sábado, 18 de fevereiro de 2017
Anti Corrupção: Portugal a REPÚBLICA DAS BANANAS
Anti Corrupção: Portugal a REPÚBLICA DAS BANANAS: "Não culpo os árbitros. Culpo as "altas patentes" das autoridades do nosso país. Os chefes das várias forças e os juizes. Cu...
domingo, 5 de fevereiro de 2017
Os muros de cá
Maria at the Beach, Biarritz
A ascensão de Donald Trump, à Presidência dos EUA tem suscitado uma histeria nas hostes socialistas locais e europeias caracterizada por críticas exacerbadas chegando a acusá-lo de xenofobia por continuar projetos iniciados por presidentes democratas, que não ousaram criticar. É o caso do famigerado muro na fronteira mexicana, iniciado no mandato de Bill Clinton, e complementado com arame farpado eletrificado, câmaras de vigilância e uma vala hidráulica onde todos os anos morrem cerca de oito mil mexicanos tentando passar a fronteira. Apesar disso e do flagelo do tráfico de droga para os EUA, só a decisão de Trump suscita a indignação dos "humanistas" europeus, em estado de negação relativamente à inesperada derrota dos seus congéneres americanos.
A ideia da construção de muros para conter a imigração maciça de refugiados divide a europa, já conduziu à saída do Reino Unido e ameaça fazer mais baixas no "reino" europeu e, verdade seja dita, tem suscitado oposição substancial das esquerdas e da sociedade civil. Num recente encontro de líderes europeus, o primeiro-ministro luso, segundo consta, talvez para parecer "original" terá feito uma alusão implícita aos "muros" de Trump, o que nem estaria mal não fosse o caso de silenciar os muros imateriais que se vão construindo na europa com a cumplicidade dos governantes nacionais.
Desde logo o maior de todos, o muro da exclusão social, de destruição das economias locais, do fomento das economias paralelas, da progressão da marginalidade, da emigração, da degradação ambiental e da macrocefalia. O muro da produtividade que fecha empresas de menor intensidade de capital e de capital humano menos valioso, atirando "borda fora" os trabalhadores menos qualificados, condenados à indigência. Um processo que se destina a criar reserva de mercado para as empresas mais competitivas dos nossos parceiros europeus com a contrapartida da entrega do controlo interno, gerador de dinheiro e poder, às elites partidárias e seus aliados económicos.
Não menos importante, o muro ambiental, que tem proporcionado aos estados interminável sobrecarga tributária sobre os contribuintes dificultando-lhes o acesso a produtos de primeira necessidade como a água, a luz, o gás, a gasolina, o gasóleo o pão, o leite, a carne e o peixe, etc. Estes muros não parecem incomodar Suas Altezas, que assim vão "enchendo" os sôfregos cofres públicos e passando para as empresas privadas a responsabilidade da respetiva compensação salarial. Um muro que custa ao país cerca de 800 milhões de euros anuais em pescado e nos próximos anos irá impor ao empresariado centenas de milhões de euros em substituição de equipamentos administrativamente considerados obsoletos.
O muro da intolerância relativamente à igreja católica enquanto se propaga a "falsa" retórica da liberdade religiosa fomentando religiões doutrinariamente hostis à milenar cultura cristã ocidental que é a sua substância.
O muro da hostilização encapotada à família tradicional em detrimento das famílias alternativas, prosélitas dos promotores das políticas "progressistas" do aborto e da eutanásia; a célebre "injeção atrás da orelha".
O muro da intolerância política dos que, como o atual Primeiro-Ministro, se recusam ao dever democrático de prestar contas aos cidadãos em plena casa da democracia com "dichotes" de mau gosto perante deputados contrários legitimamente eleitos.
O muro da demagogia que candidatos e governantes teimam em erguer com o consentimento ingénuo dos cidadãos, apesar das sucessivas e inconsequentes perplexidades destes.
O que não faltam por cá são muros de todo o tipo, seja dos governos locais seja da Comissão Europeia, cuja finalidade, afinal, é a de perpetuar o poder das elites que o Sr Costa representa.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
domingo, 29 de janeiro de 2017
Encontro ao entardecer
Ali no Portinho D´Areia, na pequena marisqueira debruçada sobre o mar de Peniche encontrei-me com os meus amigos Joel, Mário e Fernando para um cafezinho bem quentinho e amena cavaqueira ao correr da memória. O mar estava magnífico como sempre; verde escuro e encapelado, com o vento ameaçador e o céu cinzento. Na pequena praia, já despida de areia, emergiam os calhaus acinzentados, lambidos pelas sucessivas vagas. Junto à estrada, teimosas, as árvores exibiam as suas persistentes e improváveis copas em tons de verde e azul.
