segunda-feira, 3 de julho de 2017

Os evangelhos Apócrifos (VI) (France Quéré, editorial Estampa)


   cont.
O Crucificado

   Espantou-se o Centurião, glorificando-o e considerando-o justo, retiraram as multidões batendo no peito, afligiram-se Pilatos e a sua mulher, indiferentes manifestaram-se os Judeus perante aquele, amigos de Jesus e mulheres que o tinham acompanhado mantiveram-se à distância, e foi José de Arimateia, membro do Concelho, com Fé no Reino de Deus, que, inesperadamente, tendo pedido a Pilatos o corpo de Jesus, o desceu da cruz e, enrolando-o num lençol branco, o depositou num túmulo novo, que preparara para si próprio e se chamava “O Jardim de José”. E foi este José, o José de Arimateia, que, além de Nicodemo, este moderadamente, enfrentou e recriminou os Judeus quando estes os procuravam bem como aos apóstolos e a todos os que tinham ajudado Jesus diante de Pilatos, agora escondidos, para os confrontar: - Fica a saber que apenas a hora nos impede de te castigar, pois o sábado começa. Mas, sabe-o também, tu nem sequer uma sepultura mereces. Deitaremos a tua carne aos pássaros do céu. Disseram-lhe os Judeus. Retorquiu José: Vós falais com a arrogância de Golias, que insultou o Deus vivo e o santo David….Na verdade, receio que a cólera (divina) já se abata sobre vós e sobre os vossos filhos, como dissestes. Tal ousadia custou-lhe a prisão e a sentença de morte pelos mesmos que tinham exigido a crucificação de Jesus.

Deposição de Cristo, Paolo Varonese

(É curioso como, quer os Apóstolos, quer outros partidários de Jesus, se mantiveram, discretamente, à distância, após a condenação daquele, sem um único gesto de revolta! Terá sido por medo? Por debilidade da crença? Ou antes resignação perante o conhecimento da inevitabilidade das provações Divinas, transmitidas, metaforicamente, por Jesus, na Última Ceia? E porque ficou José de Arimateia, o único que defendeu Cristo abertamente, com risco da própria vida, na obscuridade da doutrina católica?)

   Ora sucedeu que, quando os sumos sacerdotes, mandaram buscar José para assistir à deliberação sobre o tipo de morte que lhe aplicariam, verificaram que tinha desaparecido, apesar da porta permanecer selada com a chave na posse de Caifás! O povo, estupefacto e aterrado, finalmente, deixou em paz os que, perante Pilatos tinham defendido Jesus.

   Ainda, os sumos sacerdotes, digeriam estes acontecimentos procurando uma forma de controlar os danos, quando os soldados que guardavam o túmulo de Jesus - para impedir os discípulos deste levarem o seu corpo -, os informaram das coisas extraordinárias que tinham presenciado, e os deixara semimortos, em que, pela meia-noite, um anjo resplandecente, vindo do céu, rolou a pedra do túmulo e, sentando-se sobre ela, anunciou às mulheres, cuja identidade desconheciam e que iam cuidar e velar o corpo de Jesus, que este tinha ressuscitado e estava na Galileia, pedindo-lhes para avisarem os seus Discípulos.
Ressurreição

   Incrédulos e temerosos, os sumos sacerdotes, subornaram os guardas para divulgarem que tinham sido os discípulos de Jesus a levar o seu corpo enquanto dormiam, sossegando-os, caso o assunto chegasse aos ouvidos do Governador, pois eles se encarregariam de os proteger.

   O caso é que, entre os sacerdotes e Levitas, Adas e Ageu, mais um doutor, vindos da Galileia, relataram aos chefes da sinagoga ter visto Jesus, na montanha Milkom, falar aos seus Discípulos, instruindo-os para difundirem a sua doutrina pelo mundo inteiro, batizarem os convertidos e fazendo-lhes milagres, conferir-lhes imunidade a venenos e capacidade de agarrar serpentes, sendo elevado aos céus, falando-lhes ainda.
Jesus na montanha Milkon

   Contrariados, os sacerdotes reagiram com aspereza, fazendo-os jurar silêncio, subornando-os, dando-lhes de comer e beber e reenviando-os para a Galileia acompanhados de três dos seus sequazes. Desconcertados com tais relatos, sacerdotes, chefes da sinagoga e anciãos, não descortinando explicações para os mesmos, limitaram-se a balbuciar que não se deviam fiar em incircuncidados. Foi então que Nicodemos sublinhou a genuinidade do povo do Senhor, que, sob juramento, tinha testemunhado os mesmos acontecimentos, lembrando-lhes os ensinamentos das Sagradas Escrituras acerca da elevação aos céus de Elias. Sugeriu então que mandassem procurar Jesus por todo o território de Israel, para o caso de ter sido levado por um espírito, para uma das montanhas. Sem sucesso. Encontraram José de Arimateia, mas não ousaram prendê-lo.

   Os sacerdotes e companhia, felizes por terem notícias de José e desejosos de saberem o que se tinha passado com ele, mandaram emissários entregar-lhe uma mensagem onde lhe pediam para regressar à sua família, retratando-se, tratando-o por pai José e confessando-se transidos por não o terem encontrado na sala onde o tinham prendido. José mostrou-se feliz com o teor da mensagem, sentindo-se, finalmente, livre de perigo.  Hospedou-os, rezou com eles pela manhã e regressou a Jerusalém montado numa jumenta, tendo sido recebido pelo povo com grandes manifestações de alegria. - A paz esteja contigo. Benvindo sejas. E ele respondia: A Paz esteja convosco! Recebeu-o Nicodemo que, radiante, ofereceu um festim em sua casa, em sua honra para a qual convidou Anás, Caifás, os Anciãos, os sacerdotes e os levitas, que decorreu num ambiente de festa.
Maria Madalena

   No dia seguinte, sacerdotes, entre os quais Anás e Caifás, chefes da sinagoga e levitas, regressaram a casa de Nicodemo, onde José ficara hospedado, pedindo-lhe, invocando as escrituras, que lhes contasse o que se tinha passado aquando do seu desaparecimento. José então explicou que, pela meia-noite de sábado, quando se encontrava a rezar - tinha sido trancado na décima hora de 6ª feira -, a casa onde estava entrou em grande convulsão, tendo ficado quase cego com uma espécie de clarão, caindo por terra apavorado. Então, alguém lhe pegou na mão, levantando-o, momento em que sentiu água fresca correr sobre si da cabeça aos pés, enquanto emanações de mirra lhe chegavam às narinas. Limpando-lhe a cara e abraçando-o, o inesperado visitante disse-lhe: - Não tenhas medo, José. Abre os teus olhos e vê quem é aquele que te fala. Levantando o olhar, José viu Jesus, ficando ainda mais aterrado pensando tratar-se dum fantasma pondo-se a recitar os mandamentos, no que foi acompanhado pelo “fantasma”.  Ora como os fantasmas fugiam ao ouvir recitar os mandamentos, José pensou tratar-se de Elias, o Rabi. – Eu não sou Elias. – Quem és tu, Senhor? – Eu sou Jesus. Disse-lhe o que parecera um fantasma, contando-lhe o que lhe tinha acontecido após a crucificação. José, ainda inseguro, pediu-lhe para lhe mostrar o lugar onde o colocara. E mostrou; ainda lá se encontravam o lençol e o sudário. E José teve a certeza de que estava na presença de Jesus, que, com todas as portas fechadas o levou para sua casa, para junto da sua cama, dizendo-lhe: - A Paz esteja contigo! Abraçando-o, Jesus disse-lhe para permanecer em casa quarenta dias e que ia juntar-se aos seus irmãos da Galileia.
José de Arimateia
   Perante o relato de José, os sacerdotes e companhia, desfaleceram e abstiveram-se de comer até à nona hora. Foi então que Nicodemo os interpelou, incitando-os a ganhar coragem com a proximidade do dia do Senhor, o sábado, o que os fez levantar e comer e beber depois de terem louvado a Deus, regressando, finalmente, cada um para sua casa.

