segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P8)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
 
  
É neste contexto que Delgado extingue o cargo de secretário-geral do MNI até então exercido por Galvão. Por sua vez, este, cria o movimento de democratas anticomunistas, a Frente Antitotalitária dos Portugueses Livres Exilados, em nome da qual lança um ultimato a Américo Tomás para, em 30 dias, abdicar do cargo em favor de uma junta governativa com a função de organizar a transição para a democracia.


   Nos meses que se seguiram ao epílogo do sequestro do navio Santa Maria, Delgado e Galvão deram que fazer ao governo de Salazar. E de que maneira! Instalou-se no país a convicção da iminência de operações armadas em território nacional. Os rumores corriam como rastilho. O pânico instalava-se entre a população; por esta altura verificou-se a invasão da Índia Portuguesa, as incursões terroristas da UPA em Angola, os Estados Unidos - do democrata John Kennedy - mudavam de posição, adotando o princípio da autodeterminação dos povos, a ONU acolhia o mesmo princípio, à revelia do Direito Internacional vigente, descurando a validação da representatividade dos “movimentos de libertação”.

   Perante este quadro, concorde-se ou não com as políticas de Salazar, a capacidade deste resistir a toda esta turbulência - sabotagem, subversão, guerra colonial em três frentes e diplomacia internacional - durante cerca de 44 anos , foi invulgar. Ainda assim, de 1950 a 1974, Portugal foi um dos países do mundo cujos indicadores sociais mais progrediram. Foram os anos de ouro da economia portuguesa. Sem ajudas externas. Nem Delgado, nem Galvão, nem Cunhal, nem Soares conseguiram derrubar Salazar, nem Cuba, nem a URSS, nem os EUA, nem os países nórdicos, nem Marrocos, nem a Argélia. Foi um ditador, sim, mas não fascista. Se o tivesse sido, muitos dos seus opositores não teriam sobrevivido à prisão- Henrique Galvão, Álvaro Cunhal, Mário Soares, Palma Inácio, Manuel Serra, Amândio Silva e muitos outros.

    A incompatibilidade entre Delgado e Galvão era irreversível, e apesar das tentativas de conciliação dos respetivos correligionários, atinge o auge em Outubro de 1961, quando, numa conferência de imprensa em Casablanca, Humberto Delgado acusa Henrique Galvão de traição, denunciando o hipotético golpe que este estaria a preparar contra Portugal, em Casablanca.

   Ambos planeavam ações armadas contra Portugal, mas apesar dos esforços de Galvão, não foi possível conciliá-las. Delgado queria iniciar a revolta sublevando uma unidade militar com infiltrados a que seria dada sequência pelo levantamento popular previamente fomentado. Viria a ser a fracassada revolta do quartel de Beja, em Janeiro de 1962. Galvão queria tomar o posto militar de Santa Luzia em Viana do Castelo onde acreditava resistir 48 horas com uma pequena força dando tempo ao levantamento popular - na sequência do lançamento de panfletos a partir de um avião sequestrado para o efeito. A sublevação do quartel não foi possível por falta de capacidade de recrutamento de Manuel Serra, Raúl Marques e José Paulo Graça. Não havia voluntários.
O mesmo se verificara na Venezuela quando Galvão quis lançar um atentado contra Salazar.
Foto; Jânio Quadros (Presidente do Brasil)

Peniche, 11 de Fevereiro de 2019
António Barreto

 

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P7)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista
(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
 
   
Graças à pressão internacional movida pela diplomacia do governo português, o paquete Santa Maria acabaria por ser entregue ao Governo Brasileiro ficando por concluir os restantes objetivos do sequestro: tomada da ilha de Fernando Pó e ataque a Luanda dirigida inicialmente ao controlo do aeroporto e da rádio, terminando na constituição de um governo. Para este desfecho contribuiu o levantamento da tripulação, o motim dos passageiros, e a intervenção dos fuzileiros brasileiros. No Recife, encontravam-se, entre um “mar” de jornalistas, Artur Agostinho e João Coito trabalhando na reportagem do evento.

     Em toda esta tragicomédia esteve patente o poder diplomático e político do Governo de Salazar e a sua capacidade de intervenção militar - uma força naval estava pronta a intercetar o paquete Santa Maria caso este se dirigisse para África. Porém, este sequestro, foi um marco na viragem da comunidade internacional relativamente à ditadura portuguesa, condenada desde 1945. Curioso é que, de 1950 a 1974, Portugal foi um dos países do mundo cujos indicadores socioeconómicos mais evoluíram. E Salazar, afinal, seria pateticamente derrubado por uma cadeira defeituosa.

   Ao ser informado do sequestro do paquete, Salazar terá comentado: “Bem me parecia. Galvão é homem empreendedor, qualquer coisa haveria de fazer. Sempre me pareceu tolice deixar sair Galvão, sempre me pareceu que nem os argentinos cumpririam a promessa, nem ele ficaria quieto. Mas houve aí uns medos, mil pressões...”.

    Henrique Galvão defendia a dignidade dos negros das colónias e dos portugueses da metrópole, mas era contra a independência daquelas - por não estarem preparadas as populações -, defendia a substituição das ditaduras ibéricas por democracias em regime de confederação com a Galiza, Catalunha e País Basco independentes. Era anticomunista convicto - Galvão chegou a encontrar-se em Cuba com Che Guevara e Raul Castro, para pedir financiamento da operação dulcineia -, razão pela qual é hoje esquecido pelas novas elites políticas. Na Assembleia Nacional onde era deputado, denunciou o trabalho forçado nas colónias que presenciou enquanto Inspetor colonial e apresentou um relatório nestes termos:

“Se quisermos ser realistas, a situação é pelo menos tão desumana como era nos tempos da escravatura. Contudo, nesse tempo, o negro, comparado a um animal de trabalho, continuava a ser uma peça de propriedade pessoal, que o seu dono tinha interesse em manter saudável e vigorosa, como fazia com o seu boi ou com o seu cavalo. Atualmente, um negro não é vendido, mas simplesmente alugado ao Governo sem perder o rótulo de homem livre. O patrão interessa-se pouco que o homem viva ou morra, desde que trabalhe enquanto puder.”

   Um dos financiadores de Humberto Delgado e Henrique Galvão foi o célebre Lúcio Tomé Feteira, empresário de Vieira de Leiria com fortuna, exilado no Brasil, cuja secretária, Rosalina, foi recentemente assassinada num caso que envolveu o conhecido advogado Duarte Lima.