Todos eles com ligações à indústria e, ou, comercio de pescado e marisco, os dois últimos ainda no ativo. Com um caso no Serviço Nacional de saúde a correr, Joel recordou outros do seu passado a que se seguiram recordações de outras peripécias do Fernando e do Mário a propósito do mesmo tema.
Contou o Joel de quando teve que se deslocar ao Hospital de Santa Maria num "Rolls-Royce" - uma ambulância do INEM -, e regressar numa "carroça" - uma ambulância corrente degradada -, tendo demorado seis horas até Peniche - tiveram que passar por Almeirim para deixar outro doente e o motorista não conhecia o caminho. O resultado foi a subida da sua tensão a 21 obrigando-o a sujeitar-se a medicação de emergência no hospital da cidade. Uma demonstração de como as ambulâncias podem matar os doentes.
Fernando contou daquela vez já longínqua em que deslocou um rim ao falhar o chuto na bola quando disputava um jogo de futebol ao serviço clube da terra. Confrontado com o diagnóstico, a necessidade de cirurgia e o correspondente custo de quinze mil escudos, o Fernando conseguiu balbuciar que era apenas um funcionário administrativo e que não podia fazer tal despesa. Desanimado, dada a insuficiência do "desconto", durante o regresso lembrou-se de recorrer a um cirurgião local que tinha feito trabalho idêntico a um amigo. Pediu-lhe oito mil escudos, que reduziu para sete assim que o Fernando mostrou surpresa, e depois para cinco quando este referiu ter sido esse o custo da operação que ele tinha efetuado ao tal amigo, há tempos. Um caso de mercantilismo que não difere muito dos do merceeiro, do tendeiro ou do cigano. Afinal, mudam os argumentos, mas a natureza humana não.
Mas o mais engraçado foi a "parte" do Mário. Com dificuldades de visão foi ao hospital regional onde preencheu a papelada necessária à marcação de uma consulta de oftalmologia. Como a consulta tardava, um dia, a sua mulher, passando por aqueles lados, foi indagar, tendo sido informada que nada constava. O bom do Mário, preocupado, dirigiu-se aos serviços hospitalares logo que pôde e foi então que a funcionária que o tinha atendido da primeira vez lhe explicou: - Como faltava preencher os campos relativos à identidade dos seus pais e avós, arrumei o processo na prateleira superior da estante, que agora está inacessível porque emprestei a escada ao servente de pedreiro que ainda a não trouxe. Foi então que o nobre Mário sugeriu pedir-se uma escada emprestada aos bombeiros em frente. Foi o que fez após a anuência da interlocutora. Lá conseguiu aceder ao processo e que os serviços lhe dessem seguimento. Após a consulta-cirurgia recuperou a visão a um nível que nunca tivera. Tudo sobre rodas.
Não se avistavam barcos no horizonte e o mar continuava encapelado e verde escuro.
O caso Trump e os falsos democratas
Madre Superiora
"De repente, o populismo ameaça o planeta. Tudo o que não encaixa no sistema democrático tal como controlado pelos mesmos de sempre – é populismo. A vitória de Trump e a hipótese de vários partidos de "esquerda" ou "direita" na mesma onda ganharem eleições na Europa fazem soar alarmes. Muitos dos que gritam "populismo!" lembraram-se de Santa Bárbara quando trovejou. Ter apoio popular porque, à "direita", se deseja pôr termo à emigração descontrolada? Populismo. Ter apoio popular porque, à "esquerda", se quer alternativas aos excessos do capitalismo especulativo? Populismo. Até se vêem laivos populistas na razoável "táctica dos afectos" de Marcelo. Mas não se acusa de populistas todos os políticos que prometem em eleições o que não tencionam cumprir. Ou os que usam os media em palhaçadas, como Obama, para manter a popularidade."
"De repente, o populismo ameaça o planeta. Tudo o que não encaixa no sistema democrático tal como controlado pelos mesmos de sempre – é populismo. A vitória de Trump e a hipótese de vários partidos de "esquerda" ou "direita" na mesma onda ganharem eleições na Europa fazem soar alarmes. Muitos dos que gritam "populismo!" lembraram-se de Santa Bárbara quando trovejou. Ter apoio popular porque, à "direita", se deseja pôr termo à emigração descontrolada? Populismo. Ter apoio popular porque, à "esquerda", se quer alternativas aos excessos do capitalismo especulativo? Populismo. Até se vêem laivos populistas na razoável "táctica dos afectos" de Marcelo. Mas não se acusa de populistas todos os políticos que prometem em eleições o que não tencionam cumprir. Ou os que usam os media em palhaçadas, como Obama, para manter a popularidade."
