quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P6)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
  
  
Quer no trajeto de Galvão quer no de Delgado há uma vertente quixotesca resultante de um exacerbado conceito que ambos tinham de si próprios e que, frequentemente, vinha à tona. Ambos tinham uma tremenda sede de glória e poder e relativizavam a importância das vítimas. Ressalve-se que, no caso da Santa Maria, as ordens emanadas de Galvão e Velo, foram de que não houvesse vítimas. Apesar disso, Henrique Galvão esteve prestes a ser assassinado pelos seus pares espanhóis por, alegadamente, ter negligenciado o combinado ao negociar com o exterior sem os consultar previamente. Foi poupado para evitar a descredibilização pública da organização e a tipificação do sequestro como ato de pirataria tipificado pelo Direito Internacional Marítimo vigente.

   Avaliação de Galvão a Mortágua: “Camilo – Chefe do Grupo: Decisões e bravura pessoal. Manifestou sempre vontade inquebrantável quanto à realização da operação, sendo neste capítulo o mais regularmente firme. Sujeito a desânimos transitórios perante as dificuldades da preparação. Imaginação viva mas mal informada. Precipitado e pouco reflexivo. Não pode ainda ser-lhe confiada uma ação importante. Pouco previdente quanto às consequências das suas decisões, portanto, imprudente. Politicamente, em formação - Sentimental nos ideais.”

   Proclamação aos portugueses, de Miguel Urbano Rodrigues - jornalista que embarcara no paquete Santa Maria em alto mar, a partir de uma traineira -, “Os nossos lemas serão: a terra para os que nela trabalham e a casa para os que nela vivem. Liquidaremos o latifúndio como liquidaremos a especulação imobiliária”. Um lema que se mantém vivo e em marcha nos dias de hoje pela via reformista encetada pelos “herdeiros” políticos de Humberto Delgado.

   John Kennedy era o presidente americano em exercício. Pressionado para deter o navio português e prender os assaltantes, Kennedy, como “bom” democrata, através do Departamento de Defesa, do seu governo, acabaria por classificar o sequestro como um ato político em obediência a um governo no exílio, personificado pelo general Humberto Delgado. Uma viragem do posicionamento político dos EUA que acabaria com o suporte político da ONU ao governo de Salazar e desencadearia as lutas de guerrilha de “libertação” das colónias, legitimando-as.

      A prosápia quixotesca de Galvão - uma estatueta do cavaleiro da triste figura adornara a sua secretária em Lisboa - vem de novo à tona no telegrama que envia a Humberto Delgado pouco antes de o navio entrar em águas brasileiras: -“Ao entrar em águas do Brasil, com a primeira fase da missão que V.Ex.ª me confiou integralmente cumprida, todas as forças sob meu comando e eu saudamos em V.Exª, o único chefe de Estado português que reconhecemos e a suprema autoridade portuguesa do DRIL.” As forças sob comando de Galvão - a secção portuguesa do DRIL -, seriam, quando muito, uma dúzia de românticos meio falhados e mal treinados seduzidos pelo fascínio da aventura, como Rosa Soskin, a enésima amante do Capitão. Enfim, afinal compreende-se pela intenção de impressionar o mundo exterior.

   Logo depois, o mesmo Galvão, exibe a sua compulsiva fanfarronice ao insultar os tripulantes, que, na espectativa da proteção brasileira, se recusaram a tripular o navio sem o prévio compromisso pelo chefe rebelde, do seu desembarque.

   Henrique Galvão não era cobarde, demonstrou-o sobejamente, pelas denúncias públicas que fez do governo de Salazar e pelo seu rocambolesco trajeto pelas prisões, hospitais e embaixadas, até ao exílio na Argentina, Venezuela e Brasil. Ao ter declinado a ideia alternativa de sequestro dum navio de guerra com o pretexto da previsível reação da respetiva tripulação preferindo um navio de passageiros totalmente desarmado, contando com a proteção de tripulantes e passageiros enquanto escudos humanos, Henrique Galvão perdeu a autoridade moral de chamar cobardes àqueles.

