terça-feira, 5 de março de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P14, última desta série)

Humberto Delgado, O Mártir Socialista
 
(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros) 
  
  
Avisado pelos seus próprios correligionários, recusando-se a trair quem o tinha traído - Lopes Ramos, Mário de Carvalho e outros -, HD, assumindo o risco da própria vida, foi ao encontro da morte, acreditando que, face às diligências que tomara, estaria a salvo.

    Quanto ao Governo de Salazar, avisado da iminência duma guerra civil, patrocinada pelo ex-candidato presidencial, estaria entre a espada e a parede, quer o assassinato quer a prisão constituiriam um embaraço suscetível de provocar danos na imagem externa do governo. Julgo porém que o propósito de Salazar seria o de deter HD, para submissão a julgamento; único procedimento internacionalmente aceitável. De todo o modo, ninguém poderá negar ao seu Governo o direito de impedir a invasão do território e de evitar uma guerra civil.

   A propósito, li por aí em local que de momento não recordo, que os assassinatos teriam sido fortuitos, Humberto Delgado, corajoso e frontal, mas desarmado, terá reagido às provocações dos agentes da PIDE, de que resultaram escaramuças que culminaram com o assassinato do General, por Casimiro Monteiro, e de Arajarir de Campos, por Agostinho Tienza. 

   Noutro plano, a estratégia de Delgado era suicidária; o General estava disposto a incendiar Portugal com uma guerra civil de consequências imprevisíveis, para derrubar o regime e ascender ao poder. Os horrores da guerra civil espanhola, bem como os da 2ª Guerra Mundial, pareciam não o impressionar. Neste aspeto, honra seja feita ao Partido Comunista que apostou num lento trabalho de consciencialização popular e na subversão dos organismos públicos. Por outro lado, Humberto Delgado demonstrou sempre uma postura autoritária junto dos colegas oposicionistas, impondo a todos a suas decisões, avesso à colegialidade, revelando-se intrinsecamente autoritário à semelhança do rival que pretendia derrubar.

   Quer relativamente a Henrique Galvão, quer relativamente a Humberto Delgado, há uma faceta omissa na retórica prevalecente no espaço público; a do patriotismo; ambos defendiam a integração de Portugal numa federação ibérica o que, quanto a mim, configura um ato de traição tendo em conta a gesta independentista de 9 séculos. Ressalve-se a recusa de Henrique Galvão da oferta da URSS de fornecimento de armamento - mísseis -, para afundamento do paquete Vera Cruz (de que fui tripulante), com 1500 militares a bordo. Recorde-se, a título de curiosidade, que o sequestro dos 32 tripulantes do navio costeiro Angoche, com posterior assassinato destes num campo de prisioneiros da Frelimo na Tanzânia, terá sido, supostamente, executado por forças navais da URSS, com a colaboração do Partido Comunista Português e, segundo consta, dalguns setores da Forças Armadas lusas em Moçambique.

   Hoje não restam dúvidas de que, num primeiro tempo, o grande vencedor da “Revolução” de Abril foi o PCP; com enorme retardo - 16 anos -, tudo se passou como planeara; um pronunciamento militar com adesão imediata do povo “consciencializado”.

      Num segundo tempo, o grande e definitivo vencedor, “ao sprint” foi Mário Soares; “correndo” na esteira de Delgado e Cunhal, resignado ao papel de parceiro de Cunhal, perante a prepotência política deste e o rumo antidemocrático que estava a ser imposto ao país, Mário Soares, com o seu PS, assumiu frontalmente a defesa da democracia com o que granjeou robusto apoio popular ratificado nas eleições constituintes de 1975 e legislativas, de 1976. De então para cá Portugal vive a “pax socialista”, onde os princípios programáticos do projeto de Humberto Delgado, defensor da democracia socialista, estão bem patentes no projeto socialista em curso.
Foto: Paquete Serpa Pinto, da CCN.