   No dia seguinte, sábado, doutores, sacerdotes e levitas, sentindo o odioso que se tinha abatido sobre eles, reuniram-se para tentar perceber as causas, tendo sido informados por Levi, um doutor da lei, cujo mestre fora Simeão, o chefe da sinagoga, que conhecera os pais de Jesus; que estes, eram tementes a Deus, praticavam a oração, pagavam o dízimo três vezes por ano e ofereciam sacrifícios e holocaustos ao Senhor.  Simeão, disse Levi, tomando Jesus nos seus braços, declarou-se ao Mestre pronto a partir, pois reconhecera naquele menino a salvação de todos os povos e a glória do povo de Israel. Simeão abençoou Jesus e seus pais, anunciando a boa nova a Maria: - Esta criança veio para a queda e a ressurreição de muitos em Israel, e para ser um sinal de contradição. E tu próprio, uma espada te trespassará a alma, a fim de que muitos a corações sejam revelados os pensamentos.
Simeão, Jesus, Maria e José
   Sempre renitentes, mas insistindo na compreensão da verdade, os sacerdotes mandaram chamar o pai de Levi para se pronunciar quanto ao testemunho do seu filho, que ambos confirmaram. Decidiram então voltar a ouvir o testemunho aos rabi Abas, Fines e Ageu, enviando emissários à Galileia, que os encontraram e trouxeram a Jerusalém, à presença dos sacerdotes, a quem confirmaram, separadamente, o que anteriormente lhes tinham contado do que tinham visto na montanha Milkon; Jesus sentado ensinando os discípulos  tendo sido cobertos por uma nuvem que O levou para o céu, com estes prostrados de fronte contra a terra. Perante a coincidência dos três testemunhos, os sacerdotes, consideraram-nos verdadeiros  invocando a Lei de Moisés que estabelecia como suficientes para considerar verdadeira uma causa, dois ou três testemunhos coincidentes.

   Sacerdotes e levitas disseram entre si que, se a memória de Jesus durasse até Sommos - Jobel - o seu reino seria eterno e se levantaria um povo novo. De seguida, exortaram todo o Israel amaldiçoando  o que adorasse obras feitas pela mão do homem ou a criatura em vez do Criador, tendo respondido todo o povo: - Amen! Ámen! E cantaram hinos ao Senhor dizendo:

- Bendito seja o Senhor que deu o repouso ao Povo de Israel, como o tinha prometido. Não se perdeu uma única palavra de todas aquelas que ele tinha dito a Moisés, seu servo. Que o Deus Nosso Senhor esteja connosco como estava com os nossos pais. Que ele não nos conduza à nossa perda a fim de que possamos converter-lhe o nosso coração e caminhar em todos os seus caminhos, guardar os seus mandamentos e os julgamentos que ele legou aos nossos pais. E o Senhor reinará em toda a Terra nesses dias. E ele será o único Senhor e o único nome, o Senhor nosso rei! Ele mesmo nos salvará. Não há ninguém que se te assemelhe, Senhor, tu és grande, Senhor, e nós seremos curados! Salva-nos, Senhor, e nós seremos salvos! Pois somos a tua parte e a tua herança. E o Senhor não abandonará o seu povo, por causa do seu nome magnífico. Pois o Senhor começou por fazer de nós o seu povo. E voltaram a suas casas louvando a Deus, cuja glória permanece pelos séculos dos séculos, ámen!
Moisés

(Ora então que podemos concluir daqui, que os sacerdotes, levitas, anciãos, chefes da sinagoga e doutores, interpretavam e faziam cumprir as escrituras ao povo de Israel; que tomavam as suas decisões em assembleia após aturado debate, respeitando os preceitos religiosos; que tributavam a população com a aplicação do dízimo três vezes por ano e através de sacrifícios ou holocaustos; que ficaram aterrados com o abalo que a doutrina de Jesus iria provocar na ordem pública; que recorreram ao Governador romano porque podia condenar Jesus à morte por ofensa ao Imperador, enquanto as suas próprias leis não a prescreviam a quem ofendesse a Deus, e eles queriam matá-lo; que ficaram assustados e em dúvida quanto à verdadeira identidade de Jesus; que, incluindo Anás e Caifás, procuraram esclarecer essa dúvida com os meios de que dispunham e de acordo com as regras em uso; que, em face da coincidência de vários testemunhos, aceitaram Jesus como filho do Senhor e que tinha ressuscitado; que se arrependeram do sofrimento que lhe tinham causado e a José de Arimateia; que, seguindo a lei de Moisés aboliam a adoração de imagens feitas pelo homem bem como a pessoas além de Deus - os santos -; que José de Arimateia regressou a Jerusalém num ambiente semelhante ao que acontecera com Jesus Cristo; montado numa jumenta e glorificado pelo povo; que ficam por explicar as omissões da igreja Católica, aqui bem patentes).
(continua)

domingo, 2 de julho de 2017

Os evangelhos Apócrifos (V) (France Quéré, editorial Estampa)