   O sequestro do paquete Santa Maria, agravado com o assassínio traiçoeiro de dois tripulantes e agressões a tiro e à coronhada a tripulantes e passageiros desarmados, foi um ato de cobardia. Fanfarrão, o Capitão afirmou-lhes que, no lugar deles, teria reagido enfrentando os assaltantes. Uma parvoíce. Com cerca de 600 pessoas a bordo sem treino militar, sem armas, desconhecendo a quantidade e o posicionamento dos assaltantes, com suspeita de explosivos nos porões, reagir era a opção errada.

   A faceta exibicionista de Henrique Galvão, que sempre o acompanhou, esteve bem patente quando pediu ao artífice do navio para lhe fazer três divisas em latão - exageradamente largas -, com que se adornou, acrescentando-lhes quatro estrelas autopromovendo-se a “General”. Parece anedota!

   Ao anoitecer, chega numa traineira ao paquete Santa Maria, Humberto Delgado. Ao subir a bordo é vítima dum pequeno acidente com uma grua, cujo gancho o atinge, prendendo-se no seu cinto e suspendendo-o. Prestes a cair ao mar, ter-se-á agarrado à escada vociferando um palavrão, ameaçando um repórter a quem culpava, de destruição. Um jornalista português que assistiu à cena descreveu o episódio, à redação do seu jornal: -“Assim mesmo, um pouco pendurado e esperneando, voltou-se para trás exclamando para a sua secretária que o acompanhara na lancha e foi também a bordo: -“Se eu morrer, diga há minha mulher: “morreu como um herói…”.

   Também Humberto Delgado “sofria” desta malfadada doença do heroísmo, do desejo de eternidade - da qual padece grande parte dos homens que pretendem salvar o mundo. No fundo o medo da morte e a angústia da solidão estão na origem da busca de causas dos aspirantes a heróis. Uns são-no de facto, outros não passam de impostores. Não creio, porém, que tenham sido os casos de Galvão e Delgado.
Peniche, 7 de Fevereiro de 2019
António Barreto

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (notas, P5)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)  

Depois das muitas peripécias de preparação, nas quais Camilo Mortágua teve ação destacada - no recrutamento de operacionais e na obtenção de donativos e alimentos para o projeto -, e onde surgem personalidades como Miguel Urbano Rodrigues, Victor da Cunha Rego e Jaime Cortesão, após um período de treino na colónia de férias Los Caracas, inicia-se em La Guaira, a 20 de Janeiro de 1961, a operação Dulcineia, com a entrada a bordo do grosso dos operacionais e armas. Galvão e José Frias juntar-se-lhes-iam no dia seguinte na ilha holandesa de Curaçau. “Honra ou morte” foram as palavras de ordem de Humberto Delgado a Henrique Galvão.

   Quer Galvão, quer Delgado, praticaram ações de grande bravura, mas o sequestro do paquete Santa Maria não foi uma delas; dominar uma tripulação de um navio de passageiros desarmados, servindo-se destes como escudos perante a eventualidade de reações externas, não é grande feito.

   A operação saldou-se por um semifracasso; salvou-se o impacto mediático mas ficaram por consumar a tomada da ilha de Fernando pó e os ataques a São Tomé e Príncipe e a Luanda.

   O momento trágico do sequestro viveu-se ponte onde uma precipitação dos assaltantes desencadeou um tiroteio que atingiu o 3º Piloto de serviço, Nascimento Costa, que ficou no chão a esvair-se em sangue pedindo para acabarem de o matar. Já alvejado com um tiro, o 3º Piloto, tentara refugiar-se na Casa de Navegação resistindo a Jorge Sottomayor, altura em que voltou a ser alvejado e derrubado. Viria a falecer mais tarde na enfermaria, ele, que estivera para não embarcar para assistir, em Lisboa, ao nascimento do primeiro filho.