   A 14 de Fevereiro o majestoso paquete Santa Maria atracava no cais de Alcântara onde foi recebido apoteoticamente por Salazar e cerca de 100 mil pessoas. Por essa altura já o Ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, conspirava com o embaixador americano contra o ditador. Os ataques da UPA no norte de Angola a um quartel da PSP e a prisões militares e civis, com que se iniciaria a guerra colonial, verificar-se-iam pouco depois. Botelho Moniz, seria demitido em Abril, após tentativa de golpe de Estado falhada, tendo Salazar assumido a pasta da defesa.

   Ainda em Abril foi detido pela PIDE, em Lisboa, um fotógrafo brasileiro que viria com a missão de levar a cabo vários atentados à bomba no país e contra Salazar, com explosivos que trouxera dissimulados no navio argentino em que viajara. Descoberto, foi condenado a cinco anos de cadeia e solto após cumprida metade da pena. Surpreendente, para um ditador que se diz implacável.

   Um país comunista - supõe-se que a URSS - terá oferecido a Jorge Sotomayor dois contratorpedeiros para afundar o paquete Vera Cruz, com 1500 soldados a bordo e armamento para Angola, com a condição de Portugal sair da Nato logo que Henrique Galvão assumisse o poder. Este terá recusado declarando-se indisponível para aceitar ajuda de países comunistas e para assumir compromissos sem consultar previamente o povo Português. Foi a causa da rutura no DRIL, por várias vezes eminente durante a operação Dulcineia.

   Maria Ruth Nascimento Costa, só receberia a pensão por morte de seu marido - que lhe havia sido prometida por Américo Tomás -, quando Marcello Caetano ascendeu ao poder em 1968! Depois da condecoração a título póstumo por Américo Thomáz, com o colar da Torre e Espada de Valor Lealdade e Mérito por altura do funeral, a família do malogrado piloto foi votada ao esquecimento pelo Estado durante sete anos.

   Abandonada a quinta de Campinas por falta de fundos, Humberto Delgado e Henrique Galvão são acusados por 15 guerrilheiros de desvio de verbas e desacreditados publicamente por ação do consulado de Portugal em São Paulo. O DRIL acabaria pouco tempo depois. Pepe Velo dedicar-se-ia à atividade editorial e Jorge Sotomayor continuaria, sucessivamente, a embrenhar-se em causas revolucionárias.

   Os dois opositores de Salazar incompatibilizar-se-iam pouco depois - em Maio -, por discordância da orgânica do MNI; Galvão queria a chefia militar para si e a chefia política para Delgado. Este queria assumir ambas argumentando com a diferença de patentes entre eles. O perfil autoritário de Delgado, mais uma vez patente, acabaria, mais tarde, por provocar graves roturas na oposição sediada em Argel.
Peniche, 10 de Fevereiro de 2019
António Barreto

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P6)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
  
  
Quer no trajeto de Galvão quer no de Delgado há uma vertente quixotesca resultante de um exacerbado conceito que ambos tinham de si próprios e que, frequentemente, vinha à tona. Ambos tinham uma tremenda sede de glória e poder e relativizavam a importância das vítimas. Ressalve-se que, no caso da Santa Maria, as ordens emanadas de Galvão e Velo, foram de que não houvesse vítimas. Apesar disso, Henrique Galvão esteve prestes a ser assassinado pelos seus pares espanhóis por, alegadamente, ter negligenciado o combinado ao negociar com o exterior sem os consultar previamente. Foi poupado para evitar a descredibilização pública da organização e a tipificação do sequestro como ato de pirataria tipificado pelo Direito Internacional Marítimo vigente.

   Avaliação de Galvão a Mortágua: “Camilo – Chefe do Grupo: Decisões e bravura pessoal. Manifestou sempre vontade inquebrantável quanto à realização da operação, sendo neste capítulo o mais regularmente firme. Sujeito a desânimos transitórios perante as dificuldades da preparação. Imaginação viva mas mal informada. Precipitado e pouco reflexivo. Não pode ainda ser-lhe confiada uma ação importante. Pouco previdente quanto às consequências das suas decisões, portanto, imprudente. Politicamente, em formação - Sentimental nos ideais.”

   Proclamação aos portugueses, de Miguel Urbano Rodrigues - jornalista que embarcara no paquete Santa Maria em alto mar, a partir de uma traineira -, “Os nossos lemas serão: a terra para os que nela trabalham e a casa para os que nela vivem. Liquidaremos o latifúndio como liquidaremos a especulação imobiliária”. Um lema que se mantém vivo e em marcha nos dias de hoje pela via reformista encetada pelos “herdeiros” políticos de Humberto Delgado.

   John Kennedy era o presidente americano em exercício. Pressionado para deter o navio português e prender os assaltantes, Kennedy, como “bom” democrata, através do Departamento de Defesa, do seu governo, acabaria por classificar o sequestro como um ato político em obediência a um governo no exílio, personificado pelo general Humberto Delgado. Uma viragem do posicionamento político dos EUA que acabaria com o suporte político da ONU ao governo de Salazar e desencadearia as lutas de guerrilha de “libertação” das colónias, legitimando-as.

      A prosápia quixotesca de Galvão - uma estatueta do cavaleiro da triste figura adornara a sua secretária em Lisboa - vem de novo à tona no telegrama que envia a Humberto Delgado pouco antes de o navio entrar em águas brasileiras: -“Ao entrar em águas do Brasil, com a primeira fase da missão que V.Ex.ª me confiou integralmente cumprida, todas as forças sob meu comando e eu saudamos em V.Exª, o único chefe de Estado português que reconhecemos e a suprema autoridade portuguesa do DRIL.” As forças sob comando de Galvão - a secção portuguesa do DRIL -, seriam, quando muito, uma dúzia de românticos meio falhados e mal treinados seduzidos pelo fascínio da aventura, como Rosa Soskin, a enésima amante do Capitão. Enfim, afinal compreende-se pela intenção de impressionar o mundo exterior.

   Logo depois, o mesmo Galvão, exibe a sua compulsiva fanfarronice ao insultar os tripulantes, que, na espectativa da proteção brasileira, se recusaram a tripular o navio sem o prévio compromisso pelo chefe rebelde, do seu desembarque.

   Henrique Galvão não era cobarde, demonstrou-o sobejamente, pelas denúncias públicas que fez do governo de Salazar e pelo seu rocambolesco trajeto pelas prisões, hospitais e embaixadas, até ao exílio na Argentina, Venezuela e Brasil. Ao ter declinado a ideia alternativa de sequestro dum navio de guerra com o pretexto da previsível reação da respetiva tripulação preferindo um navio de passageiros totalmente desarmado, contando com a proteção de tripulantes e passageiros enquanto escudos humanos, Henrique Galvão perdeu a autoridade moral de chamar cobardes àqueles.