Os Actos de Pilatos
   Pôncio Pilatos
   Mais tarde também chamados Evangelho de Nicodemo, são compostos de duas partes e terão sido escritos no século IV, como réplica a falsos escritos que o imperador Maximino Daia (311-312) tinha mandado elaborar e imposto nas escolas para vilipendiar Jesus Cristo. Com transcrições em várias línguas, apresenta Pilatos como principal testemunha da inocência, da excelência e da divindade de Jesus. Relata a conversão de Nicodemo e José de Arimateia e na segunda parte, pela pena dos filhos gémeos de Simeão, relata o caráter apocalítico da descida de Jesus aos infernos.
Memórias de nosso Senhor Jesus Cristo regidas sob Pôncio Pilatos
Prólogo
   Ananias, soldado da guarda real de ordem pretoriana e jurisconsulto anuncia-se o autor desta obra, traduzindo do hebraico para grego os escritos judaicos do tempo de Pôncio Pilatos, tendo-se convertido ao tomar conhecimento do Senhor Jesus Cristo pelas Sagradas escrituras, e recebido a honra do santo batismo. Tal sucedeu no ano 17 do imperador Flávio Teodósio e no ano 5 do reinado de Flávio Valentino.
   Vós, que lereis esta obra e dela fareis cópias, não esqueçais e rezai para que Deus tenha compaixão de mim e perdoe os pecados que cometi diante dele.
Paz àqueles que leem, àqueles que ouvem e às suas famílias, ámen.
Primeira parte
Caifás
Os sumos sacerdotes e os escribas apresentaram-se a Pilatos acusando Jesus, filho de José, o carpinteiro e de Maria, de se afirmar filho de Deus e rei e de ameaçar a lei do país violando o sábado ao curar, por meio de duvidosas manipulações, coxos, corcundas, pessoas com as mãos ressequidas, cegos, impotentes, surdos e endemoninhados, atribuindo tais façanhas a ligações a Belzebu, seu chefe, a quem todos obedeciam. Replicou Pilatos estar vedado aos espíritos impuros a expulsão de demónios.
   Pilatos chamou o mensageiro e disse-lhe: “Traz-me Jesus, mas trata-o respeitosamente.” O mensageiro saiu, e quando avistou Jesus prostrou-se diante dele. Depois, pegou na peça de tecido que segurava no seu braço, estendeu-a no chão, e disse: “Senhor, caminha sobre isso e entra, pois o governador chama-te,”
Tal enfureceu os sacerdotes que recomendaram o recurso a um simples arauto, que teria atuado sem deferências. Interrogado por Pilatos acerca de tal comportamento, o mensageiro disse ter visto em Jerusalém, para onde o enviara à procura de Alexandre, aquele homem, Jesus, sentado num pequeno jumento, sendo aclamado pelos filhos dos hebreus que seguravam ramos e estendiam as suas vestes no chão, dizendo: “Salva-nos, tu que estás nas alturas! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!”
Um episódio com as águias dos porta-estandartes, salvou-os da morte por se ter revelado autêntica a adoração daquelas a Jesus, ao debruçarem-se sobre ele por duas vezes, atemorizando, por sua vez, Pilatos, cuja mulher, de seguida, o advertiu do sonho que tivera acerca da inocência de Jesus. Tal não demoveu os judeus, de o continuaram a invectivar provocando a perplexidade de Pilatos, que perguntou a Jesus a razão do seu silêncio, tendo este respondido: “…cada um tem o poder da sua boca, é livre de dizer o bem e o mal. Eles que vejam!”
(Ora aqui está patenteada a questão do livre-arbítrio, como prerrogativa divina do Homem.)
Determinados, os sacerdotes, liderados por Anás e Caifás, acusaram Jesus de nascimento ilegítimo, negado pelos doze apóstolos, aceite, então, por aqueles, apesar de, estes, se terem negado ao juramento por ser pecaminoso. Gorada a acusação de ilegitimidade de Jesus, foi então acusado de desregramento por feitiçaria e por ter-se “gabado” de ser filho de Deus. Interrogados por Pilatos acerca desta determinação dos eclesiastas, os Apóstolos atribuíram-na às curas aos sábados, levando Pilatos, perplexo, a atribuir à caridade de Jesus, a determinação persecutória dos sacerdotes.
Indignado, Pilatos saiu do pretório e disse-lhes: “O sol é minha testemunha, não encontro nada de que se possa acusar este homem.”
Reafirmando Jesus como criminoso, os sumos-sacerdotes, desafiados por Pilatos a julga-lo segundo as leis locais, recusaram-se a fazê-lo por lhes estar vedada a pena de morte.
(Interessante a dimensão do ódio e, ou, medo, dos eclesiastas a Jesus; a sua lei proibia a sentença de morte, revelando óbvias e surpreendentes preocupações humanitárias, mas, no caso de Jesus, abdicavam da prerrogativa do seu julgamento, para lhe infligirem a pena de morte sem pecarem!)
Perplexo e contrariado, Pilatos voltou a Jesus perguntando-lhe se era o rei dos Judeus e que tinha feito para o quererem condenar com tal veemência, respondendo este, não ser deste mundo o seu reino, evidenciando a ausência de exércitos para impedirem a sua entrega aos judeus.
“- …Tu o dizes. Eu sou rei. Eu não nasci e não vim ao mundo senão  para fazer ouvir a minha voz a todos os que são da verdade.”
- O que é a verdade?- Perguntou-lhe Pilatos.
- A verdade é do céu, respondeu Jesus. Pilatos retomou: - “E sobre a terra não há verdade?” Jesus disse a Pilatos: - “Tu vês como os senhores do poder sobre a terra julgam aqueles que dizem a verdade!”
   (Está aqui bem patente, esta incapacidade persistente, de reconhecimento da verdade quando inconveniente aos poderes do momento.)
O julgamento de Jesus
   Perante e renitência de Pilatos os Judeus acusaram-no, então, de ter declarado que podia demolir e reconstruir o Templo de Salomão - que levara 46 anos a construir - em três dias, sem que tal o demovesse. Que blasfemara contra Deus e por isso merecia a pena de morte, correntemente aplicada a quem blasfemava contra César.
   - Que farei eu de ti? Perguntou o Governador. - Faz conforme o que recebeste. Respondeu Jesus. - E que recebi eu? - Moisés e os profetas anunciaram a minha morte e a minha ressurreição.
   Que o levassem para o julgarem conforma a sua lei, disse Pilatos; que não, porque a sua lei só prescrevia a lapidação para quem ofendesse a Deus e eles queriam crucifica-lo, respondiam os Judeus; mas afinal, nem todos querem a morte de Jesus, disse Pilatos ao ver alguns deles em lágrimas; mas, sim, queremos, viemos todos em conjunto pedi-lo por se ter afirmado filho de Deus e rei. Intercedeu Nicodemos pela libertação de Jesus, imerecedor da morte e que, tal como sucedeu a Jamnés e Jambrés, servos do Faraó, acabaria por perecer se os seus prodígios não tivessem origem divina. - Mas tu és seu discípulo, por isso tomaste o seu partido, responderam os Judeus estremecendo e arreganhando-lhe os dentes, instigando-o a tomar a verdade de Jesus e partilhar da mesma sorte.
   Um Judeu testemunhou perante todos como Jesus se comovera com a sua doença, que o mantivera tolhido de dor e acamado durante trinta e oito anos, e o curara, tal como a muitos endemoninhados e outras vítimas de maleitas diversas. Que tinha sido ao sábado, disseram os Judeus a Pilatos. Outro saltou e disse que, sendo cego de nascença, recuperara a vista quando Jesus pousou a mão na sua cabeça, após ter gritado com toda a força; - Tem piedade de mim filho de David. Um ex-corcunda, um ex-leproso, uma mulher que sofrera de hemorragias doze anos, todos afirmaram ter sido curados por Jesus. Que os testemunhos de mulher não contavam, disseram os Judeus. (Curiosa, esta desvalorização da mulher consagrada nas escrituras antes de Cristo). Que era um profeta, que submetia os demónios, que tinha reerguido Lázaro morto há quatro dias, que não sabiam porque os seus doutores em leis não lhe obedeciam, dizia a multidão, fazendo estremecer Pilatos, que lhes perguntou: - Porque quereis vós derramar sangue inocente? Pediu conselho a Nicodemos e aos 12 (11) homens (Apóstolos) que tinham testemunhado a legitimidade do nascimento de Jesus, que o remeteram para o veredito popular. Inquiriu o povo Judeu lembrando-lhes a tradição de libertação de um prisioneiro, pelos Ázimos, intercedendo, implicitamente, por Jesus. - Barrabás! Bramiram eles. - Que farei eu então de Jesus, aquele a quem chamam Cristo? - Crucifica-o! Não és amigo de César se o soltares. Ele diz-se filho de Deus e rei. É então aquele rei que tu queres e não César?
Nicodemo