   O praticante de Piloto João Lopes foi a segunda vítima, atingido com um primeiro tiro num braço e dois nas costas quando tentava avisar o comandante Simões Maia.

   Também o médico Cícero Campos foi atingido com um tiro nas costas ao desobedecer às ordens dos assaltantes. Apesar disso, ao deparar-se com o macabro cenário na ponte, para onde o obrigaram a dirigir-se, convenceu-os a consentirem na transferência dos feridos para a enfermaria onde lhes foi prestada assistência médica pela equipa liderada pelo Dr. Teodomiro Borges1. Nascimento Costa, com uma bala alojada num pulmão, viria a falecer na manhã seguinte pelas 07h20’.

   Os comportamentos dos assaltantes - com Camilo Mortágua pateticamente armado até aos dentes, com pistola, metralhadora, granadas, bastão e faca de mato, quando a única arma a bordo era uma pistola de 6,35 mm…sem balas, e as bravatas serôdias de Henrique Galvão: “Estejam descansados e não se preocupem que ninguém lhes faz mal, eu sou o Capitão Galvão” e “Não se está a passar nada além do facto de eu ter tomado o seu navio”-, à parte as trágicas vítimas, mais se assemelhavam aos de atores de uma comédia burlesca do que aos de operacionais militarizados. Estes eram apenas 25. As mortes foram consequência da falta de treino e de sentido de missão.

Peniche, 05 de Fevereiro de 2019
António Barreto

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (Notas, P4)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)

   João José Nascimento Costa o 3º Piloto de serviço na ponte de comando do Santa Maria morto pelos assaltantes ao reagir ao ataque, tentando desarmar Jorge Sotto Mayor. João Lopes, Praticante de Piloto em serviço com Nascimento Costa foi o também alvejado, cobardemente, com três tiros nas costas, vindo a falecer na ilha de Santa Lucia onde foi desembarcado.


A PIDE teve conhecimento desta nova organização mas subavaliou o seu potencial. Várias bombas deflagraram em Espanha; na sede do Ayuntamiento de Madrid - por ocasião da visita do MNE português - e junto à sede da Falange espanhola - partido que apoiava o regime franquista -, onde morreu o bombista. Por deflagrar ficaram duas outras bombas; uma na sede da Ibéria e outra numa estátua junto ao museu do Prado. Foram detidos dois suspeitos pela polícia espanhola; um foi condenado a 30 anos de prisão, outro à morte por estrangulamento pelo garrote. Henrique Galvão, porta-voz para a Venezuela, fundamentou o uso de explosivos e prometeu ações idênticas em Portugal com salvaguarda de vidas inocentes e de interesses estrangeiros.

   Foi então que, numa iniciativa local de recrutamento, José Fernando Fernández Vasquez - o célebre Jorge Sotomayor -, ex-oficial da marinha, combatente antifranquista e antifascista, sobrevivente de Saint Ciprien e Auschwitz, aderiu ao DRIL, vindo a desempenhar papel de relevo no sequestro do Santa Maria e a ser um dos suspeitos da morte do piloto Nascimento Costa, este, segundo Galvão, “o único tripulante que merecia viver”.

   Pouco depois, o “bom coração” do operacional destacado pelos militantes do DRL na Bélgica para a operação Covadonga, poupou a vida a milhares de adeptos e ao próprio Franco - que assistiam, no Santiago Bernabéu à finalíssima da Taça entre o Real Madrid e o Atlético de Madrid, que este viria a ganhar -, ao desistir do atentado à bomba destinado a matar o ditador espanhol. A antevisão das vítimas inocentes tê-lo-á feito recuar, depositando a bomba, desativada, numa casa de banho do estádio.

   A mesma sorte não tiveram os cinco civis e a menina de ano e meio, Maria Begoña Urroz atingidos no atentado do dia seguinte, 27 de Junho de 1960, na estação de San Sebastán - aqueles feridos e esta atingida mortalmente -, a quarta de uma série de explosões que incluíram as estações de Madrid e Barcelona, uma semana após o encontro de Salazar e Franco em Mérida.