   O sequestro do paquete Santa Maria, agravado com o assassínio traiçoeiro de dois tripulantes e agressões a tiro e à coronhada a tripulantes e passageiros desarmados, foi um ato de cobardia. Fanfarrão, o Capitão afirmou-lhes que, no lugar deles, teria reagido enfrentando os assaltantes. Uma parvoíce. Com cerca de 600 pessoas a bordo sem treino militar, sem armas, desconhecendo a quantidade e o posicionamento dos assaltantes, com suspeita de explosivos nos porões, reagir era a opção errada.

   A faceta exibicionista de Henrique Galvão, que sempre o acompanhou, esteve bem patente quando pediu ao artífice do navio para lhe fazer três divisas em latão - exageradamente largas -, com que se adornou, acrescentando-lhes quatro estrelas autopromovendo-se a “General”. Parece anedota!

   Ao anoitecer, chega numa traineira ao paquete Santa Maria, Humberto Delgado. Ao subir a bordo é vítima dum pequeno acidente com uma grua, cujo gancho o atinge, prendendo-se no seu cinto e suspendendo-o. Prestes a cair ao mar, ter-se-á agarrado à escada vociferando um palavrão, ameaçando um repórter a quem culpava, de destruição. Um jornalista português que assistiu à cena descreveu o episódio, à redação do seu jornal: -“Assim mesmo, um pouco pendurado e esperneando, voltou-se para trás exclamando para a sua secretária que o acompanhara na lancha e foi também a bordo: -“Se eu morrer, diga há minha mulher: “morreu como um herói…”.

   Também Humberto Delgado “sofria” desta malfadada doença do heroísmo, do desejo de eternidade - da qual padece grande parte dos homens que pretendem salvar o mundo. No fundo o medo da morte e a angústia da solidão estão na origem da busca de causas dos aspirantes a heróis. Uns são-no de facto, outros não passam de impostores. Não creio, porém, que tenham sido os casos de Galvão e Delgado.
Peniche, 7 de Fevereiro de 2019
António Barreto

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P5)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)  

Depois das muitas peripécias de preparação, nas quais Camilo Mortágua teve ação destacada - no recrutamento de operacionais e na obtenção de donativos e alimentos para o projeto -, e onde surgem personalidades como Miguel Urbano Rodrigues, Victor da Cunha Rego e Jaime Cortesão, após um período de treino na colónia de férias Los Caracas, inicia-se em La Guaira, a 20 de Janeiro de 1961, a operação Dulcineia, com a entrada a bordo do grosso dos operacionais e armas. Galvão e José Frias juntar-se-lhes-iam no dia seguinte na ilha holandesa de Curaçau. “Honra ou morte” foram as palavras de ordem de Humberto Delgado a Henrique Galvão.

   Quer Galvão, quer Delgado, praticaram ações de grande bravura, mas o sequestro do paquete Santa Maria não foi uma delas; dominar uma tripulação de um navio de passageiros desarmados, servindo-se destes como escudos perante a eventualidade de reações externas, não é grande feito.

   A operação saldou-se por um semifracasso; salvou-se o impacto mediático mas ficaram por consumar a tomada da ilha de Fernando pó e os ataques a São Tomé e Príncipe e a Luanda.

   O momento trágico do sequestro viveu-se ponte onde uma precipitação dos assaltantes desencadeou um tiroteio que atingiu o 3º Piloto de serviço, Nascimento Costa, que ficou no chão a esvair-se em sangue pedindo para acabarem de o matar. Já alvejado com um tiro, o 3º Piloto, tentara refugiar-se na Casa de Navegação resistindo a Jorge Sottomayor, altura em que voltou a ser alvejado e derrubado. Viria a falecer mais tarde na enfermaria, ele, que estivera para não embarcar para assistir, em Lisboa, ao nascimento do primeiro filho.

   O praticante de Piloto João Lopes foi a segunda vítima, atingido com um primeiro tiro num braço e dois nas costas quando tentava avisar o comandante Simões Maia.

   Também o médico Cícero Campos foi atingido com um tiro nas costas ao desobedecer às ordens dos assaltantes. Apesar disso, ao deparar-se com o macabro cenário na ponte, para onde o obrigaram a dirigir-se, convenceu-os a consentirem na transferência dos feridos para a enfermaria onde lhes foi prestada assistência médica pela equipa liderada pelo Dr. Teodomiro Borges1. Nascimento Costa, com uma bala alojada num pulmão, viria a falecer na manhã seguinte pelas 07h20’.

   Os comportamentos dos assaltantes - com Camilo Mortágua pateticamente armado até aos dentes, com pistola, metralhadora, granadas, bastão e faca de mato, quando a única arma a bordo era uma pistola de 6,35 mm…sem balas, e as bravatas serôdias de Henrique Galvão: “Estejam descansados e não se preocupem que ninguém lhes faz mal, eu sou o Capitão Galvão” e “Não se está a passar nada além do facto de eu ter tomado o seu navio”-, à parte as trágicas vítimas, mais se assemelhavam aos de atores de uma comédia burlesca do que aos de operacionais militarizados. Estes eram apenas 25. As mortes foram consequência da falta de treino e de sentido de missão.

Peniche, 05 de Fevereiro de 2019
António Barreto

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (Notas, P4)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)

   João José Nascimento Costa o 3º Piloto de serviço na ponte de comando do Santa Maria morto pelos assaltantes ao reagir ao ataque, tentando desarmar Jorge Sotto Mayor. João Lopes, Praticante de Piloto em serviço com Nascimento Costa foi o também alvejado, cobardemente, com três tiros nas costas, vindo a falecer na ilha de Santa Lucia onde foi desembarcado.


A PIDE teve conhecimento desta nova organização mas subavaliou o seu potencial. Várias bombas deflagraram em Espanha; na sede do Ayuntamiento de Madrid - por ocasião da visita do MNE português - e junto à sede da Falange espanhola - partido que apoiava o regime franquista -, onde morreu o bombista. Por deflagrar ficaram duas outras bombas; uma na sede da Ibéria e outra numa estátua junto ao museu do Prado. Foram detidos dois suspeitos pela polícia espanhola; um foi condenado a 30 anos de prisão, outro à morte por estrangulamento pelo garrote. Henrique Galvão, porta-voz para a Venezuela, fundamentou o uso de explosivos e prometeu ações idênticas em Portugal com salvaguarda de vidas inocentes e de interesses estrangeiros.