   - Povo sempre rebelde, vós insurgis-vos até mesmo contra os vossos benfeitores! Disse-lhes Pilatos, evidenciando a falta de autoridade moral para o criticarem pela ingratidão que tinham demonstrado a Deus, que os tinha salvo em todas as provações por que passaram desde a saída do Egito até à adoração do bezerro fundido. - Nós reconhecemos como rei, César e não Jesus! Ora os magos trouxeram-lhe presentes do Oriente, como a um soberano. Mais disseram que este Jesus era quem Herodes queria matar quando ordenou o massacre das crianças e que José salvara ao fugir para o Egito. - Sim, É este! Responderam enquanto Pilatos lavava as mãos em água, frente ao sol dizendo: - Eu estou puro do sangue deste justo! Cabe a vós decidir! - Que o seu sangue recaia sobre nós e os nossos filhos!  Bramaram os Judeus.
(Grande era o ódio e, ou, medo dos sumos sacerdotes, de Jesus que os impelia a abdicarem de aplicar a sua própria lei, por não permitir a condenação à pena de morte, razão do recurso à lei romana. De facto, o discurso de Jesus ameaçava desmantelar a estrutura eclesiástica vigente, na qual tinham papel de destaque.)
   Pilatos, deu-se, então, por vencido, informando Jesus da sentença que lhe destinara; flagelação, segundo os costumes dos piedosos imperadores, seguida de crucificação no jardim onde tinha sido preso (o Jardim das Oliveiras), em simultâneo com a crucificação dos malfeitores Dimas e Gestas.
   Despojado de suas vestes, cingido de linho e ostentando a coroa de espinhos que lhe fora imposta, Jesus foi crucificado e disse: - Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Os soldados dividiram as suas roupas entre si, deram-lhe vinho azedo misturado com fel e, tal como os sumos sacerdotes, escarneceram dele desafiando-o a salvar-se, uma vez que, como dizia o letreiro. encimando a cruz, em grego romano e hebraico, era rei dos Judeus. Gestas,  (o mau ladrão) desafiou-o a salvar-se,  e a eles, se é que era Cristo, sendo de imediato repreendido por Dimas; que temesse a Deus, e recordou-lhe a justiça da sua condenação face à injustiça da condenação de Jesus, que nenhum mal fizera. - Senhor, lembra-te de mim no teu reino. Disse Dimas. - Em verdade, em verdade te digo, de hoje em diante tu estarás comigo no paraíso. Respondeu-lhe Jesus.
Soldados dividindo as vestes de Jesus

   Vieram as trevas, entre a sexta e a nona horas, por eclipse do sol, rasgando-se ao meio o véu do templo, exclamando Jesus com voz forte: - Pai, Baddoch efkid ruel (Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito). E expirou!
(Diego Velasquez, 1632)
(continua)

domingo, 25 de junho de 2017

Os evangelhos Apócrifos (IV) (France Quéré, editorial Estampa)


Evangelhos da Paixão

Evangelho de Pedro

Deposição de Cristo, 1525, Correggio)

   Texto descoberto no Alto Egipto em Akemim em 1886, no túmulo de um monge, de origem síria e datado do ano 130. É o mais antigo texto apócrifo da Paixão; hostiliza os Judeus e atenua a culpa de Pilatos bem como o sofrimento de Jesus.
Quando eles levantaram a cruz, nela inscreveram: “Este é o rei de Israel.
Depuseram as suas vestes diante dele e dividiram-nas entre si tirando à sorte.
Um destes malfeitores admoestou-os nestes termos: “Os nossos crimes mereceram-nos este suplício, mas ele, que é o salvador dos homens, que mal vos fez ele?”
Eles, cheios de irritação, ordenaram que não se lhes partisse as pernas, com receio que a morte pusesse fim aos seus sofrimentos.
Era meio-dia e a escuridão estendeu-se por toda a Judeia. Eles estavam inquietos: tinham medo que o Sol se pusesse enquanto ele ainda vivia. A sua Lei diz, com efeito, que o sol não se deve pôr sobre um justiçado.
E um dentre eles disse: “Dai-lhe de beber fel misturado com vinagre”. Prepararam a bebida e deram-lha.
Interessante esta preocupação de limitar o sofrimento dos condenados, ao sol-pôr!
E o Senhor gritou dizendo: “Força, ó minha força, tu me abandonaste!” Tendo falado, foi elevado.
Nesse instante, o véu do Templo de Jerusalém rasgou-se em dois.
Então eles retiraram os cravos das mãos do Senhor e estenderam-no no chão. E toda a terra tremeu e houve um grande pavor.
Depois o Sol tornou a brilhar: era a nona hora.
                
Nem a história nem a arte renascentista italiana faz justiça a este homem bom que foi José de Arimateia.

José (de Arimeteia) tomou o Senhor, lavou-o, envolveu-o num lençol e levou-o para o seu próprio túmulo, chamado jardim de José.
Então os Judeus , os Anciãos e os Sacerdotes, conscientes do mal que tinham feito a si próprios, começaram a bater com a mão no peito e a dizer: “Ai das nossas faltas! O juízo aproxima-se, e o fim de Jerusalém."
Os Escribas, os Fariseus e os Anciãos reuniram-se entre eles, porque tinham compreendido que todo o povo murmurava e batia com a mão no peito, dizendo: “Se estes sinais extraordinários se deram pela sua morte, vede como ele era justo!”
E confrangedor ver, que, então, como hoje, a multidão não tem capacidade de avaliar, por si, os atos de outrem, necessitando de sinais místicos ou de entidades consideradas “iluminadas”.  A autêntica génese de todos os despotismos.
Petrónio foi o centurião enviado, com um corpo de soldados, por Pilatos, a pedido dos Anciãos para guardar o túmulo de Jesus, prevenindo o eventual roubo do seu corpo pelos seus discípulos, o qual poderia ser atribuído à Ressurreição ao terceiro dia, anunciada por Jesus, afetando a credibilidade daqueles. Contudo, coisas extraordinárias aconteceram, vozes e um homem, vindos dos céus, entrando este no sepulcro, de tal forma que, os guardas, assustados correram a contar a Pilatos o que tinham visto.
Pilatos respondeu: “Eu estou puro do sangue do Filho de Deus. Sois vós que o haveis querido.”
Maria Madalena, a discípula do Senhor, foi, com as suas amigas ao túmulo do Senhor cumprir os seus deveres conforme os costumes, encontrando o túmulo aberto, com um jovem , belo e de veste deslumbrante, sentado a meio, que as informou da ressurreição de Jesus, tendo-as amedrontado e provoca a sua fuga, apavoradas.
Pedro e os Discípulos, Judas tinha morrido, choraram desolados, seguindo para suas casas. Simão Pedro e André, pegaram nas redes e fizeram-se ao alto-mar.
(Continua)

sábado, 24 de junho de 2017

Os evangelhos Apócrifos (III) (France Quéré, editorial Estampa)

  
Evangelho do Pseudo-Tomé

   Este Tomé não é o Discípulo de Jesus; filósofo israelita ou cristão de origem pagã, mais ingénuo e imaginativo que sábio e místico.