   Contrariamente à ativa divisão espanhola do DRIL à qual não faltavam operacionais determinados, Henrique Galvão, frustrado, não conseguiu arregimentar voluntários para a operação de rapto de Salazar em Lisboa que congeminara. Contudo, conseguiu ganhar a simpatia do futuro Presidente do Brasil, Jânio Quadros, então apenas candidato. E cria a fugaz rádio “Voz Portugal Livre” com emissor numa embarcação vagueando pelas caraíbas e audível em Lisboa.

   Finalmente, veio a operação Santa Maria. Sob a égide de Humberto Delgado, que mandata Henrique Galvão, secretário-geral do MNI, a constituir, com a DRIL, a Junta Nacional Independente de Libertação (JNIL) com a finalidade de realizar operações de libertação de Portugal em território pátrio ou equiparável; navio ou aeronave. O comando do lado espanhol ficou a cargo de Jorge Sotomayor e do lado português, de Henrique Galvão. Dulcineia foi o nome que Delgado deu à operação.
 
 
Peniche, 1 de Fevereiro de 2019
António Barreto

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (Notas, P3)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros) 
  
  
Em entrevista ao jornal brasileiro “O Semanário” concedida em 11/12/1958, Humberto Delgado refere as razões da sua mudança relativamente ao regime de Salazar que veementemente apoiara:

   Bem, agora é que as minhas divergências tomaram este vulto, no entanto, de há muito venho discordando das políticas do senhor Salazar. Fui dos que fizeram a revolução de Maio de 1926 - e fá-la-ia novamente hoje, tão justa foi - mas não foi para isto que aí está; o país arcado, sufocado e humilhado sob o peso duma ditadura sangrenta e feroz. A nação transformada num campo de concentração onde os nossos expoentes da cultura, intelectuais e líderes políticos progressistas e liberais são forçados a exilar-se ou se exilam voluntariamente. A mentalidade do povo está embotada e entre nós já escasseiam os valores. O Estado ditatorial tomou conta de tudo e, na vertical, de cima para baixo, dirige tudo e todos. A Revolução de 1926, absolutamente, não foi feita para isto. Dela, todos os princípios foram desvirtuados e estão por terra. Como isto acabará não sei. Afirmo, todavia, que acabará - e é por isso que estamos na luta.

   Começando por ser o aríete político de Henrique Galvão, consumado o ato eleitoral, Humberto Delgado, através do MNI, assumiu a liderança da oposição a Salazar. Irmanados na mesma causa, conjugando-se no caso do sequestro do paquete Santa Maria, haveriam de incompatibilizar-se mais tarde no exílio no Brasil, por divergências quanto à organização do movimento. 
   Foi em 1959, em Caracas, onde ocasionalmente se encontraram, que Humberto Delgado nomeou Henrique Galvão secretário-geral no estrangeiro do MNI e anunciou a união de forças com exilados espanhóis no combate às ditaduras ibéricas.
   Desiludido com a oposição de pantufas dos emigrantes lusos em Caracas, Henrique Galvão lá conheceu e arregimentou o célebre Camilo Mortágua. Aos 26 anos, este emigrante de Oliveira de Azeméis, ex-padeiro e ex-locutor de rádio, aderiu ao projeto de Galvão, que constituíra um corpo de intervenção com dissidentes da Junta opositora venezuelana. Foi Mortágua que lhe arranjou emprego numa imobiliária, tornando-se um dos seus mais fiéis correligionários, acompanhando-o na já lendária aventura do paquete Santa Maria.
   Em Janeiro de 1960, em nome do MNI, Galvão estabeleceu um acordo de cooperação com a União dos Combatentes Espanhóis (UCE) liderada por José Velo Mosquera - galego que estivera refugiado em Portugal em fuga ao regime franquista -, do qual resultou a constituição do histórico DRIL - Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação.
   Dedicado ao derrube das ditaduras ibéricas pela violência, o DRIL advogava a democracia, a independência da Galiza, País Basco e Catalunha e o estabelecimento de uma confederação de repúblicas ibéricas. Reforma agrária, nacionalização das grandes indústrias e a criação do Instituto da Reforma Urbana - para garantia do direito universal à habitação - constituíam as traves mestras dos seus princípios programáticos. Pepe Velo era o diretor geral e Henrique Galvão, o responsável pelas ações em Portugal.
 