   Foi então que, numa iniciativa local de recrutamento, José Fernando Fernández Vasquez - o célebre Jorge Sotomayor -, ex-oficial da marinha, combatente antifranquista e antifascista, sobrevivente de Saint Ciprien e Auschwitz, aderiu ao DRIL, vindo a desempenhar papel de relevo no sequestro do Santa Maria e a ser um dos suspeitos da morte do piloto Nascimento Costa, este, segundo Galvão, “o único tripulante que merecia viver”.

   Pouco depois, o “bom coração” do operacional destacado pelos militantes do DRL na Bélgica para a operação Covadonga, poupou a vida a milhares de adeptos e ao próprio Franco - que assistiam, no Santiago Bernabéu à finalíssima da Taça entre o Real Madrid e o Atlético de Madrid, que este viria a ganhar -, ao desistir do atentado à bomba destinado a matar o ditador espanhol. A antevisão das vítimas inocentes tê-lo-á feito recuar, depositando a bomba, desativada, numa casa de banho do estádio.

   A mesma sorte não tiveram os cinco civis e a menina de ano e meio, Maria Begoña Urroz atingidos no atentado do dia seguinte, 27 de Junho de 1960, na estação de San Sebastán - aqueles feridos e esta atingida mortalmente -, a quarta de uma série de explosões que incluíram as estações de Madrid e Barcelona, uma semana após o encontro de Salazar e Franco em Mérida.

   Contrariamente à ativa divisão espanhola do DRIL à qual não faltavam operacionais determinados, Henrique Galvão, frustrado, não conseguiu arregimentar voluntários para a operação de rapto de Salazar em Lisboa que congeminara. Contudo, conseguiu ganhar a simpatia do futuro Presidente do Brasil, Jânio Quadros, então apenas candidato. E cria a fugaz rádio “Voz Portugal Livre” com emissor numa embarcação vagueando pelas caraíbas e audível em Lisboa.

   Finalmente, veio a operação Santa Maria. Sob a égide de Humberto Delgado, que mandata Henrique Galvão, secretário-geral do MNI, a constituir, com a DRIL, a Junta Nacional Independente de Libertação (JNIL) com a finalidade de realizar operações de libertação de Portugal em território pátrio ou equiparável; navio ou aeronave. O comando do lado espanhol ficou a cargo de Jorge Sotomayor e do lado português, de Henrique Galvão. Dulcineia foi o nome que Delgado deu à operação.
 
 
Peniche, 1 de Fevereiro de 2019
António Barreto

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (Notas, P3)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros) 
  
  
Em entrevista ao jornal brasileiro “O Semanário” concedida em 11/12/1958, Humberto Delgado refere as razões da sua mudança relativamente ao regime de Salazar que veementemente apoiara:

   Bem, agora é que as minhas divergências tomaram este vulto, no entanto, de há muito venho discordando das políticas do senhor Salazar. Fui dos que fizeram a revolução de Maio de 1926 - e fá-la-ia novamente hoje, tão justa foi - mas não foi para isto que aí está; o país arcado, sufocado e humilhado sob o peso duma ditadura sangrenta e feroz. A nação transformada num campo de concentração onde os nossos expoentes da cultura, intelectuais e líderes políticos progressistas e liberais são forçados a exilar-se ou se exilam voluntariamente. A mentalidade do povo está embotada e entre nós já escasseiam os valores. O Estado ditatorial tomou conta de tudo e, na vertical, de cima para baixo, dirige tudo e todos. A Revolução de 1926, absolutamente, não foi feita para isto. Dela, todos os princípios foram desvirtuados e estão por terra. Como isto acabará não sei. Afirmo, todavia, que acabará - e é por isso que estamos na luta.

   Começando por ser o aríete político de Henrique Galvão, consumado o ato eleitoral, Humberto Delgado, através do MNI, assumiu a liderança da oposição a Salazar. Irmanados na mesma causa, conjugando-se no caso do sequestro do paquete Santa Maria, haveriam de incompatibilizar-se mais tarde no exílio no Brasil, por divergências quanto à organização do movimento. 
   Foi em 1959, em Caracas, onde ocasionalmente se encontraram, que Humberto Delgado nomeou Henrique Galvão secretário-geral no estrangeiro do MNI e anunciou a união de forças com exilados espanhóis no combate às ditaduras ibéricas.
   Desiludido com a oposição de pantufas dos emigrantes lusos em Caracas, Henrique Galvão lá conheceu e arregimentou o célebre Camilo Mortágua. Aos 26 anos, este emigrante de Oliveira de Azeméis, ex-padeiro e ex-locutor de rádio, aderiu ao projeto de Galvão, que constituíra um corpo de intervenção com dissidentes da Junta opositora venezuelana. Foi Mortágua que lhe arranjou emprego numa imobiliária, tornando-se um dos seus mais fiéis correligionários, acompanhando-o na já lendária aventura do paquete Santa Maria.
   Em Janeiro de 1960, em nome do MNI, Galvão estabeleceu um acordo de cooperação com a União dos Combatentes Espanhóis (UCE) liderada por José Velo Mosquera - galego que estivera refugiado em Portugal em fuga ao regime franquista -, do qual resultou a constituição do histórico DRIL - Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação.
   Dedicado ao derrube das ditaduras ibéricas pela violência, o DRIL advogava a democracia, a independência da Galiza, País Basco e Catalunha e o estabelecimento de uma confederação de repúblicas ibéricas. Reforma agrária, nacionalização das grandes indústrias e a criação do Instituto da Reforma Urbana - para garantia do direito universal à habitação - constituíam as traves mestras dos seus princípios programáticos. Pepe Velo era o diretor geral e Henrique Galvão, o responsável pelas ações em Portugal.
 
Foto do Paquete Santa Maria (um dos "meus" navios)
 Peniche, 30 de Janeiro de 2019
António Barreto

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (Notas, P2)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
 
  
Nenhum dos antecedentes candidatos - Norton de Matos e Quintão Meireles - levou as respetivas candidaturas até ao fim, fosse por falta de coragem - como pensava Delgado -, fosse por falta de confiança no processo eleitoral recusando-se a legitimar eleições fraudulentas.

   Os relatos da campanha eleitoral dão conta da forte adesão popular à campanha de Delgado, mostrando haver na sociedade portuguesa de então forte disponibilidade para novas propostas políticas. Na época, as oposições eram constituídas pelo ex-Partido Republicano Democrático, pelas correntes liberais progressistas e socialistas, por alguns setores da igreja Católica - como o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes; Manuel Serra, oficial de máquinas da Marinha Mercante um dos líderes do assalto ao quartel de Beja em Janeiro de 1962 que já participara no Golpe da Sé em 1959; padre Perestrelo de Vasconcelos, ex-capelão da Marinha envolvido na mesma conspiração da Sé - e personalidades como; Vasco da Gama Fernandes, Jaime Cortesão, Mário Soares, Mário de Azevedo Gomes, Francisco da Cunha Leal, Mendes Cabeçadas, Ramon de La Féria, António Lomelino, Acácio Gouveia, Fernando Piteira Santos, capitão Almeida Santos - um dos líderes da Revolta da Sé, em Março de 1959 -, coronel Varela Gomes - outro líder do assalto ao Quartel de Beja -,Vasco Gonçalves­ e muitos outros.