(repescado do texto de hoje de Eduardo Cintra Torres no Correio da Manhã)
http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/eduardo-cintra-torres/detalhe/o-populismo-e-a-defesa-do-sistema?ref=eduardo-cintra-torres_destaque
domingo, 22 de janeiro de 2017
Eles que trabalhem mais
Field of Flowers 1910 (Egon Schiele)
Quando ouvi Jorge Sampaio, ainda Presidente da República, responder ao jornalista que o questionava sobre a crise económica do país, que "os empresários têm que trabalhar mais", pensei com os meus botões: - se quiserem! Pensava eu, na minha "santa" ingenuidade, que nenhum governo pode obrigar os empresários a trabalhar mais. Enganei-me. Pode. Tal como no célebre filme "Os Cavalos Também se abatem" protagonizado por Jane Fonda e Michael Sarrazin, os pequenos empresários podem ser obrigados a trabalhar até caírem para o lado de exaustão. Perante a asfixia do "novo proletariado" estatal, todos lutarão pela sobrevivência das suas empresas até à ruina.
Vem isto a propósito do salário mínimo e do aumento de cerca de 5% imposto pelo governo em sede de "concertação social" ao patronato, representado pelas grandes confederações. A guerra à economia dos baixos salários decretada pelos comunistas foi assumida, embora mais discretamente, pelos restantes partidos e figuras políticas destacadas. Ninguém discorda. No entanto, pondo de lado o populismo, a bondade das políticas inerentes ao processo tem efeitos perversos. Desde logo no desígnio democrático da Liberdade, uma vez que deixa de ser possível a livre contratação entre entidades autónomas, em função do seu próprio interesse. O Estado arroga-se o direito de definir os interesses de cada um tal como quando lhes impõe uma carga tributária demolidora.
Ora então, vamos a factos; o Primeiro Ministro com o apoio dos partidos que o suportam decidiu aumentar o salário mínimo, prometendo aumentos futuros, "porque criam emprego". A ser verdade é o "ovo de colombo" da economia! Adeus crise. Nestas matérias impõe-se avaliar o designado custo de oportunidade, isto é; o que se perde em contrapartida da adoção de uma medida económica.
O propósito é o de aumentar a procura interna, a faturação das empresas e as receitas públicas. Tal verificar-se-á no curto prazo, no entanto, o ajustamento ocorrerá, inevitavelmente, no longo prazo. Lembremo-nos, antes de mais, que Portugal tem uma pequena economia aberta, de baixa competitividade e baixa produtividade face aos seus parceiros europeus. Se tivermos em conta que o aumento de salário mínimo tem de ser repercutido nos restantes salários, mesmo que moderadamente, que o impacto dos salários nos custos gerais de produção pode chegar aos 50%, para um aumento salarial de 5%, os custos de produção aumentam 2,5 % colocando em risco todas as empresas com ganhos de produtividade inferiores. Ora se o PIB em 2016 aumentou cerca de 1,2 %, um grande número de empresas está condenada. Numa primeira fase, todos os empresários procurarão resistir, diversificando a oferta e a clientela, inovando e racionalizando custos, mas muitos deles acabarão por sucumbir face à persistência do agravamento de custos salariais e dos designados custos de contexto, destinados a financiar as administrações central e local, sem contrapartidas. -Ah!, mas isso é ótimo!", dizem os "novos aristocratas" , políticos e académicos; - Temos que libertar a economia das empresas ineficientes, incapazes de inovar, criando reserva de mercado para as mais competitivas; com maior intensidade de capital, capital humano mais valioso, maior valor acrescentado e, consequentemente, maior produtividade, melhores salários e mais receita fiscal. Tudo certinho, não fora a particularidade da já referida economia de mercado em que operamos; serão os concorrentes das empresas nacionais, detentores de fatores de produção mais competitivos, que acabarão por beneficiar do aumento da procura interna nacional, pressionando a balança comercial, as contas externas, o défice orçamental e o endividamento. -Tudo sobre rodas"; dirão os mesmos políticos e académicos: - Com um empurrãozinho, os excluídos acabarão por empregar-se no exterior, livrando-nos dos encargos inerentes e, a médio prazo, ainda contribuirão para engordar as remessas externas. Em compensação, franquearemos as portas à imigração, preferencialmente de não cristãos, como convém à República, dotando o país da mão de obra de que necessita para os investimentos públicos que se avizinham e, simultaneamente, de eleitores dos partidos do Estado. Provavelmente é isto que esperam os promotores do aumento do salário mínimo, indiferentes à angústia da legião de excluídos, trabalhadores e empresários.