Peniche, 4 de Março de 2019
António Barreto

sexta-feira, 1 de março de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P13)

Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros) 
 
E foi assim que, apesar dos avisos de risco de assassinato de Henrique Cerqueira - colaborador direto e representante de HD - e de Mário Carvalho - Delegado em Roma de HD -, o General Sem Medo, no dia 10 de Fevereiro de 1965, em Tetuão, após entregar a sua arma a Henrique Cerqueira e depois de ter tomado várias providências a título preventivo - instruções de atuação e documentação depositada nos serviços presidenciais argelinos a levantar por Henrique Cerqueira caso não se verificasse o seu regresso até dia 21 de Fevereiro -, iniciou a sua viagem para Badajoz sob o nome de Lourenzo Ibañez, com escala em Algeciras em 11/02, em Mérida em 12/02 e em Badajoz em 13/02, onde seria assassinado em 14/02, juntamente com a sua secretária-amante, Arajarir de Campos. Depois de muita controvérsia e especulação acerca do desaparecimento do General, o seu corpo e o da sua secretária viriam a ser descobertos em 24 de Abril em Villanueva Del Fresno, junto ao caminho vicinal Los Malos Pasos,  perto da fronteira portuguesa. Estava consumada a tragédia, tendo-se seguido uma luta feroz entre oposicionistas pelos despojos e de responsabilização mútua pelos assassinatos.

   Quando o General e a sua secretária chegaram a Badajoz, no dia 12 de Fevereiro de 1965, hospedando-se no hotel Simancas, onde se terão encontrado com quatro africanos não identificados, Uma brigada da PIDE composta por António Rosa Casaco (agente sob nome falso), António Lopes Ramos (Ernesto Castro e Sousa, um dos presentes na reunião de Paris), Agostinho Tienza, agente sob nome falso) e Casimiro Monteiro (agente sob nome falso), transpôs a fronteira portuguesa de São Leonardo em duas viaturas com as matrículas falsificadas.

   Lopes Ramos ter-se-á encontrado no dia seguinte com Humberto Delgado a Arajarir de Campos, conduzindo-os a local ermo próximo de Olivença, onde os restantes agentes da PIDE os aguardavam. O Acórdão do 2º Tribunal Militar Territorial de Lisboa, que julgou o caso, proferido em 27 de Julho de 1981, considerou provada a culpabilidade material de Casimiro Monteiro no assassinato do General e sua secretária, “por resolução sua e isolado agir”, ilibando todos os outros intervenientes destes crimes.

   O Governo Português estava ao corrente das intenções de Humberto Delgado, pelo menos desde 8 de Janeiro de 1964 quando o adido naval da Embaixada de Portugal em Madrid informou a PIDE através do MNE de que, segundo o Ministério da Marinha espanhol, aquele era o chefe comunista soviético para a península ibérica e preparava ações revolucionárias na península, razão pela qual, tinham tomado medidas preventivas.

   Na véspera da chegada do General a Badajoz, 11 de Fevereiro de 1965, o adido militar naval e aeronáutico da Embaixada de Itália em Lisboa terá alertado as autoridades portuguesas para a iminência do início duma guerra de guerrilha em Julho desse ano, em preparação por Humberto Delgado

      Um dos muitos relatórios que um informador infiltrado na comunidade oposicionista do Rio de Janeiro - que se supõe tenha sido um tal Gusmão Calheiros, comunista expulso do PCP - enviou à PIDE em 26 de Fevereiro de 1964, faz referência a um tal “General”, supostamente de nome Juan Perea, o qual terá pedido a Ben Bella apoio idêntico ao que dispensava a Humberto Delgado, com a finalidade de organizar o Exército de Libertação antifascista, para o qual garantia capacidade de recrutamento imediato de 10 mil operacionais - espanhóis oriundos do sul de França, que se estavam a tornar incómodos para este país -, com o qual pretendia derrubar o regime de Franco.

   Por seu lado, o Presidente argelino pretenderia a unificação das forças ibéricas, constituindo regimentos mistos, com idêntico fardamento, o mesmo armamento, a mesma instrução e a mesma organização tática. O seu propósito seria o da constituição de uma República Popular Ibérica unificada, na qual Portugal seria absorvido pela Espanha. Numa primeira fase, as forças de libertação dependeriam do Chefe de Estado-Maior argelino, e, numa segunda fase, mediante certos pressupostos, constituiriam, por decreto governamental, a Legião Estrangeira Argelina passível de intervenção militar sobre Marrocos ao serviço do Governo de Argel. Este compromisso terá sido assinado por ambos os rebeldes ibéricos, que, com este ato, terão aceitado transformar as suas Forças em mercenários ao serviço do governo argelino.