Texto da infância do Senhor:

Conta várias peripécias de Jesus crianças, como alguns milagres a despropósito, inocentes uns, paradoxalmente vingativos outros, misericordiosos alguns, mas também revelam uma criança consciente da sua missão Divina, respeitador de seus pais José e Maria, conhecedor da Sagradas Escrituras com interpretação singular da mesma e pouco respeitador da tradição sabática que tantos mal estar e repulsa gerava nas comunidades onde viviam.
Escribas e Fariseu disseram: "És tu a mãe desta criança? Ela respondeu "Sim, sou eu." E eles lhe disseram: "Tu és feliz entre as mulheres, pois Deus abençoou o fruto do teu ventre! De glória, de virtude e de sabedoria como a sua, nunca vimos nem ouvimos."
História de José, o carpinteiro~, contada por Jesus aos Apóstolos no Monte das Oliveiras.
   José, natural de Belém, a cidade dos Judeus e do rei David, instruído e mestre carpinteiro, casado em matrimónio sagrado teve quatro filhos, Judas, José, Tiago e Simão, e duas filhas, Lísia e Lídia. Ele e os seus dois filhos viviam do trabalho de suas mãos conforme a Lei de Moisés.
Noutro passo, mais uma vez, a importância do trabalho como fonte da vida:
Observando a Lei de Moisés ele nunca comeu o seu pão gratuitamente.
José Casou aos 40 anos e enviuvou aos 89, aos 90 recebeu Maria prometida em casamento pelos sacerdotes, aos 93, nasceu Jesus - Maria tinha 15 anos -, aos 111 anos, deixou o seu corpo. Jesus amava-o, verdadeiramente, como todo o filho ama seu pai!
Como meu pai José dizia estas coisas, eu não pude ficar sem deitar lágrimas e chorei, vendo que a morte o dominava e ouvindo as palavras de aflição que ele pronunciava.
"Ai de nós ó nosso Senhor! Nosso pai está morto? E nós não o sabíamos!" Eu disse-lhes: "Certamente está morto. No entanto, a morte de José, não é uma morte, mas uma via para a eternidade. Grandes são os bens que vai receber o meu bem amado José. Pois desde o momento em que a sua alma deixou o seu corpo, toda a dor terminou para ele."
(Continua)
...estendi-me sobre o seu corpo e chorei sobre ele durante muito tempo, dizendo...

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Os evangelhos Apócrifos (II) (France Quéré, editorial Estampa)

  
   Na série de extratos anteriores sobressaem dois temas que reputo de grande interesse; o primeiro relacionado com a "reprimenda" de um Apóstolo a Pedro, pela desconfiança com que este via a deferência que Jesus disponibilizava a Maria Madalena. Poderá ver-se aqui a génese do afastamento das mulheres da estrutura eclesiástica da Igreja, tendo em conta que Pedro foi o seu fundador?
   Noutro passo faz-se referência à importância da associação da Fé ao conhecimento como vias de acesso a Deus. Os Eclesiastas, dos quais se destacaram São Tomás de Aquino, o fundador da doutrina e Abelardo, desde muito cedo, desenvolveram esta teologia, apesar do domínio da corrente dogmática até aos dias de hoje, e, pelos vistos, com fundamento primordial.
   Evangelhos da Natividade e da Infância:
   Proto-Evangelho de Tiago:
   Consta ter sido escrito por Tiago o Menor, irmão de Jesus segundo o Evangelho, meio-irmão segundo este texto. Data de meados do século II e inspira-se livremente nos textos canónicos sobre a infância.
   Natividade de Maria. Revelação de Tiago:
   E eis que um anjo do Senhor apareceu, dizendo: "Ana, Ana, o Senhor Deus ouviu a tua prece. Tu conceberás e gerarás, e da tua geração se falará na terra inteira."
   Um anjo do Senhor desceu sobre ele e disse-lhe: "Joaquim, Joaquim, o Senhor Deus atendeu a tua oração. Desce daqui. Eis que Ana, tua mulher concebeu no seu ventre."
   Logo Joaquim desceu e convocou os seus pastores, dizendo-lhes: "Tragam-me aqui dez cordeiros sem mácula nem defeito. Estes dez cordeiros serão para o Senhor Deus. Trazei-me também doze veados bem tenros o os doze veados serão para os padres e o Conselho dos Anciãos. E ainda cem cabritos, e os cem cabritos serão para todo o povo."
   Ana e Joaquim atravessavam uma crise de falta de descendência, ultrapassada pela oração que suscitou a intervenção divina e gerou aquela que viria a ser a mãe de Jesus; Maria.

   Quando se completaram os dias, Ana purificou-se, deu o peito à criança e chamou-a pelo nome de Maria.

   Ana e Joaquim entregaram Maria, com três anos no Templo do Senhor, conforme tinham prometido, donde saíu aos doze anos para esposa de José, um nonagenário, escolhido pela sua idoneidade num processo místico.

   E José ergueu-se do seu saco e chamou Maria: "Tu, a escolhida de Deus, que fizeste tu aqui? Esqueceste o Senhor teu Deus? Porque te desonraste, tu que foste educada no Santíssimo lugar e foste alimentada pela mão de um anjo?

   E ela chorou amargamente dizendo: "Eu estou pura e não conheço homem". E José disse-lhe: "Donde vem o fruto do teu ventre?" E ela respondeu: "Tão verdade que vi o Senhor meu Deus, como ignoro donde ele vem."

   Depois de interrogar os magos acerca do nascimento de Jesus, Herodes, pediu-lhes para irem à sua procura e o informar para também ele o adorar. Porém, por indicação de um anjo, os magos regressaram por caminho diverso, o que irritou Herodes ao ponto de mandar matar todas as crianças com dois anos. Foi então que, ao ter conhecimento do massacre, cheia de medo, Maria, escondeu o menino numa manjedoura. Por sua vez, Zacarias, pai de João, e sacerdote do Templo do Senhor, foi mandado assassinar por Herodes por se ter recusado a dar a localização do filho, escondido com sua mãe Isabel, por ação de um anjo, nas entranhas da montanha. Simão sucedeu a Zacarias, por deliberação dos sacerdotes e foi advertido pelo Espírito Santo, de que não morreria sem ter contemplado Cristo vivo.