Foto do Paquete Santa Maria (um dos "meus" navios)
 Peniche, 30 de Janeiro de 2019
António Barreto

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (Notas, P2)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
 
  
Nenhum dos antecedentes candidatos - Norton de Matos e Quintão Meireles - levou as respetivas candidaturas até ao fim, fosse por falta de coragem - como pensava Delgado -, fosse por falta de confiança no processo eleitoral recusando-se a legitimar eleições fraudulentas.

   Os relatos da campanha eleitoral dão conta da forte adesão popular à campanha de Delgado, mostrando haver na sociedade portuguesa de então forte disponibilidade para novas propostas políticas. Na época, as oposições eram constituídas pelo ex-Partido Republicano Democrático, pelas correntes liberais progressistas e socialistas, por alguns setores da igreja Católica - como o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes; Manuel Serra, oficial de máquinas da Marinha Mercante um dos líderes do assalto ao quartel de Beja em Janeiro de 1962 que já participara no Golpe da Sé em 1959; padre Perestrelo de Vasconcelos, ex-capelão da Marinha envolvido na mesma conspiração da Sé - e personalidades como; Vasco da Gama Fernandes, Jaime Cortesão, Mário Soares, Mário de Azevedo Gomes, Francisco da Cunha Leal, Mendes Cabeçadas, Ramon de La Féria, António Lomelino, Acácio Gouveia, Fernando Piteira Santos, capitão Almeida Santos - um dos líderes da Revolta da Sé, em Março de 1959 -, coronel Varela Gomes - outro líder do assalto ao Quartel de Beja -,Vasco Gonçalves­ e muitos outros.

   Apesar da grande recetividade popular à campanha de Delgado, que, ao que parece, decorreu sem restrições, a sua candidatura obteve apenas 25% dos votos. Convencido de fraude eleitoral - a oposição não participou na contagem dos votos -, Humberto Delgado considerou-se legítimo vencedor. Já Américo Thomaz, cuja campanha teve, também, grande recetividade popular, considerou - nas suas “Últimas décadas da República” -, tais declarações como as habituais desculpas dos derrotados.

      Entre o fascínio do sucesso popular e a compulsão da revolta, Humberto Delgado recusou o convite do Governo para integrar uma ação formação em ciências económicas em curso no Canadá. Temendo pela vida - agentes da PIDE pareciam controlar-lhe os movimentos - apresentou-se na embaixada do Brasil onde pediu asilo político. Após prolongadas peripécias de cariz político-diplomático, este, é-lhe concedido, graças à intervenção de Álvaro Lins, intelectual de prestígio e embaixador do Brasil em Lisboa.

   Determinado a prosseguir a luta, Delgado fundou, em 18/06/1958 com os delegados distritais e nacionais da sua candidatura, o MNI - Movimento Nacional Independente - e, já no Brasil, o jornal “Portugal Livre”, “porta-voz do movimento.