   Como interpretar tudo isto? Que o processo eleitoral do Estado Novo era fraudulento, não haverá dúvidas. Que o voluntarismo romântico libertário e despeitado, misturado com os elevados egocentrismos quer de Henrique Galvão quer de Humberto Delgado, também não andará longe da verdade. Que, este, tenha sido objeto de instrumentalização política pelo Partido Comunista, após a dissidência com aquele, também não custa a crer. Que o cenário da sua morte constava nas previsões de Humberto Delgado, não haverá dúvidas. Que a morte deste era do interesse do Governo de Salazar é, quanto a mim, discutível. Que, por outro lado, seria do interesse do Partido Comunista e do grupo de Mário Soares, a morte de Humberto Delgado com imputação da respetiva responsabilidade a Salazar, também faz sentido. Que aqueles seriam conhecedores da armadilha preparada pela PIDE, na reunião de Paris, a Humberto Delgado e, intencionalmente, não o tenham dissuadido da ida a Badajoz, também não custa a acreditar. Que as várias células oposicionistas da Venezuela, Rio de Janeiro, Marrocos e Argélia estavam infiltradas por agentes da PIDE insuspeitos, é um facto. Que o Partido Comunista se servia desta polícia para afastar opositores internos - veja-se o caso das FAP e de João Pulido Valente -, é uma realidade. Que o projeto de HD de intervenção armada imediata em Portugal neutralizava a estratégia do PCP esvaziando a sua função política, quer interna, quer no âmbito da sua parceria com a URSS, não haverá dúvidas.
Foto: O Uige, da CCN (um dos "meus" navios)

Peniche, 1 de Março de 2019
António Barreto

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P 12)

 
Humberto Delgado, O Mártir Socialista
(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
 