(Continua)

(Bellini, Renascimento italiano) 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Os evangelhos Apócrifos (I) (France Quéré, editorial Estampa)

  
Encontrei-os num livrinho da Editorial Estampa na pequena livraria do meu amigo Mário, por módicos sete euros. O meu interesse residia nuns alegados evangelhos das autoria de Tiago, irmão de Jesus, e sua mãe Maria, Nossa Senhora, que teriam difundido a mensagem de Jesus após a sua morte. Não constam. Trata-se de fragmentos diversos de textos de origem duvidosa, que foram aparecendo casualmente, desde o século II ao século XIX, supostos testemunhos da vida de Jesus. Trata-se dos designados Agrafa - breves trechos sobre a vida de Jesus com origem no Novo Testamento mas fora dos quatro evangelhos, variantes dos manuscritos evangélicos e citações de padres -, Fragmentos de Papiros - de Oxyrryncos, Logia de Jesus, Egerton e outros -, Fragmentos de evangelhos perdidos - segundo os Hebreus, os Ebionitas, dos Egípcios e Mateus -, Evangelhos da Natividade e Infância - Proto-evangelho de Tiago, evangelho do pseudo-Tomé e História de José o Carpinteiro -, finalmente, os Evangelhos da Paixão - de Pedro e Os Atos de Pilatos.
   O que mais apreciei foram Os Atos de Pilatos por relatarem com grande detalhe a perplexidade deste perante a intransigência do pedido de condenação de Jesus pelos eclesiastas judaicos face à fragilidade das acusações que lhe faziam. Eram estas; ter violado a lei judaica trabalhando ao sábado na execução de milagres vários testemunhados pelos "pacientes" - coxos, cegos e marrecos-, ter declarado o poder de destruir e reconstruir o templo de Salomão, que havia demorado 48 anos a construir, e ter afirmado ser o rei de Israel. Seguindo a tradição romana, Pilatos entregou à ordem local a decisão depois de esgotar toda a argumentação em favor de Jesus, que,no fundo, só praticara o bem.
   Mas também a infância de Maria, imaculada, ao serviço do templo e desposada por José, nonagenário escolhido para seu guardião, graças à sua idoneidade, chegando, porém a ser responsabilizado pelos sacerdotes, pela gravidez da, então, sua mulher, da qual chegara a duvidar, devido à prolongada ausência a que se vira forçado por razões de ofício não ser compatível com estado em que a encontrara.
   Também alguns episódios menos conhecidos atribuídos à infância de Jesus são algo surpreendentes por desagradáveis, como sejam as maldições que lançou a vários conterrâneos por certas atitudes destes, o que não é próprio do Deus misericordioso dos cristãos.
   Alguns extratos:
   Da Introdução de France Quéré:
   O mais célebre catálogo dos escritos ortodoxos encontra-se no manuscrito de Muratori, documento romano dos anos 170....O cânone toma a sua forma definitiva num texto de Atanásio de Alexandria, datado de 367....No século VI, um Decreto dito de Gelásio fará o inventário dos textos apócrifos. A Igreja concluiu o seu trabalho.
   A intransigência da ortodoxia esteriliza o pensamento.
   Dos Agrafa:
   A felicidade está mais em dar do que em receber. (Actos 20,35)
   A medida que usais é aquela pela qual sereis medidos. (Epístola de Clemente de Roma 13,2)
   Aquele que é fiel nas pequenas coisas, é-o também nas maiores. (Idem n5, 2-4 e 8,5)
   Pedi as grandes coisas e as pequenas vos serão dadas por acréscimo. (Clemente de Alexandria, Stromata)
   Fragmentos dos Papiros:
   Mas vós, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas. (Papiro 655)
  
   ...Se alguém guardar a minha palavra nunca provará a morte. (Papiro 644)
   E o reino dos céus está dentro de vós...Vós sois a cidade de Deus. (Papiro 654)
   ...Natanael replicou: "Rabi Senhor, tu és o Cordeiro de Deus que tiras o pecado do mundo." (Papiro 11710 de Berlim)

      Pedro, tu estás sempre pronto e exaltares-te, e agora discutes com esta mulher como se fosses seu inimigo. Se o Salvador a julgou digna, quem és tu para a menosprezar? Em todo o caso, ele, vendo-a, amou-a certamente. (Evangelho de Maria Madalena, fragmento P. Rylands III, 463).

   Fragmentos de Evangelhos Perdidos:

   ...E o Senhor disse-lhe: "Como podes tu dizer "eu cumpri a Lei e os profetas" quando o que está escrito na Lei é: "amarás ao teu próximo como a ti mesmo"? (Orígenes, Comentário sobre Mateus 15,14)

   Também no Evangelho dos Hebreus, lemos que o Senhor, falando aos seus Discípulos, disse: "nunca estejam felizes a não ser quando olharem para o vosso irmão com amor."

   O homem que tinha a mão seca implorava que o ajudassem: "Eu era pedreiro - dizia ele - e vivia do trabalho das minhas mãos. Suplico-te Jesus, devolve-me a saúde para eu evitar a vergonha de mendigar o meu pão." (Comentário I  sobre Mateus 12,13)

   E no Evangelho segundo os Hebreus, que os Nazarenos praticam, tem-se como um dos maiores crimes o de contristar o espírito do seu irmão." (Comentário 6 sobre Ezequiel)

   Eu vim pôr fim aos sacrifícios e se vós não cessais de sacrificar, a minha cólera também não cessará de pesar sobre vós. (Epifânio, Heresias 30, 13, 16, 22)

A complementaridade entre a Fé e a Ciência está aqui exposta:

   Os gnósticos dizem que Mateus também os ensinou nestes termos: "Lutai contra a carne e tratai-a com desprezo sem nunca ceder ao prazer. Fortificai a vossa alma pela Fé e pelo conhecimento." (Clemente de Alexandria, Stromata, 3,4)

(continua)

(Mary with the Child and Saints, Tiziano, 1510)

sábado, 3 de junho de 2017

O Príncipe: Maquiavel, c/introdução de José António Barreiros, Editorial Presença


Acabei de ler uma das obras que mais desejava, oferta do meu João; O Príncipe, de Maquiavel. Apesar da erudição, confesso que foi com enorme desconforto que fiz a travessia da introdução de José António Barreiros.

Maquiavel teve uma vida conturbada - século XV -, natural de Florença, viveu os primórdios do Renascimento alternando entre os mais altos cargos públicos e a vida rural de modesto proprietário entrecortada por amores venais e bajulação dos poderes instituídos.

O Príncipe é uma obra acerca da natureza do poder da época, caracterização dos vários modelos de ascensão ao poder e sua manutenção, baseada na sua própria experiência, a partir das muitas vicissitudes político-militares da Itália pré-medieval, pós império romano.

A capacidade de síntese e subtileza de raciocínio de Maquiavel são notáveis e transponíveis, em muitos casos, para os dias de hoje. Se não, vejamos algumas preciosidades, e cito:

“...e quem conquista tais estados e os quer conservar deve tomar duas precauções: uma é extinguir a estirpe do antigo príncipe; a outra é não alterar as leis nem os impostos.”

“---pelo que se deduz que os homens devem ser mimados ou aniquilados: porque se se vingam das pequenas ofensas, não podem vingar-se das grandes, de forma que a ofensa que se faz a um homem deve ser tal que não se tema a vingança.”

Parafraseando: uma guerra que se evita, não se elimina, apenas se adia, com vantagem para os outros.

“donde se extrai uma regra que nunca, ou raramente, falha: quem dá azo a que alguém se torne poderoso, arruína-se a si próprio; porque esse poder é gerado por ele por engenho ou pela força, e tanto um como a outra são suspeitos para quem se tornou poderoso.”