   Apesar da grande recetividade popular à campanha de Delgado, que, ao que parece, decorreu sem restrições, a sua candidatura obteve apenas 25% dos votos. Convencido de fraude eleitoral - a oposição não participou na contagem dos votos -, Humberto Delgado considerou-se legítimo vencedor. Já Américo Thomaz, cuja campanha teve, também, grande recetividade popular, considerou - nas suas “Últimas décadas da República” -, tais declarações como as habituais desculpas dos derrotados.

      Entre o fascínio do sucesso popular e a compulsão da revolta, Humberto Delgado recusou o convite do Governo para integrar uma ação formação em ciências económicas em curso no Canadá. Temendo pela vida - agentes da PIDE pareciam controlar-lhe os movimentos - apresentou-se na embaixada do Brasil onde pediu asilo político. Após prolongadas peripécias de cariz político-diplomático, este, é-lhe concedido, graças à intervenção de Álvaro Lins, intelectual de prestígio e embaixador do Brasil em Lisboa.

   Determinado a prosseguir a luta, Delgado fundou, em 18/06/1958 com os delegados distritais e nacionais da sua candidatura, o MNI - Movimento Nacional Independente - e, já no Brasil, o jornal “Portugal Livre”, “porta-voz do movimento.

   Inviabilizada a intervenção democrática Delgado sentiu-se legitimado a recorrer à luta armada, declarando-o sem restrições onde quer que o recebessem, no frenético périplo que desencadeou pela Europa, Norte de África, América do Sul, Europa de Leste e Rússia. Esta atitude haveria de conduzi-lo à morte, como preconizou Henrique Galvão.  
Peniche, 28 de Janeiro de 2019
António JR Barreto

domingo, 27 de janeiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (Notas P1)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
 

  
Humberto Delgado opunha-se a qualquer tipo de tirania. Nunca aderiu ao comunismo; não queria substituir a ditadura de salazar pela comunista, apesar de ter sido bem tratado na Checoslováquia - onde foi submetido a duas intervenções cirúrgicas a uma hérnia, por influência de Álvaro Cunhal - e na União Soviética - que visitou a convite dos comunistas russos. Admirava a qualidade de vida de ambos. Defendia o Socialismo Democrático mas nunca o definiu. O Partido Socialista é o herdeiro político de Humberto Delgado. Compreende-se a atribuição do seu nome ao aeroporto da Portela pelo executivo socialista da Câmara Municipal de Lisboa.

   Foi em Outubro de 1957 que Henrique Galvão desafiou Humberto Delgado a candidatar-se, no ano seguinte, à Presidência da República, como parte da sua estratégia para derrubar Salazar. Galvão, que chegou a ser um dos correligionários diletos de Salazar, não lhe perdoou o apoio a Duarte Pacheco com quem rivalizara por ocasião da grande exposição da portugalidade que foi o Mundo Português - cujas reminiscências ainda hoje se podem ver lá para os lados da Torre de Belém.

   Indignado com a miséria que viu em África - decorrente da corrupção e do da servidão abjeta a que os negros eram sujeitos -, denunciou os abusos a Salazar e Marcelo Caetano, e, na Assembleia Nacional, confrontou os deputados com as brutalidades da política colonial. Perplexo com a passividade salazarista, íntegro e corajoso, logo decidiu derrubar o regime, pela insurreição armada, conspirando na estruturação dum projeto de ação.

   Foi descoberto e preso pela PIDE, sucedendo-se uma série de peripécias dignas dos melhores filmes de ação, cujos pontos altos foram a fuga do Hospital de Santa Maria, a entrada na embaixada da Argentina, onde esteve asilado, e o sequestro do paquete Santa Maria.

   Galvão associou-se à organização do galego Pepe Vela - DRIL, Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação - com o propósito de derrubar as ditaduras ibéricas pela via armada e substitui-las por regimes democráticos. Já depois do termo da aventura do paquete Santa Maria, com o apoio dos emigrantes portugueses do Brasil, chegou a implementar e dirigir um campo de treino de operacionais em Campinas com a finalidade de derrubar, pela força, o regime de Salazar.  

   Humberto Delgado, embaixador militar na Nato, idólatra de Salazar e defensor incondicional do Estado Novo, era também grande admirador de Henrique Galvão visitando-o com frequência, nas prisões da ditadura. Nasceu entre ambos uma empatia e admiração que culminaria na candidatura de Delgado à Presidência da República, em 1958. Haveriam de odiar-se irredutivelmente mais tarde num inevitável choque de egos.
Peniche, 27 de Janeiro de 2019
António JR Barreto
 

domingo, 30 de dezembro de 2018

Ascensão de Salazar (Os Anos de Salazar, Volume 1, notas 1)


Do Acto Colonial:

   …Criava-se o estatuto de direitos e deveres dos “indígenas”, que incluía a proibição do “trabalho obrigatório”, e eram reconhecidos direitos às missões católicas portuguesas.

Do Estado:

   …Deve o Estado ser tão forte que não precise de ser violento….O regime será autoritário e presidencial.

   A fonte de soberania não é o “cidadão”, mas a “célula social irredutível” que é a família, “núcleo originário da freguesia, do município”. Seguem-se as corporações, que representam “interesses legítimos a integrar nos da coletividade”.

   Rejeita-se a democracia, que foi operando o “nivelamento em baixo, contra o facto das desigualdades naturais, contra a legítima e necessária hierarquia dos valores numa sociedade bem ordenada”.

Da influência religiosa de Salazar:

   Na encíclica Diuturnum do Papa Leão XIII, refutava-se a ideia de que a legitimidade do poder civil e político proviesse do povo. Rejeitava-se o Contrato Social de Rousseau e afirmava-se a necessidade de um chefe para cada grupo de homens.

   A encíclica Libertas declara que a liberdade de expressão e de imprensa não constituem um direito.

   Já a encíclica Sapientiae Christianae defendia o amor extremoso dos cristãos à terra que os viu nascer e crescer, prontos a defendê-la, e o dever de militância política, “disciplinados” ao papa e aos bispos. ..A igreja não segue partidos políticos, mas aprova qualquer sistema de governo, desde que respeite a religião e a moral cristã.