Resumindo, em vésperas da viagem fatídica de Humberto Delgado a Espanha, verificava-se o seguinte quadro:
o   Henrique Galvão, por esta altura, já está fora do circuito oposicionista ativo.
o   Sediada em Argel, a F.P.L.N (Patriótica), de Álvaro Cunhal, Ramos de Almeida, Lopes Cardoso, Piteira Santos, Tito de Morais, Manuel Alegre e outros, controlada pelo Partido Comunista, cuja estratégia, contrariamente ao que acordara por ocasião da 1ª conferência, consistia na rejeição da luta armada em favor da consciencialização de massas, nas escolas, universidades, Forças Armadas, fábricas, mundo rural, etc., de forma a criar as condições de apoio popular a um futuro golpe militar revolucionário. Aconteceu no 25 de Abril de 1974. Note-se que, por esta altura, o PCP beneficiava de um apoio financeiro da União Soviética da ordem dos 10 milhões de euros mensais, o que permitia a profissionalização da militância e a elaboração de uma estrutura consistente que ainda hoje se mantém sem grandes alterações. Os restantes membros tinham constituição incipiente e diminuta.
o   Também sediada em Argel, a F.P.L.N. (Portuguesa), constituída com os dissidentes da F.P.L.N. (Patriótica), liderada por Humberto Delgado, Adolfo Ayala, grupo de apoiantes da sua candidatura, F.A.P. (como observadores), e outros, cuja estratégia consistia no recurso à luta armada para derrubar os regimes de Salazar e de Franco.
o   Mário Soares, Emídio Guerreiro e Jaime Vilhena de Andrade, acompanharam Humberto Delgado na sua Frente Portuguesa, mas houve quem acreditasse convictamente que estavam em missão ao serviço da Frente Patriótica - Henrique Cerqueira colaborador próximo de Humberto Delgado.
o   A Associação de Portugueses Livres de Marrocos, sediada em Rabat, constituída por portugueses oposicionistas, que tomaram o partido de Humberto Delgado.
o   Oposicionistas residentes em Argel, dependentes dos bons ofícios da F.P.L.N. (Patriótica) junto do Governo Argelino, que tomaram o partido de Humberto Delgado.
o   Ben Bella, o lendário Presidente Argelino, ex-jogador do Olympique de Marseille, amigo de Pélé e de Garrincha, líder das forças rebeldes que conduziriam a Argélia à independência da França, apoiava Humberto Delgado, instalando-o no Palácio e oferecendo-lhe meios de treino para 600 operacionais, armas e apoio aéreo.
o   Portugueses oposicionistas na diáspora; Venezuela, Argentina, Brasil, Paris, Roma (D. Maria Pia, filha de D Carlos), cuja missão consistia, no apoio financeiro e institucional ao movimento e na sua difusão.
o   Oposicionistas residentes em Portugal, “sobreviventes” da O.R. (Organização República), cujo propósito seria o de organizar estruturas de apoio popular prontas a entrar em ação logo que se iniciassem as hostilidades.
o   Líderes dos guerrilheiros das colónias portuguesas, com destaque para Amílcar Cabral e sua mulher Helena Cabral, e outros, que mantinham contactos regulares com os oposicionistas em Argel e Rabat, proporcionando algumas facilidades institucionais aos portugueses residentes nestes locais.
o   A P.I.D.E. com agentes infiltrados nas comunidades oposicionistas, lançando a desconfiança entre estes e procurando desacredita-los institucionalmente. 
o   A comunidade internacional, cautelosamente, com grandes restrições, ia dando algum conforto aos oposicionistas, salvaguardando, em geral, o relacionamento com o Governo Português, cuja diplomacia, sob a batuta de Fernando Nogueira, se revelava extremamente ativa e pertinente.
   No plano das ideias para o país verificavam-se incompatibilidades insanáveis entre as várias fações. Do lado da F.P.L.N. (Patriótica) liderada por Álvaro Cunhal defendia-se o advento da democracia e a imediata descolonização e independência dos territórios ultramarinos. Na verdade, os acontecimentos de 74/75, no período que foi designado por P.R.E.C., mostrou-nos um Partido Comunista pouco empenhado na implementação efetiva da democracia. Já a F.P.L.N. (Portuguesa), liderada por Humberto Delgado, defendia uma democracia socialista, a suspensão da guerra colonial e a autodeterminação do povo das colónias via consulta popular, opondo-se a qualquer tipo de totalitarismo. Por outro lado, a O.R. defendia a deposição da ditadura e a implementação da democracia com exclusão do Partido Comunista. O grupo de Mário Soares e Emídio Guerreiro, acompanharam Humberto Delgado na Frente Portuguesa, aderindo, aparentemente, ao seu projeto, em detrimento do da Frente Patriótica.
   É, pois, num contexto de guerrilha entre fações oposicionistas - inevitável face ao exposto, sobretudo entre as duas Frentes, em que cada uma tenta desacreditar a outra junto da comunidade internacional, em especial junto do Presidente argelino e junto da comunidade oposicionista -, vigiadas de perto pela polícia política de Salazar (suspeita de as ter infiltrado) que Humberto Delgado se desloca a Badajós, na sequência da “célebre” reunião de Paris, realizada no hotel Caumartin em 26 de Dezembro de 1964 com oposicionistas radicados em França e delegados de Lisboa e Porto, om o intuito de preparar os apoios internos para a intervenção armada em Portugal que tinha congeminado com o apoio de Ben Bella.
   Nessa reunião, terão participado, além do General, Rolando Verdial, Jaime Vilhena de Andrade, Mário de Carvalho, um tal Azevedo, Emídio Guerreiro e Ernesto Castro e Sousa (Ernesto Lopes Ramos), tendo ficado decidido a ida de Humberto Delgado a Badajós onde se encontraria com correligionários em Portugal, incluindo altas patentes das Forças Armadas, e ainda os delegados de Roma e Paris.
Foto: navio misto, a motor, Amboim, da CCN (não tripulei, mas pisei-lhe o convés)

Peniche, 23 de Fevereiro de 2019
António Barreto
 
 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P 11)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista
(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)

“Quando a ditadura é um facto, a revolução é um direito”; a frase que proferiu em 1948 pode ler-se na lápide do seu jazigo.

   E foi assim que, incompatibilizado com Henrique Galvão a quem acusava de traição por querer liderar a secção operacional do movimento e por não ter levado a cabo todos os propósitos da operação Dulcineia, Humberto Delgado, se associou, através do MNI, ao Partido Comunista Português em Dezembro de 1963, constituindo a Frente Patriótica de Libertação Nacional a que viriam associar-se o Movimento de Ação Revolucionária (MAR) de Lopes Cardoso e Gomes da Costa e a Ação Republicana e Socialista (ARS) de Mário Soares.  

   Sol de pouca dura. A estratégia de derrube de Salazar pela luta armada colidiu com a da lenta e progressiva doutrinação das massas preconizada pelo PCP e por Mário Soares. Mas a divergência incidiu também no método da tomada de decisões; Delgado considerava-se o líder da FPLN a quem competia decidir, recusando o método colegial defendido pelos restantes membros e a “ditadura” de Tito de Morais e respetiva família.