Esta é super boa:

“As frequentes rebeliões da Espanha, da França e da Grécia contra os Romanos derivam do grande número de principados que havia nesses Estados enquanto a sua memória perdurou, nunca os Romanos estiveram seguros da sua posse; mas, logo que a sua memória se desvaneceu, passaram a ser dominadores seguros, graças ao poder e à continuidade do império.”

“Quem se torna senhor de uma cidade habituada a ser livre e não a destrói, pode ter a certeza que será destruído por ela.”

“E deve ter-se em conta que não há coisa mais difícil de tratar, de êxito mais duvidoso, e mais perigoso de manejar, do que ousar introduzir uma nova ordem.”

Preciosa, esta:

“Porque é sempre por medo ou por ódio que os homens ofendem os outros.”

E mais esta:

“Por outro lado, não se pode dizer  que seja virtude mandar matar os seus concidadãos, trair os seus amigos, não ter palavra nem compaixão, nem crença; assim, pode conquistar-se o poder, mas não a glória.”

Então esta é soberba:

“Creio que isso depende do bom ou do mau uso que se faz da crueldade. Pode dizer-se que é bem usada (se é possível dizer bem do mal) a crueldade que se exerce de uma só vez por necessidade de segurança, e que depois não se repete, antes se converte no maior benefício para os súbditos. A crueldade mal usada é aquela que, embora de início seja pequena, vai aumentando com o tempo, em vez de se extinguir. Os que obedecem à primeira forma de agir, podem, com a ajuda de Deus e dos homens, encontrar algum remédio para a sua condição, como aconteceu a Agátocles: quanto aos outros, é impossível manterem-se”

“Porque as injúrias devem fazer-se todas de uma vez, para que, havendo menos tempo para as sofrer, provoquem menos dano; e os favores devem fazer-se a pouco e pouco para melhor se saborearem.”

Ainda esta:

“Por conseguinte, quem for feito príncipe pelo favor do povo deve conservar sempre a sua amizade; o que lhe será fácil, pois o povo não pede mais que não ser oprimido.”

E mais esta::

“E como os homens se sentem mais gratos quando recebem o bem de quem esperavam o mal o povo passa logo a amá-lo mais do que se ele próprio o tivesse feito principe.”

Agora, mesmo em cheio, tendo em conta os tempos modernos:

“Por isso, um príncipe sábio deve arranjar maneira de os seus súbditos precisarem, sempre e em qualquer circunstância, do Estado e dele próprio; e assim, ser-lhe-ão sempre fiéis.”

“Os principais alicerces de todos os Estados, sejam eles novos, antigos ou mistos, são boas leis e boas armas.”

Mais uma fantástica:

“As tropas auxiliares podem ser úteis e boas para si mesmas; mas são quase sempre danosas para quem as chama; porque, se perdem, fica derrotado; e, se vencem, fica seu prisioneiro.”

“O imperador de Constantinopla - João Cantacuzeno (NT) -, para resistir aos seus vizinhos, fez entrar na Grécia dez mil Turcos, que, terminada a guerra, não quiseram partir, o que foi o início da sujeição da Grécia aos infiéis.”

“Por isso, um príncipe sábio evitou sempre servir-se de tais armas e contou apenas com as suas; e preferiu ser derrotado com as suas a vencer com as dos outros, pois não tem por verdadeira a vitória obtidas com armas alheias.”

Outro exemplo a ter em conta:

“A este respeito quero ainda recordar um episódio do Antigo Testamento. Quando David disse a Saul que estava disposto a lutar contra Golias , um provocador Filisteu, Saul, para o encorajar, deu-lhe as suas armas; David, porém, mal as empunhou, recusou-as, dizendo que com elas não se sentiria seguro de si e queria enfrentar o inimigo com a sua funda e o seu punhal. Em suma, as armas alheias, ou nos caem do corpo, ou nos pesam ou nos ficam apertadas.”

“Por conseguinte, aquele que, num principado, não reconhece os males logo que eles surgem, não é verdadeiramente sábio; mas são poucos os que têm esse dom. E, se quisermos encontrar a causa primeira da ruína do império romano, veremos que se ficou a dever ao facto de terem começado a arrolar Godos; e, a partir desse momento, as tropas começaram a enfraquecer, e todo o valor que iam perdendo ia passando para os Godos.”

Mais uma bem atual:

“..os príncipes perderam os seus Estados quando pensaram mais nas comodidades do que nas armas.”

Esta, então, é de “morte”:

“Portanto, se um príncipe deseja manter-se no poder, precisa de aprender a não ser bom e a servir-se, ou não, dessa capacidade, de acordo com as necessidades.”

Mais esta, que não lhe fica atrás:

“Nos nossos tempos só vimos fazer grandes coisas aos que foram tidos por sovinas; os outros foram derrotados.”

Esta outra serve que nem luva ao momento que se vive em Portugal, atualmente:

“Podes doar generosamente o que não é teu nem dos teus súbditos, como fizeram Ciro, César e Alexandre; porque gastar o que é dos outros não diminui o teu prestígio, antes o aumenta: só te prejudicas se gastares o que é teu. Não há no mundo coisa que mais se consuma a si própria que a magnanimidade; enquanto fazes uso dela vais perdendo a faculdade de a usar, e tornas-te pobre ou mesquinho, ou então, para escapares à pobreza, ganancioso e odiado.”

Realmente, Maquiavel, era profundo conhecedor da natureza humana ora veja-se:

“…é muito mais seguro ser temido do que amado, se só se puder ser uma delas. Porque, acerca dos homens em geral, pode afirmar-se o seguinte: que são ingratos, volúveis, simuladores e dissimuladores, receosos dos perigos, ávidos de lucro; e, enquanto lhes fazes bem estão todos do teu lado e oferecem-te o seu sangue, os seus bens, a sua vida e os seus filhos, quando a necessidade vem longe; mas quando ela é presente, revoltam-se….e os homens têm menos receio de ofender alguém que se faça amar do que alguém que se faça temer.”

Ainda (isto é duma subtileza…!), ora vejam só:

“O príncipe deve fazer-se temer de tal modo que, se não conseguir que o amem, possa evitar que o odeiem; porque pode muito bem ser temido e, ao mesmo tempo, não ser odiado. É o que acontecerá sempre, se respeitar os bens dos seus cidadãos e dos seus súbditos, bem como as suas mulheres….Acima de tudo, deve abster-se de tocar nos bens alheios; porque os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda do património.”

Esta então serve que nem uma luva na política atual:

“Toda a gente sabe quão louvável é, para um príncipe, honrar a sua palavra e viver com integridade e não com astúcias; todavia, a experiência do nosso tempo ensina-nos que os príncipes que pouco tiveram em conta a palavra dada e souberam astuciosamente ludibriar os espíritos dos homens fizeram grandes coisas e acabaram por superar aqueles que se apoiaram na lealdade….Por conseguinte, um senhor prudente não pode, nem deve, honrar a palavra dada se isso se voltar contra ele e se os motivos que o levaram a fazer promessas deixaram de existir….Contudo, há que disfarçar bem essa faceta e ser grande simulador e dissimulador: os homens são tão ingénuos e tão conformados com as necessidades presentes que quem engana encontrará sempre quem se deixe enganar….Portanto, um príncipe não precisa possuir, de facto, todas as qualidades acima enumeradas, mas convém que parece possui-las.” (Ora toma!)