   Inviabilizada a intervenção democrática Delgado sentiu-se legitimado a recorrer à luta armada, declarando-o sem restrições onde quer que o recebessem, no frenético périplo que desencadeou pela Europa, Norte de África, América do Sul, Europa de Leste e Rússia. Esta atitude haveria de conduzi-lo à morte, como preconizou Henrique Galvão.  
Peniche, 28 de Janeiro de 2019
António JR Barreto

domingo, 27 de janeiro de 2019

Humberto Delgado, O Mártir Socialista (Notas P1)


Humberto Delgado, O Mártir Socialista

(Considerações com base nos livros; O Inimigo Nº 1 de Salazar de Paulo Jorge Castro; Acuso!, de Henrique Cerqueira; A Tirania Portuguesa, de Iva Delgado e outros)
 

  
Humberto Delgado opunha-se a qualquer tipo de tirania. Nunca aderiu ao comunismo; não queria substituir a ditadura de salazar pela comunista, apesar de ter sido bem tratado na Checoslováquia - onde foi submetido a duas intervenções cirúrgicas a uma hérnia, por influência de Álvaro Cunhal - e na União Soviética - que visitou a convite dos comunistas russos. Admirava a qualidade de vida de ambos. Defendia o Socialismo Democrático mas nunca o definiu. O Partido Socialista é o herdeiro político de Humberto Delgado. Compreende-se a atribuição do seu nome ao aeroporto da Portela pelo executivo socialista da Câmara Municipal de Lisboa.

   Foi em Outubro de 1957 que Henrique Galvão desafiou Humberto Delgado a candidatar-se, no ano seguinte, à Presidência da República, como parte da sua estratégia para derrubar Salazar. Galvão, que chegou a ser um dos correligionários diletos de Salazar, não lhe perdoou o apoio a Duarte Pacheco com quem rivalizara por ocasião da grande exposição da portugalidade que foi o Mundo Português - cujas reminiscências ainda hoje se podem ver lá para os lados da Torre de Belém.

   Indignado com a miséria que viu em África - decorrente da corrupção e do da servidão abjeta a que os negros eram sujeitos -, denunciou os abusos a Salazar e Marcelo Caetano, e, na Assembleia Nacional, confrontou os deputados com as brutalidades da política colonial. Perplexo com a passividade salazarista, íntegro e corajoso, logo decidiu derrubar o regime, pela insurreição armada, conspirando na estruturação dum projeto de ação.

   Foi descoberto e preso pela PIDE, sucedendo-se uma série de peripécias dignas dos melhores filmes de ação, cujos pontos altos foram a fuga do Hospital de Santa Maria, a entrada na embaixada da Argentina, onde esteve asilado, e o sequestro do paquete Santa Maria.

   Galvão associou-se à organização do galego Pepe Vela - DRIL, Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação - com o propósito de derrubar as ditaduras ibéricas pela via armada e substitui-las por regimes democráticos. Já depois do termo da aventura do paquete Santa Maria, com o apoio dos emigrantes portugueses do Brasil, chegou a implementar e dirigir um campo de treino de operacionais em Campinas com a finalidade de derrubar, pela força, o regime de Salazar.  

   Humberto Delgado, embaixador militar na Nato, idólatra de Salazar e defensor incondicional do Estado Novo, era também grande admirador de Henrique Galvão visitando-o com frequência, nas prisões da ditadura. Nasceu entre ambos uma empatia e admiração que culminaria na candidatura de Delgado à Presidência da República, em 1958. Haveriam de odiar-se irredutivelmente mais tarde num inevitável choque de egos.
Peniche, 27 de Janeiro de 2019
António JR Barreto
 

domingo, 30 de dezembro de 2018

Ascensão de Salazar (Os Anos de Salazar, Volume 1, notas 1)


Do Acto Colonial:

   …Criava-se o estatuto de direitos e deveres dos “indígenas”, que incluía a proibição do “trabalho obrigatório”, e eram reconhecidos direitos às missões católicas portuguesas.

Do Estado:

   …Deve o Estado ser tão forte que não precise de ser violento….O regime será autoritário e presidencial.

   A fonte de soberania não é o “cidadão”, mas a “célula social irredutível” que é a família, “núcleo originário da freguesia, do município”. Seguem-se as corporações, que representam “interesses legítimos a integrar nos da coletividade”.

   Rejeita-se a democracia, que foi operando o “nivelamento em baixo, contra o facto das desigualdades naturais, contra a legítima e necessária hierarquia dos valores numa sociedade bem ordenada”.