   Dez meses depois, a cisão consumava-se com a constituição da Frente Portuguesa de Libertação Nacional, constituída pelo MNI, as forças que apoiaram Humberto Delgado, Delgado, Mário Soares e Emídio Guerreiro - estes, considerados infiltrados por Henrique Cerqueira (delegado de Humberto Delgado) - e elementos da Frente de Ação Popular (F.A.P.) - depois U.D.P., atualmente integrados no B.E. -, como observadores.

  Assinale-se que a Frente de Ação Popular (F.A.P.) - que na sequência do 25 de Abril deu lugar à União Democrática Popular (U.D.P.) a qual por sua vez, associada ao Partido Socialista Revolucionário (P.S.R.) e ao Movimento Política XXI, formaram em 1999 o atual Bloco de Esquerda -, teve origem no movimento designado por Comité Marxista-Leninista Português (CM-LP), organização constituída por Francisco Martins Rodrigues - o “camarada” Campos - membro do Comité central do Partido Comunista expulso do Partido por Álvaro Cunhal em Dezembro de 1963 - que o acusou de ladrão - por defender a luta armada. João Pulido Valente, recentemente falecido, aderiu à nova formação, instalando-se ambos em Argel, aderindo à FPLN de Humberto Delgado.

   Esta dupla dissidência, de Humberto Delgado e dos membros das F.A.P relativamente à estratégia de consciencialização da população preconizada pelo PCP, provocou uma crescente crispação entre as partes, queixando-se o PCP do recrudescimento da repressão salazarista sobre os seus membros em resultado da estratégia de intervenção armada dos “cisionistas aventureiros”.

   Por volta de 5 de Outubro de 1964, João Pulido Valente e Rita D’Espiney, são presos pela PIDE por atividades conspirativas, quando, no âmbito da FPLP (HD) se deslocaram a Portugal a fim estabelecer contactos preparatórios de atentados. Em Janeiro de 1965, um comunicado do CM-LP, acusava o PCP de denúncia dos ativistas e consequente prisão. Nota oficiosa da PIDE publicada na imprensa em 24 de Fevereiro de 1966, permite concluir que o delator teria sido Mário da Silva Mateus, infiltrado na FAP, o qual terá sido executado por Francisco Martins Rodrigues e Ruy D’Espiney, por sua vez presos em consequência deste atentado. Em 7 de Abril de 1976, a UDP, em comunicado à imprensa, responsabiliza o PCP pela prisão dos ativistas das FAP - João Pulido Valente foi libertado logo após o 25 de Abril de 1974 -, acusando-os de se terem apropriado dos ficheiros da PIDE para ocultar as provas da sua colaboração e desacreditar os ativistas dissidentes para o que teriam constituído uma “polícia secreta antirrevolucionária”.

   Segundo relatos de Henrique Cerqueira no seu livro “Acuso”, a história da oposição é um manancial de intrigas, traições, prisões, assassinatos, ambições descontroladas, irresponsabilidades e vaidades desmesuradas, envolvendo figuras gradas da democracia abrilista. Terá sido esta uma das causas do insucesso da luta oposicionista contra o regime de Salazar; incapacidade de articulação de uma estratégia comum com um chefe e uma cadeia hierárquica aceite por todos. Humberto Delgado, no seu estilo espalha-brasas, era um homem de ação, indisponível para burocracias e revoltas de secretária, comportamento que provocava graves dissabores aos comunistas. Paradoxalmente, a perseguição e tortura destes era uma das causas do anti salazarismo de Delgado, que as condenava convictamente, apesar de anticomunista confesso. De todo o modo a polícia de Salazar tinha infiltrado praticamente todos os núcleos oposicionistas mantendo-se ao corrente dos seus movimentos.

   Para completar o puzzle oposicionista, refere-se a Associação dos Portugueses livres de Marrocos, a qual, ainda antes da fundação da F.P.L.N., decidira apoiar Humberto Delgado, o que, após a cisão na FP.L.N., viria a acarretar graves dissabores aos seus membros, em virtude da retaliação que o Partido Comunista e seus aliados da F.P.L.N. lhes passou a mover, bem como a todos os aderentes à causa de Humberto Delgado, beneficiando das boas graças do Presidente argelino Ben Bella. Na sua grande maioria, aqueles, ficaram sem emprego, sem habitação, passaram a ter grande dificuldade na obtenção de vistos de entrada e saída no país, acabando alguns por ser expulsos.