   Na  Rerum Novarum  a igreja insurgiu-se contra o socialismo e o comunismo, contra a luta de classes e do recurso à greve, defendendo a reconciliação entre patrões e empregados nas corporações servindo e Estado de moderador.

   A Inimica Vis condena expressamente a maçonaria.

   A Graves de Communi estabelece os princípios da Democracia cristã, consistindo no reconhecimento do direito de propriedade, na independência das formas de governo, alheamento dos partidos, conciliação entre as classes sociais como uma só família, obediência às ordens justas das autoridades condicionada à conformação destas às leis de Deus. Incentivava-se à beneficência, à previdência, e acção social que levasse a democracia cristã até ao povo.

   No Centro Académico da Democracia Cristã confraternizou com vários católicos notáveis, Mendes dos Remédios, Marnoco e Sousa, Sobral Cid e o jovem minhoto Manuel Gonçalves Cerejeira.

Da influência pagã:

   Charles Maurras, reacionário, na sua Action Francaise defendia o catolicismo enquanto instrumento político - independentemente da Fé - a monarquia antiliberal, a censura e a prevalência do Estado sobre todos os outros interesses.

   Salazar conclui o curso geral do liceu, primeira secção, em 1909, com 19 valores. Em 1914, aos 25 anos, o Conselho da Faculdade de Direito atribui-lhe a classificação final de 19 valores. Em 1916 candidata-se à docência na Universidade de Coimbra na área de Ciências económicas com um estudo intitulado “A Questão Cerealífera. O Trigo”. Em 1917 candidata-se a assistente na Faculdade de Direito e conclui uma dissertação com o título “O Ágio do Ouro, sua natureza e suas causas (1891-1915)” em que analisa a balança de pagamentos e as oscilações cambiais em Portugal, no período indicado.

   Em 1912, Salazar tem uma curiosa intervenção na sua primeira palestra em público na qual, citando Alexandre Herculano, defende a liberdade de pensamento e expressão, a importância da moral e da educação na questão social, o envolvimento útil dos cristãos na sociedade, critica o regime acusando-o de antidemocrático por ser anti-cristão, rematando com uma citação de Afonso Pena onde exprime o seu sentido da vida em “Deus, Pátria, Liberdade, Família”.

   Em 1921, contra sua vontade, Salazar, escolhido pelo Centro Católico Português, é eleito deputado por Guimarães, despedindo-se, logo na primeira sessão, de José Maria Braga da Cruz.

   Nas vésperas do 28 de Maio, em 1925, sucedem mais duas tentativas de golpe militar; uma liderada pelo general Sinel de Cordes, a seguinte, pelo comandante Mendes Cabeçadas.

   Então temos um Salazar ”marrão”; trabalhador, disciplinado, católico, corajoso e ambicioso, que, grato pelo apoio eclesiástico, confundiu catolicismo com cristianismo e declinou o seu conceito de liberdade para um confortável autoritarismo anticristão, subjugado à obsessão da ordem  e disciplina; uma espécie de efeito simétrico face à insanidade da entropia republicana que se vivia na época.

Créditos a António Simões do Paço

Peniche, 29 de Dezembro de 2018

António J. R. Barreto

domingo, 23 de dezembro de 2018

Adoração dos Reis Magos


Diago Velasquez, 1619
Adoração dos Reis Magos

Coletes Amarelos


   A manifestação dos “coletes amarelos em Portugal, para alívio do Presidente da República, Governo e partidos políticos, não teve grande impacto social, tendo sido até considerada, por alguns, um fiasco. Ignorar as causas desta manifestação seria persistir no isolamento da classe política face aos destinatários da sua ação, a população, adiando a inevitável rutura.

   Antes de mais este protesto emergiu por efeito de contágio do que tem ocorrido em França, com grande impacto político e económico no país, mas também na comunidade internacional, sobretudo no seio da União Europeia. A França atravessa uma crise social profunda resultante da conjugação do fenómeno, conjuntural, da imigração, e das consequências, estruturais, da crescente exigência de produtividade. A primeira lançou o caos na população, decorrente dos horrores dos atos de terrorismo islâmico de que tem sido vítima e da complacência das autoridades perante os seus autores. A segunda, provoca fenómenos de exclusão social através do exigente processo de rastreio de profissionais e empresas - a certificação -, de que resulta um crescente “exército” de excluídos dependentes da solidariedade pública.

   Em ambos os casos conclui-se que grande parte da população não se sente representada na matriz política atual dos respetivos regimes. Significa isto, que as dinâmicas partidárias foram perdendo o contacto com as bases, cristalizando-se em torno das correspondentes estruturas, estas, mais preocupadas com a o controlo do poder interno. No caso português, tal como referem José António Saraiva e Vicente Jorge Silva - no seu diálogo aqui anotado - o sistema partidário padece do pecado original que consistiu na importação de modelos externos em vez de emergir da realidade social do país. Isto mesmo pode ser confirmado hoje em dia pelas frequentes alusões à necessidade de mudar os portugueses; não apenas em termos culturais, mas também, literalmente.

   Os comentários de protagonistas e comentadores, com destaque para o Presidente da República, revelam que esta manifestação foi vista pela generalidade da comunidade política como uma espécie de plebiscito ao regime. Precipitadamente, concluíram que a fraca adesão significa que a grande maioria da população considera o regime apropriado e um baixo nível de insatisfação geral. No entanto, se tivermos em conta os sucessivos avisos - ameaças veladas de várias entidades - aos potenciais manifestantes, a dimensão do dispositivo policial convocado para o evento e as posteriores declarações de alívio, revela má consciência e medo. No fundo, sabem que a população tem razões de queixa.

   Aquele medo resulta da possibilidade de contaminação da decadência a que os partidos convencionais - do arco do poder - têm sido submetidos nas democracias ocidentais. Mas não só. Em pânico ficaram os partidos de protesto e respetivas centrais sindicais ao verem por mãos alheias uma prerrogativa - poder da rua - que julgavam exclusivamente sua - por direito revolucionário.

   A leitura a fazer, indesmentível, é que, os tradicionais partidos de protesto centram a sua ação, exclusivamente, na defesa dos interesses das corporações estatais induzindo o agravamento da carga fiscal à sociedade civil que, no fundo, abominam. Em consequência, os Coletes Amarelos são a manifestação deste abandono, duma lacuna que nasceu com a democracia e se tem alargado e aprofundado ao longo destes 44 anos, sem que se vislumbrem vestígios de regeneração (veja-se os recentes casos de sucessivas irregularidades cometidas, prepotentemente, pelos deputados e validados pela segunda figura do regime).