Parafraseando:

Das qualidades que o príncipe deve permanentemente simular; piedade, fidelidade, lealdade, integridade, humanidade e religião, nenhuma lhe é mais necessária do que esta última.

Outra também aplicável às democracias atuais:

“Resumindo, digo que, da parte de quem conjura não há senão medo, inveja, suspeita de um castigo que o assusta; mas, da parte do príncipe, há a majestade do principado, as leis, as defesas dos amigos e do Estado.”

“E os Estados bem governados e os príncipes avisados cuidaram sempre de não desesperar os nobres e de manter o povo feliz e satisfeito, pois é essa uma das tarefas mais importantes do príncipe.”

Ainda esta preciosidade:

“A este respeito convém notar que o ódio tanto se grangeia com boas ações como com más; todavia, como atrás se disse, se um príncipe quer conservar o seu Estado, vê-se muitas vezes obrigado a não ser bom; porque, quando a comunidade, seja ela do povo, dos soldados ou dos grandes, de que julgas precisar para manter o poder, é corrupta, convém-te obedecer às suas disposições de espírito para as satisfazeres; e, nesse caso, as boas ações são-te adversas.”

“Além disso (Fernando Aragão), para poder entregar-se a façanhas ainda mais grandiosas (após a tomada de Granada), e servindo-se sempre da religião, socorreu-se de uma piedosa crueldade, perseguindo e expulsando os marranos do seu reino, exemplo que não pode ser mais miserável e mais raro….E as suas iniciativas foram saindo umas das outras, para que, entre uma e outra, os homens não tivessem tempo para se revoltarem contra ele.” (piedosa crueldade!)

Contra o cinzentismo oportunista e cobarde:

“Um príncipe também é estimado quando mostra ser amigo verdadeiro e verdadeiro inimigo, ou seja, quando se declara abertamente a favor de um contra outro….Porque, quem vence não quer amigos suspeitos e que não o ajudem na adversidade; quem perde não te recebe por não teres querido partilhar da sua fortuna, pegando em armas….E os príncipes irresolutos, para evitarem os perigos presentes, decidem na maioria das vezes manter-se neutrais e, na maioria das vezes, provocam a própria ruina.”

Mais uma lição que poderá ser bem útil aos políticos atuais:

“Um príncipe deve também mostrar-se amante das virtudes, albergando os homens virtuosos e honrando os que são exímios numa arte. Deve também encorajar os cidadãos para eles exercerem pacificamente os seus ofícios, tanto no comércio como na agricultura e em qualquer outro ofício dos homens, para que uns não receiem engrandecer as suas terras por medo que lhes sejam tiradas, e outras não queiram abrir um comércio por medo dos impostos; deve, isso sim, premiar quem queira fazer tais coisas e quem pense em qualquer forma de desenvolver a sua cidade e o seu Estado. Além disso, deve, nas alturas oportunas do ano, manter os homens entretidos com festas e espetáculos.”

E uma já nossa velha conhecida:

“ A primeira conjetura que se faz acerca da inteligência de um senhor é observar é observar os homens que o rodeiam.”

Parafraseando:

Há três espécies de cérebros; os que compreendem por si próprios, os que compreendem o que os outros compreendem e os que não compreendem, nem por si próprios nem com a ajuda dos outros, sendo os primeiros, excelentes, os segundos, excelentes e os terceiros inúteis.

“..aquele que tem nas suas mãos o Estado de outro nunca deve pensar em si, mas no príncipe, e nunca deve recordar-lhe coisas que não digam respeito ao principado.”

“Não há outra forma de te defenderes da adulação senão dares a entender às pessoas, que não te afrontam por te dizerem a verdade; mas, se todos puderem dizer-ta, deixas de ser respeitado.”

Parafraseando:

Segundo Maquiavel, o príncipe só deve permitir a liberdade de opinião as restrito grupo de colaboradores por si escolhidos e apenas relativamente aos temas que lhes colocar, devendo interrogá-los acerca de tudo e decidir como lhe aprouver, com independência e determinação. Procedendo de modo diverso, o príncipe acabará por ser arrastado pelos aduladores ou tergiversar nas suas decisões, tornando-se pouco estimado.

A seguinte, “é de morte”; citando:

“….os homens acabarão sempre por se revelar maus se uma necessidade não os obriga a ser bons. Por isso, é de concluir que, os bons conselhos, venham eles de quem vierem, devem depender da prudência do príncipe, mas que a prudência do príncipe não depende dos bons conselhos.”

Outra que serve que nem uma luva ao momento atual; parafraseando:

Os homens valorizam mais o presente do que o passado e quando aquele lhes agrada tiram proveito dele sem outras preocupações e defenderão o príncipe por todas as formas desde que não lhes falte coisa alguma.

Os príncipes não devem acusar a má sorte quando perdem os seus principados, mas apenas o seu diletantismo ou covardia.

Citando:

“As únicas defesas que são boas, seguras e duradoiras, são as que dependem de ti e da tua virtude.”

Mais uma válida em todas as épocas; parafraseando:

Enquanto muitos reconheciam a inutilidade da ação humana face aos desígnios divinos e o acaso, Maquiavel atribui ao livre arbítrio a responsabilidade de metade dos acontecimentos, recorrendo à metáfora dos danos provocados pelo extravasamento sazonal dos rios em que, nos intervalos, o homem pode minimizá-los com a sua ação.

Citando:

“…um príncipe que se apoie totalmente na fortuna, cai, mal a fortuna muda.”

Parafraseando (“grande metáfora”):

As circunstâncias condicionam o sucesso ao príncipe que possua as virtudes que melhor se adequem ao momento, revelando a importância da sua capacidade de ser flexível.

Maquiavel valoriza mais a ousadia do que a prudência pelo facto de considerar a fortuna feminina; tal como a submissão da mulher, a submissão da fortuna exige contrariação e espancamento, comprovado pela preferência dquelas pelos jovens, devido ao espírito ardoroso destes.

Sublime; cito:

“Deus não quer fazer tudo, para não nos privar do livre arbítrio e do quinhão de glória que nos cabe.” (uau!)

Agora uma frase de Tito Lívio citado por Maquiavel, em latim, da maior relevância em todos os tempos, quer para governantes, quer para governados:

“É justa a guerra para aqueles que dela necessitam; e são sagradas as armas quando nelas repousa a única esperança.”

Parafraseando:

Nada confere tanta glória e respeito a um novo príncipe como as novas leis e instituições que cria, quando são grandiosas e bem alicerçadas.

Atribui a sucessão dos inêxitos dos exércitos italianos à fraqueza das chefias, apesar da força, destreza e engenho dos soldados, dando como exemplos as batalhas de Taro, de Alexandria, Cápua, Génova, Vailà, Bolonha e Mestre.

Termina instigando o destinatário da obra a assumir os destinos da Itália contra os bárbaros, assegurando-lhe o apoio incondicional geral e citando Petrarca.
AB