   No interior de Portugal desencadeou-se um movimento revolucionário, que viria a ser designado por “Organização República” (O.R.), disseminado por todo o território com a missão de ocupação dos cargos administrativos quando se verificasse a eclosão da revolta militar de deposição do regime de Salazar e instauração de um regime liberal sem a presença de comunistas. Deste movimento - que viria a ser descoberto e desmantelado pela PIDE, graças a uma notícia publicada no Le Monde com origem numa fonte da F.P.L.N. -, faziam parte figuras como Manuel José Homem de Melo, Marechal Craveiro Lopes, General Botelho Moniz, Contra-Almirante Ramos Pereira, Capitão Vilhena, Coronel Montalvão, Coronel Firmino da Silva, Dr. Dias Amado, Dr. João Manuel da Costa Figueira, Dr.. Zacarias Guerreiro, Francisco Lopes Madeira (comerciante), António Rita (industrial de conservas), José dos Santos (solicitador) e outros.
Foto: paquete Pátria, gémeo do Império.

Peniche, 21 de Fevereiro de 2019
António Barreto

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado; O Mártir Socialista (notas, P10)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista
(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
  
Falhado o assalto ao quartel de Beja, Humberto Delgado regressa ao Brasil, onde, sob o patrocínio da maçonaria do Rio de Janeiro, foi tentada, infrutiferamente, a reconciliação com Henrique Galvão. Delgado era Grão-Mestre do Grande Oriente Português do Exílio. Galvão não era maçon. Compreende-se assim melhor a “simpatia” dos socialistas portugueses - onde prolifera a maçonaria - por Humberto Delgado, e o ostracismo a que foi votado Henrique Galvão pelos “democratas” de abril.

   Delgado, não só recusaria a reconciliação com Galvão como o procuraria desacreditá-lo junto da comunidade portuguesa - chamando-lhe fiteiro, traidor, ladrão e gangster -chegando mesmo a pedir a sua expulsão do Brasil. Galvão mover-lhe-ia um processo que viria a ser arquivado pela justiça brasileira, sem julgamento.

   Após a saída de Delgado para o norte de África, Galvão, numa carta à sua mulher, Maria de Lurdes, referir-se-lhe-ia nestes termos:

“-….Esse está liquidado de vez e receio bem que venha a acabar muito mal. Deixa atrás de si o espetáculo de um estado patológico de indignidade política e moral que só se explica com casos de loucura.”

   Quando, 14 meses depois teve conhecimento de que os corpos de Humberto Delgado e da sua amante brasileira Arajyr Campos tinham sido encontrados em Vila Nueva D’el Fresno, publicou no ”O Estado de São Paulo”:

   Foram homens do Partido Comunista Português, companheiros ou ex-companheiros do general Delgado, quem planeou e fez executar o assassínio….Para bons comunistas, o facto de o fazerem desaparecer seria, como para qualquer totalitário, a menor das coisas.”

    Diria ainda à mulher:

   Estávamos mal, irremediavelmente mal, mas isso nada tem a ver com o crime, que foi odioso. Os seus erros de louco pagou-os muito caros.”

     Dececionado com a passividade do povo português perante ditadura salazarista e com o fracasso das suas próprias ações revolucionárias, farto de samba e carnaval, Henrique Galvão morreu a 25 de Julho de 1970 - cerca de 32 dias antes de António de Oliveira Salazar -, sozinho, meio louco, na sequência de uma doença degenerativa cerebral que o conduzira a internamento hospitalar, a expensas do jornal brasileiro onde trabalhara, “O Estado de São Paulo” (Salazar ofereceu-se para o pagamento das despesas mas recusou o seu regresso).    

   Mário Soares visitara-o na clínica, em 1970, tendo-lhe oferecido um cigarro e dando-lhe algum alento quanto às possibilidades de recuperação clínica e de regresso a Portugal. Foi ainda Mário Soares, já Presidente da República, que, a título póstumo, o agraciou, a 7 de Novembro de 1991, com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Tinha já sido condecorado pelo Estado Novo, em 1934, como Grande Oficial da Ordem de Cristo. Jaz no cemitério dos Prazeres, na mesma rua do jazigo de Nascimento Costa.
 
Foto do paquete Império; um dos "meus" navios.