   Porém, apesar da fraca adesão, nada ficará como antes; os promotores da manifestação, tendo agido à margem dos partidos, tiveram a capacidade de organizar um evento de dimensão nacional, enquadrando-o adequadamente no domínio da segurança e prevenindo oportunismos extremistas.

  Nenhum governo deixará de ter em conta esta nova realidade na prossecução das suas políticas. Quanto aos partidos, necessariamente terão que rever o seu modelo de funcionamento sob pena de se tornarem irrelevantes e serem ultrapassados, como já aconteceu noutras paragens. Um tal cenário ocorrerá como consequência do extremismo economicista da União Europeia e da política de imigração em curso, decidida à revelia das populações, que ameaça a segurança destas e a sua própria cultura.

   A histórica solidariedade europeia para com os refugiados de guerra afro-asiáticos e o interesse na recuperação do défice demográfico europeu, estão contaminados por velhos e persistentes ressentimentos republicanos anticlericais internos e por estratégias, mais vastas, de combate ao capitalismo europeu por parte dos seus concorrentes além Atlântico e além dos Urais.

Peniche, 22 de Dezembro de 2018
António J. R. Barreto

O 25 de Abril visto da História (notas, P15)


O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais
 
Estas eleições surgem-nos como o encerramento legal do processo que se iniciou a 25 de Abril. A 27 de Junho fica reconstruída a legalidade…..(JAS)

   A legitimidade da legalidade coloca-se quando os poderes dominantes controlam o poder legislativo distorcendo a soberania popular em benefício próprio. (AB)

…A candidatura de Otelo representa ainda um terceiro projeto, diferente dos outros dois. Diferente em relação ao de Eanes, na medida em que não assenta em mecanismos de tipo representativo, segundo o modelo ocidental; diferente em relação ao de Pato, na medida em que não parte do pressuposto da necessidade prévia de conquistar o Estado por cima, antes insiste na necessidade de organizar em baixo, à margem do Estado, sem os olhos postos, à partida, na conquista do seu aparelho. Por isso, o projeto dos GDUP’s (e só falo do projeto) é precisamente isso: um antipartido…….a unidade de forças que se tornou possível com a candidatura de Otelo pulverizar-se-ia de imediato: a UDP para um lado, o MES para outro e a FSP para outro ainda – e assim por diante. (JAS)

   O modelo ocidental, que acabou, felizmente, por vingar com a vitória do General Ramalho Eanes, parece estar hoje numa crise de identidade indutora dum clima de total insegurança na população. O modelo de Pato continua em perigosa marcha com a tomada do aparelho estatal pelo PCP. Quanto à “democracia popular” de Otelo, uma utopia que o lançaria na criminosa aventura das FP25, tem hoje continuidade no BE, perigosamente próximo do poder. Por tudo isto, em 2018, vai ganhando corpo o sentimento geral de que as “democracias ocidentais” podem deixar de o ser a breve trecho. (AB)

….A lógica partidária, como decorrente que é dum certo tipo de relações e da Civilização que sobre elas se construiu, cairá inevitavelmente no momento em que a civilização burguesa for posta em causa nas suas próprias estruturas. (JAS)
 Foto: Praia das Figueira da Foz.
Peniche, 22 de Dezembro de 2018
António J. R. Barreto

domingo, 9 de dezembro de 2018

O 25 de Abril visto da História (notas, P14)



 O 25 de Abril Visto da História
(Livraria Bertrand)
Diálogo entre José António Saraiva e Vicente Jorge Silva em 1976 sobre a atualidade política, em vésperas as primeiras eleições presidenciais
 
 
…O primeiro dirigente político português a sugerir - indiretamente embora – a fórmula da “maioria de esquerda”, não foi Álvaro Cunhal, foi Mário Soares numa mesa-redonda na TV, depois de conhecidos os resultados das eleições de Abril de 1975. Demarcando-se com nitidez do PPD - que, no entanto, ultrapassa largamente o Partido Comunista em termos eleitorais -, Mário Soares preferiu colocar a tónica no peso maioritário da esquerda (facto que, aliás, se viria a refletir no conteúdo do texto constitucional, elaborado essencialmente com base na conjugação PS-PSD na Assembleia) …(VJS)
    Velhas cumplicidades dos tempos de Argel e da Frente Patriótica de Libertação Nacional. O resultado traduziu-se no PREC, na destruição do tecido económico e do capital, de que o país ainda padece. António Costa, “acossado” pela inesperada derrota eleitoral em 2015, recuperou este modelo reeditando o PREC em versão atualizada, optando pela satisfação das suas clientelas graças à inversão do ciclo económico e ao agravamento do endividamento e da carga fiscal, em vez de preparar o país para a inevitável crise futura. (AB)
 
….A posição de Melo Antunes a respeito do PCP, na sequência do 25 de Novembro, terá muito pouco - ou rigorosamente nada - que ver com a posição de Eanes sobre o mesmo assunto. Para Melo Antunes importava “recuperar” o PCP depois de lhe ter sido provada, em definitivo, a impossibilidade de levar por diante a sua tática golpista. Para Eanes - como para outros elementos militares - o que interessava era a marginalização do PCP….(VJS)
 
   Melo Antunes, comunista desde a juventude e principal mentor ideológico da insurreição de Abril e da desastrosa descolonização, detendo, à época, preponderância política, junto do “Grupo dos nove”, tratou de “salvar a pele” aos instigadores dos insurretos de Novembro - parte deles integrando atualmente o Bloco de Esquerda, nomeadamente a UDP nova designação dos dissidentes de 1964 do PCP, constituindo então a FAR, defensora da intervenção armada, a que aquele partido se opôs, e que em 75 concretizaram saindo derrotados - opondo-se à sua ilegalização. Quanto a Eanes, sendo, segundo VJS, pela marginalização do PCP - mas considerado por muitos como simpatizante deste partido, motivo do apoio do PSD ao General Soares Carneiro para as presidenciais em detrimento de Eanes a quem tinham apoiado anteriormente -, terá acabado por anuir à sua integração, eventualmente cedendo à tendência maioritária do Grupo dos nove.
 
…promulgada a nova constituição (elaborada num período em que a relação de forças ao nível do Poder pende claramente para o lado da esquerda, o que teria naturalmente reflexos no texto constitucional) passa a dar-se o contrário: o cumprimento da lei passa a ser uma reivindicação da esquerda (Vê-se o próprio deputado da UDP a exigir o cumprimento da lei…). …..Eanes, aparecendo como o homem (incorruptível) que faz cumprir a lei, torna-se naturalmente um aliado possível da esquerda (e em particular do PS, o partido mais responsável pela feitura da constituição)… (JAS)
   Talvez seja esta a razão de alguns atribuírem a Ramalho Eanes excessiva simpatia pela esquerda; PS e PCP. (AB)

….Para Eanes não existem classes com interesses distintos nem contradições no corpo social: existem, sim, a Nação, o País, a Salvação ou a Reconstrução Nacional.