Da influência religiosa de Salazar:

   Na encíclica Diuturnum do Papa Leão XIII, refutava-se a ideia de que a legitimidade do poder civil e político proviesse do povo. Rejeitava-se o Contrato Social de Rousseau e afirmava-se a necessidade de um chefe para cada grupo de homens.

   A encíclica Libertas declara que a liberdade de expressão e de imprensa não constituem um direito.

   Já a encíclica Sapientiae Christianae defendia o amor extremoso dos cristãos à terra que os viu nascer e crescer, prontos a defendê-la, e o dever de militância política, “disciplinados” ao papa e aos bispos. ..A igreja não segue partidos políticos, mas aprova qualquer sistema de governo, desde que respeite a religião e a moral cristã.

   Na  Rerum Novarum  a igreja insurgiu-se contra o socialismo e o comunismo, contra a luta de classes e do recurso à greve, defendendo a reconciliação entre patrões e empregados nas corporações servindo e Estado de moderador.

   A Inimica Vis condena expressamente a maçonaria.

   A Graves de Communi estabelece os princípios da Democracia cristã, consistindo no reconhecimento do direito de propriedade, na independência das formas de governo, alheamento dos partidos, conciliação entre as classes sociais como uma só família, obediência às ordens justas das autoridades condicionada à conformação destas às leis de Deus. Incentivava-se à beneficência, à previdência, e acção social que levasse a democracia cristã até ao povo.

   No Centro Académico da Democracia Cristã confraternizou com vários católicos notáveis, Mendes dos Remédios, Marnoco e Sousa, Sobral Cid e o jovem minhoto Manuel Gonçalves Cerejeira.

Da influência pagã:

   Charles Maurras, reacionário, na sua Action Francaise defendia o catolicismo enquanto instrumento político - independentemente da Fé - a monarquia antiliberal, a censura e a prevalência do Estado sobre todos os outros interesses.

   Salazar conclui o curso geral do liceu, primeira secção, em 1909, com 19 valores. Em 1914, aos 25 anos, o Conselho da Faculdade de Direito atribui-lhe a classificação final de 19 valores. Em 1916 candidata-se à docência na Universidade de Coimbra na área de Ciências económicas com um estudo intitulado “A Questão Cerealífera. O Trigo”. Em 1917 candidata-se a assistente na Faculdade de Direito e conclui uma dissertação com o título “O Ágio do Ouro, sua natureza e suas causas (1891-1915)” em que analisa a balança de pagamentos e as oscilações cambiais em Portugal, no período indicado.

   Em 1912, Salazar tem uma curiosa intervenção na sua primeira palestra em público na qual, citando Alexandre Herculano, defende a liberdade de pensamento e expressão, a importância da moral e da educação na questão social, o envolvimento útil dos cristãos na sociedade, critica o regime acusando-o de antidemocrático por ser anti-cristão, rematando com uma citação de Afonso Pena onde exprime o seu sentido da vida em “Deus, Pátria, Liberdade, Família”.

   Em 1921, contra sua vontade, Salazar, escolhido pelo Centro Católico Português, é eleito deputado por Guimarães, despedindo-se, logo na primeira sessão, de José Maria Braga da Cruz.

   Nas vésperas do 28 de Maio, em 1925, sucedem mais duas tentativas de golpe militar; uma liderada pelo general Sinel de Cordes, a seguinte, pelo comandante Mendes Cabeçadas.

   Então temos um Salazar ”marrão”; trabalhador, disciplinado, católico, corajoso e ambicioso, que, grato pelo apoio eclesiástico, confundiu catolicismo com cristianismo e declinou o seu conceito de liberdade para um confortável autoritarismo anticristão, subjugado à obsessão da ordem  e disciplina; uma espécie de efeito simétrico face à insanidade da entropia republicana que se vivia na época.

Créditos a António Simões do Paço

Peniche, 29 de Dezembro de 2018

António J. R. Barreto