-Ministro, e os comunistas que dominavam o país com o apoio do MFA e dos partidos tidos por moderados.


Apesar de procurado pela PIDE entrou em Portugal disposto a participar no fracassado assalto ao quartel de Beja. Quando chegou tudo tinha terminado. A PIDE patrulhava a zona, mas Delgado conseguiu escapar.


A “Revolta da Sé” – conspiração realizada em 1959 na Sé Patriarcal de Lisboa -, na qual participaram Manuel Serra, Henrique Galvão – que viria a fazer dele o líder político do sequestro do Santa Maria -, Jaime Cortesão, António Sérgio, Ferreira de Castro, entre outros, resultou da mobilização que a sua candidatura provocou entre os opositores de Salazar, decididos a derrubar o regime.


Com o apoio da comunidade lusa no Brasil - grande parte apoiava Salazar -, fundou um núcleo de cariz político e um campo de treino de operacionais com os quais pretendia derrubar Salazar.


Passada a euforia mediática do sequestro, com os recursos e os apoios, no Brasil, a escassearem, desentendeu-se com Galvão, e foi juntar-se ao grupo de Argel - Mário Soares, Álvaro Cunhal, Piteira Santos, Manuel Alegre, Emídio Guerreiro e outros.


Sob proteção de Ben Bella, o presidente Argelino que fora cabo do exército francês e dava guarida e apoio logístico aos opositores de Salazar –, o General fundou a FPLN – Frente Patriótica de Libertação de Nacional – com o propósito de congregar, sob sua tutela, todos os oposicionistas, articulando ações de natureza insurrecional contra o regime.


Considerando-se legitimado a liderar a Frente Patriótica, não aceitou subjugar-se aos soviéticos, que pretendiam liderar a oposição através do PCP.


A sua determinação em provocar ações insurrecionais no país contendia com a via encetada pelo PCP, empenhado no endoutrinamento das populações preparando-as para um futuro golpe militar, como veio a acontecer em 74.


Irredutível, o “General Sem Medo” abandonou a FPLN e fundou a FLP - Frente de Libertação de Portugal, com alguns dissidentes, mas de âmbito mais restrito, consumando a divisão dos oposicionistas.


Apoiou os grupos de guerrilheiros inimigos das forças armadas portuguesas, diplomaticamente, e fornecendo-lhes armamento soviético, via Checoslováquia.


Delgado nutria um profundo desprezo pelos combatentes portugueses, o nosso “zé soldado” que, com o futuro adiado, passava tormentos nas matas de África em nome de Portugal. Por isso o considero traidor.


Com o apoio, de jure, de Ben Bella – que lhe disponibilizara instalações e uma estação de rádio, de que se apropriaria Manuel Alegre após a sua morte -, e lhe prometera ajuda financeira, armamento e apoio aéreo, dum grupo de ex-militares espanhóis - cerca de 40 mil, exilados em Paris e empenhados no derrube de Franco -, e outros operacionais sob seu controlo, planeou invadir Portugal pelo Algarve – à semelhança do que fizera o Duque de Alba no século XVI – convencido que tal bastaria para um levantamento insurrecional geral no meio militar.


Apesar da falta de comprovação documental acredito ter sido esta a gota de água que terá levado Salazar a decidir neutralizar Humberto Delgado.


A PIDE, porém, graças aos agentes que infiltrara entre os conspiradores, - Ernesto Lopes Ramos, subinspetor, infiltrado como Dr Castro e Sousa, e o funcionário do consulado em Itália, Mário de Carvalho - conhecia todos os seus movimentos, do grupo de Argel e do grupo de Paris.

Segundo Cerqueira, Humberto Delgado acreditou em quem mais confiava, Mário de Carvalho, e deslocou-se a Villanueva del Fresno, onde se encontraria com um grupo de conspiradores portugueses, oriundos do meio militar, prontos a lançar uma rebelião contra o regime.


Henrique Cerqueira, avisou-o do perigo, mas o General, arriscou, não queria faltar ao compromisso com Mário de Carvalho. Este, que ficara de o acompanhar, acabou por sair de cena, desconhecendo-se o seu paradeiro. Quem insistiu em o acompanhar foi Arajaryr Moreira a sua secretária brasileira.


Os "conspiradores" aguardados foram, afinal, Casimiro Monteiro, Rosa Casaco, Agostinho Tienza e Ernesto Lopes Ramos, o infiltrado Dr Castro e Sousa. Assassinaram-no a 13 de Fevereiro de 1965 no lugar de Los Almerines, próximo de Villenueva del Fresno.


Casimiro matou Delgado, Arajaryr foi morta por Agostinho. Silva Pais, diretor da PIDE foi o mentor da “Operação Outono”. Delgado levara a sua pistola de defesa pessoal e não se submeteu. Consta que Salazar teria dado ordens para o não matarem.


Delgado, lutava por uma democracia em Portugal mas nunca foi socialista. Inebriado pela campanha eleitoral, via-se com o dever histórico de derrubar a ditadura. Egocêntrico, determinado, autoritário e ingénuo, subestimou Cunhal e os soviéticos. Julgava-se uma espécie de super-homem e comportava-se como tal. O fascínio, a urgência da luta, tornaram-no imprudente, aventureiro. E isso foi-lhe fatal.


Henrique Cerqueira, no seu livro “Acuso”, culpa os conspiradores, em particular Mário Soares e Álvaro Cunhal, pelo assassinato do General. Segundo ele, saberiam da emboscada e nada fizeram para o impedir, insinuando que teriam interesse na sua morte.


Que saiba, nada foi comprovado, porém, é certo que os planos do General colidiam com os do PCP, que atribuía ao General a causa do recrudescimento da repressão da PIDE contra os seus militantes.


Delgado aproximara-se dos soviéticos, por pragmatismo, e afastou-se deles por convicção e medo; convenceu-se de que tencionavam matá-lo.


Apoquentado com um problema de saúde abdominal, Cunhal consegui-lhe internamento num conceituado hospital da Checoslováquia. A cirurgia correu mal e quiseram levá-lo para Moscovo. Delgado temeu pela vida e recusou o convite.


Surgiu então a oportunidade de se tratar em Itália, que viria a ocorrer com sucesso. Nesse contexto conheceu Mário de Carvalho, que o acompanhou, estabelecendo-se uma relação de forte cumplicidade conspirativa, que viria a ser fatal ao General.


Subsistem dúvidas sobre quem teria convencido o General a deslocar-se a Villanueva Del Fresno. Uns dizem ter sido Ernesto Ramos Lopes, o subinspetor infiltrado no grupo de Paris, mas Henrique Cerqueira afiança que foi Mário de Carvalho.


Mário Soares, segundo alguns, apropriou-se do legado político de Delgado ao propor-se, espontaneamente, para advogado da família, nos processos que se seguiram, em Espanha e em Portugal.


Esta é a razão pela qual o PS se considera o herdeiro político de Delgado, pretendendo, implicitamente, reivindicá-lo ao rebatizar o aeroporto da Portela com o seu nome, estabelecendo o contraponto ao aeroporto Sá Carneiro.


Considero inadequada a alteração. Apesar de Humberto Delgado ter sido o fundador da aviação civil em Portugal – era Oficial da Força Aérea -, e de ter dado a vida pela democracia, não lhe perdoo a traição aos combatentes portugueses e a Portugal.


                                                       Vasilij Kandinskij - Park of St. Cloud - Entrance, 1906.

Peniche, 9 de agosto de 2026

António Barreto