Peniche, 17 de Fevereiro de 2019
AntónioBarreto

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado; curiosidades

  
Encontram-se coisas engraçadas nos escritos de Humberto Delgado. Desde logo o elevado nível cultural patenteado e o vocabulário, este, a fazer lembrar o Aquilino. Dá um trabalhão. À parte isso encontram-se algumas preciosidades como estas:
 
Aludindo aos seguidores de Salazar, comparava-os aos comunistas, desta maneira:
 
   "Aconselho-os a instilarem no cérebro a ideia da necessidade de deixarem de ser comunistas, como realmente são, nos métodos, e passo a provar:
   Assim, aplica-se-lhes perfeitamente o dito de Howard Fast no seu livro "O Deus Nu": "Quando estas opiniões se referem a algo que não seja a linha do Partido, estão erradas. Dentro da linha do Partido, o dogma da linguagem sacerdotal é o substituto da linguagem normal do seu país de origem.""
 
Interessante este paralelismo, esta semelhança entre a União Nacional e o PCP.
 
Outro caso é o de Gonçalves Cerejeira, intelectual brilhante, por quem Humberto Delgado nutria enorme respeito, ora vejamos:
 
   Depois de citar partes da célebre carta de D. António Ferreira Gomes a Salazar, diz:
 
   "Gostaria de aflorar a posição de outro alto dignitário, a quem estou agradecido, Sua Eminência o Cardeal Cerejeira, e passando abruptamente a escalão humílimo, dar conta da posição de tantos jovens, entre eles, uma filha minha, noelista, discreta, visitante de um dos bairros da lata de Lisboa, bairros junto dos quais as favelas do Rio engrinaldam em palácios."
 
E mais adiante, a propósito de uma prostituta desesperada à procura de ajuda:
 
   "Ora, o Cardeal, do pouco que conheço da sua personalidade, é um bom. Como candidato que fui à chefatura do Estado, tenho mesmo o prazer de confessar dever-lhe um favor em benefício de uma desgraçada mulher, rameira de profissão, que queria mudar de vida, para o que precisava de apoio mural. Dirigindo-se a um comissário da polícia - claro, dentro da tradição, bem pago e oficial do Exército - obteve como resposta que, quem nasce assim, assim morre, sendo posta na rua! (Ia jurar que o senhor vai à missa, não por ser católico, mas por e para ser polícia).
   Procurou-me então como "o candidato, pai dos pobres", dentro da tendência sebastianista daquele pobre povo sofredor.
   Escrevo ao Cardeal Cerejeira que, em carta rescendendo da mais bela cristandade, me comunicou ir tratar do caso. Esta e outras ocorrências, passando de boca em boca, foram abrindo os olhos ao clero e ao povo."
 
   Curioso este ponto comum de Salazar e Delgado, ambos admiradores de Cerejeira. Por esta altura já Cerejeira e Salazar andavam de candeias às avessas por causa das brutalidades do regime.
 
Em, "A Tirania Portuguesa".
 
Peniche, 16 de Fevereiro de 2019
António Barreto

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P9)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)  
 
  
Mas o sequestro do avião da TAP e do lançamento dos panfletos sobre Lisboa acabaria por realizar-se, com os operacionais Palma Inácio, Manuel Serra, Camilo Mortágua, Fernando Vasconcelos, Helena Vidal - grávida de dois meses - e João Martins. José Cerqueira Marcelino, de 45 anos, foi o piloto do Super-Constellation da TAP - Mouzinho de Albuquerque -, que, de Casablanca, seria desviado para Lisboa onde foram lançados mil panfletos - na Avenida da Liberdade, no Marquês de Pombal, na Rua do Ouro, no Terreiro do Paço, na Avenida 24 de Julho, Alcântara, Barreiro, Beja, Faro -, incitando a população à rebelião, com regresso a Tânger, onde Galvão os esperava. Este dera ordens escrupulosas aos operacionais para não fazerem vítimas. Dois caças F-86 Sabre - Falcões Vermelhos - saíram de Monte Real com ordens para impor o regresso do Super-Constellation a Lisboa ou abatê-lo. Quando levantaram voo, este já tinha aterrado em Tânger. Tal não obstou o inevitável interrogatório da frustrada PIDE aos pilotos. Galvão tinha simulado um desembarque por mar, no Algarve, onde dois navios de guerra aguardaram, em vão. Foi o primeiro sequestro da história da aviação comercial em todo o mundo.