    Por isso continua a ser respeitado pela generalidade dos portugueses e considerado o melhor Presidente da III República. A lealdade, a probidade e o espírito de missão são características irreconhecíveis no atual panorama político. O oportunismo, o nepotismo, a demagogia, a mentira descarada, fazem parte do dia-a-dia; uma espécie de novo tribalismo caracteriza o comportamento dos diretórios partidários, seus militantes e correligionários. O debate leal de ideias é a utopia das democracias. Estas transformaram-se numa caricatura de si próprias. Sem o “tempero” cultural adequado não há democracia. E esse “tempero”, para mim, são os valores cristãos, que, desde a Revolução francesa de 1789 têm vindo a ser substituídos, na Europa - em Portugal, a partir de 1934 -, pela doutrina maçónica. (AB)
Foto: Porto Novo

Peniche 10 de Dezembro de 2018
António J. R. Barreto

Aquecimento Global; a nova arma do socialismo


 
   Al Gore, baseado nos trabalhos de Michael Mann, Raymond Bradley e Malcom Hughes, realizados em 1999, na universidade de Columbia - de que resultou o famoso gráfico designado por hockey stick - assume tacitamente uma relação linear entre a concentração de CO2 e a temperatura global. Na verdade esta relação é logarítmica - com efeito marginal decrescente; o efeito térmico de um certo diferencial é menor que o efeito do mesmo diferencial que o precedeu. Por outro lado, as suas projeções da evolução da concentração de CO2 - 620 ppm em 2050 -, estão muito longe de virem a verificar-se. Desde 1977 que os teores de CO2 têm vindo a aumentar à razão de 1,5 ppm/ano; se a média dos últimos 30 anos se mantiver em 2050, a concentração de CO2 será de 446 ppm, tendo sido em 1987, de 348 ppm, muito longe do que preconiza Al Gore.  

   O hockey stick, de Mann, que serviu de base às recomendações do IPCC, foi elaborado com base num modelo matemático que Stephen McIntyre e Ross McKitrick, num trabalho publicado em 2003 na revista Energy and Environment, e, em 2005, na Geophysical Research Letters, demonstraram estar errado e ainda, que o ano mais quente do século XX terá sido o de 1934 e não o de 1978 como se pensava então. Gore, a partir de análises próxy aos 650 mil anos antecedentes da era pré-industrial - 1850 -, afirma que as concentrações de CO2 foram sempre inferiores às atuais - cerca de 380 ppm -, mas, segundo as análises próxy de Wagner at al - à densidade dos póros das folhas de bétula na Holanda -, estimou-se que, por exemplo, no período do Holoceno - período que decorreu desde o fim da última era glaciar há 11750 anos até 1800 -, durante séculos, as concentrações de CO2 ultrapassaram os 300 ppm, chegando a atingir os 348 ppm - idêntica à concentração medida em 1987. Noutros períodos mais recentes, ter-se-ão registado valores do mesmo tipo.

   Por outro lado, Gore, baseado no mesmo gráfico, procura induzir a ideia da relação de causalidade entre a concentração de CO2 e a temperatura global. Na realidade sucedeu o contrário; as variações de temperatura global precederam, de centenas de milhares de anos, as variações dos teores de CO2, segundo trabalhos de H. Fisher, M. Wahlen, J. Smith, D. Mastroianni e B. Deck; quando muito, as variações de CO2 tiveram um efeito amplificador nas variações térmicas em curso. O aumento do teor do CO2 na atmosfera deve-se ao aquecimento dos oceanos ao libertarem parte do CO2 dissolvido para a atmosfera - uma vez que a capacidade de absorção do CO2 diminuiu com o aumento de temperatura.  

   Em suma; o teor de CO2 tem aumentado à razão de 1 ppm/ano e tem um efeito marginal no aquecimento global - por exemplo; o aumento do teor de CO2 de 100 ppm provoca um efeito de aquecimento da ordem dos 2 W/m2 - um ganho de cerca de 0,2 %, já que a radiação solar média nas camadas superiores da atmosfera na normal aos raios solares é de, aproximadamente, 1000 W/m2 ; no passado pré-industrial - anterior a 1800 - verificaram-se teores de CO2 próximos dos atuais e temperaturas globais mais altas que as atuais. A evolução térmica média entre 1977 e 2006 foi de 0,17 ºC/década, sendo que, nos ultimos 20 anos, não se verificou variação assinalável - na verdade, ligeiro declínio, conforme medição por satélite iniciada em 1978.  

   O IPCC tem, ostensivamente, ignorado os trabalhos científicos contrários às teses de Mann e consta que terá proibido a análise de trabalhos publicados a partir de 2005. A minha convicção, fundamentada nas análises de; John Casey, Luis Carlos Molion, Rui Moura, Jorge Oliveira, Bjorn Lomborg, Marlo Lewis Jr, Stephen McIntyre, e outros, é que a teoria do Aquecimento Global é uma fraude, cuja finalidade é eminentemente política e multifacetada. Esgotadas as teses marxistas, os seus defensores, abraçaram a causa do ambiente como instrumento de combate ao capitalismo, em particular o americano. Por outro lado é uma nova forma de colonialismo na medida em que condiciona o desenvolvimento dos países pobres perpetuando a dependência destes relativamente os países tecnológicos, em especial, os do norte da Europa.  

   Finalmente, a consequente pressão para a redução de produção de recursos alimentares e outros bens - pescas, agricultura e indústria agroalimentar - tem como finalidade forçar pela fome a regressão demográfica, cuja prodigiosa expansão no século XX se deveu à Revolução Industrial e ao Capitalismo - ao proporcionar o aumento da produção alimentar em 8 vezes face ao aumento da população mundial em 6 vezes; de cerca de 1 bilião no início do século e para 6 biliões do final.  

   Por último, o Acordo de Paris preconiza, para os respetivos signatários, a tomada de medidas, com força de lei,  para a limitação do aumento térmico a 1,5 ºC em 2050. Este processo está em marcha em Portugal e está a dizimar a nossa produção agroalimentar que, nos próximos anos, ficará reduzida à marginalidade.  

Consultei; "A Ficção Científica de Al Gore" de Marlo Lewis Jr e "Calma" de Bjorn Lomborg.

Peniche, 9 de Dezembro de 2018
António J.R. Barreto