    O comportamento do piloto José Marcelino suscitou rasgados elogios da parte de Henrique Galvão. É verdade que Marcelino foi pragmático, inteligente e corajoso, revelando grande perícia nas manobras da aeronave. Foi talvez pela sua postura serena que não houve vítimas - Camilo Mortágua acharia a operação demasiado fácil -, mas, talvez a razão dos elogios tenha sido outra. É que a resistência da tripulação poderia ter abortado a operação provocando vítimas mortais e manchando o movimento de Galvão. Diferente foi o caso do paquete Santa Maria, em que, apesar do titubeante comandante, o projeto ficou aquém do planeado. Então, Galvão sentiu a frustração.

   Nestes episódios ficou bem expresso o caráter autoritário e paradoxal de Humberto Delgado. O seu egoísmo superou o seu patriotismo. Ao recusar a articulação dos dois projetos sacrificou a probabilidade de sucesso da insurreição, revelando um profundo desejo de poder e ciúmes exacerbados. Afinal ele é que traiu Galvão ao denunciá-lo publicamente. Apesar disso, este mostrou-se melhor preparado para a fase operacional e dum nível de patriotismo superior. Ambos eram corajosos mas Henrique Galvão enfrentou Salazar e o “seu” aparelho por dentro do regime onde ocupava cargo de relevo. Humberto Delgado foi um fiel servidor de Salazar até experimentar o doce sabor da popularidade quando se candidatou, pela oposição, à Presidência da República, por iniciativa de Henrique Galvão. A derrota foi a causa da dissidência. Henrique Galvão Foi uma lenda que o abrilismo quis esquecer, por ser anticomunista convicto e por ter um entendimento diferente relativamente às colónias.

   O convite que a ONU, em 1962 fez a Henrique Galvão para discursar como peticionário contra a política ultramarina portuguesa, acabaria por concretizar-se em 13 de Dezembro de 1963 a pedido dos países africanos e apesar das diligências americanas para o evitar dado o seu interesse em preservar o acordo que tinha com o Governo português para utilização da base da Lages.

   Galvão corria o risco de extradição ao pisar solo americano o que o obrigaria ao cumprimento da pena de 24 anos de prisão pelo cúmulo jurídico relativo às condenações do sequestro do Santa Maria e do avião da TAP. Escapou graças ao diletantismo provocado, intencionalmente, pela administração americana, que terá invocado dificuldades burocráticas, dando tempo a Galvão para apanhar o avião de regresso ao Brasil.

   Porém, para os promotores do evento, a deceção foi total; contrariamente ao que esperavam - a reprovação inequívoca da política ultramarina portuguesa -, Henrique Galvão defendeu a suspensão da guerra colonial seguida da consulta ao povo português e aos habitantes das colónias sobre a autodeterminação, após o estabelecimento da democracia em Portugal, tendo responsabilizado Salazar pelos problemas que se verificavam no Ultramar. Para desespero da audiência africana Galvão declarou que as colónias não estavam prontas para a independência total, o que aqueles consideraram uma atitude colonialista.

   Hoje, que assistimos à invasão da Europa por imigrantes afro-asiáticos, constatamos que Henrique Galvão estava certo; as independências africanas falharam quase todas ou todas, sujeitando as respetivas populações à miséria e à repressão com a conivência da ONU.

   Os fautores da trágica descolonização portuguesa preferiram ignorar o grande opositor de Salazar, para não serem confrontados com os erros que cometeram, já que se limitaram a entregar as colónias, incondicionalmente, empenhados, como hoje, na difusão do socialismo sob o manto hipócrita da ONU.

   No âmbito interno, toda esta turbulência - circularam ainda rumores da oferta de financiamento de 500 mil dólares, pelo regime cubano, para o assassinato de Salazar -, e a convicção da iminência de novas operações, contribuiu para o recrudescimento da ação das forças de segurança cujas principais vítimas terão sido os comunistas, empenhados sobretudo em ações de consciencialização das massas.

   Uma curiosidade; foi Henrique Galvão que apelidou Salazar de caranguejola numa carta que enviou à sua mulher após o regresso da ONU. Caranguejola foi o termo com que a esquerda - da “geringonça” - apelidou o arranjo partidário do governo que a precedeu. Ou seja, implicitamente, chamou fascista a um governo eleito democraticamente.

Foto: Supercontellation idêntico ao que foi sequestrado pela equipa de Henrique Galvão.

Peniche, 13 de Fevereiro de 2019
António Barreto