Convém ter presente que, esta, é apenas mais uma das dificuldades que, prepotentemente, têm sido impostas pela Comissão Europeia, pelos Governos nacionais e elites internas, sob os mais variados pretextos, aos trabalhadores e empresários nacionais, cuja consequência, em última análise consiste na destruição das economias locais, na desertificação, no isolamento e na macrocefalia. Algo que começa a ser identificado e denunciado no âmbito da ONU, entidade que, paradoxalmente, tem contribuído fortemente para esta realidade,
Convém ter presente que, esta, é apenas mais uma das dificuldades que, prepotentemente, têm sido impostas pela Comissão Europeia, pelos Governos nacionais e elites internas, sob os mais variados pretextos, aos trabalhadores e empresários nacionais, cuja consequência, em última análise consiste na destruição das economias locais, na desertificação, no isolamento e na macrocefalia. Algo que começa a ser identificado e denunciado no âmbito da ONU, entidade que, paradoxalmente, tem contribuído fortemente para esta realidade,
Para ilustrar a demagogia do Governo e seus apoiantes, lembremo-nos de que, em matéria de avaliação da dignidade salarial, o que releva é o poder de compra respetivo e que, aqui sim, são os Governos e não as empresas os primeiros e únicos responsáveis pela inusitada carga fiscal aplicada aos cidadãos e empresas, nomeadamente, sobre bens de primeira necessidade e ao processo operacional, para financiamento de um Estado despesista, sobreendividado, onde alastra o nepotismo e o jacobinismo; um Estado insaciável, incapaz de controlar a corrupção, colonizador da sociedade civil para satisfação das clientelas do poder, como sempre fez, afinal, de modos diferentes, desde a fundação da nacionalidade.
Grosso modo, cerca de 50% dos encargos dos cidadãos com a água, a luz e os combustíveis, são impostos estatais! Porque não reduz o Governo a carga fiscal sobre estes bens essenciais e outros, como o pão, o leite, os hortícolas, a carne e o peixe, compensando-a, racionalizando custos, eliminando serviços redundantes, reduzindo os custos operacionais induzidos nas empresas para que estas possam acumular o capital necessário ao investimento, à criação de emprego e à redução de preços? Sabemos porquê! A tentação da definição de bons e maus é uma estratégia eleitoral compulsiva e conforme aos interesses dos que ocupam o poder, implicando a manipulação da opinião pública. Aqui reside a maior fragilidade dos sistemas democráticos, constituindo, em simultâneo, um dos paradoxos da atualidade nacional, a saber; os partidos progressistas, são, afinal, os maiores aliados do Grande Capital, consubstanciado nas multinacionais, e grandes empresas estrangeiras que, inexoravelmente, vão ganhando o mercado interno. A Liberdade de acesso e de manutenção da atividade empresarial é cada vez mais uma miragem ao cidadão português, mais uma vez condenado à subserviência, com a cumplicidade dos autoproclamados "patriotas" ainda dominados pelo isolacionismo do Estado Novo que os moldou.
domingo, 15 de janeiro de 2017
Mário Soares, o Personagem, o Político e o Homem
Claude Monet - La route de Vétheuil, 1880
Desde há largos anos que percebi que Mário Soares não era defensor da liberdade, nem patriota e nem sempre amigo do seu amigo. O "campeão da Liberdade", o "pai da Democracia", o "patriota", o "amigo inflexível de todas as horas" foram atributos de um personagem ficcionado por ele próprio, pelo seu partido e pela generalidade da comunicação social, na sequência do golpe do 25 de Abril de 1974. Para tal conclusão basta captar o essencial de alguns episódios marcantes de uma história política com cerca de 50 anos.
Desde logo, a imposição de uma
ideologia política, “o caminho irreversível para o socialismo”, consagrado
constitucionalmente em 1976 com a colaboração do Partido Socialista que se
apresentava em maioria na Assembleia Constituinte, revela que o conceito de
Liberdade de Mário Soares e do seu partido, se restringia à sua
liberdade de impor aos outros a sua ideologia, propósito que lhe era negado
pelo antigo regime. Tal facto, por si só, é suficiente para descredibilizar o
regime instituído enquanto Democracia autêntica, bem como todos os alegados “democratas”
que o impuseram, entre os quais, e mais que qualquer outro, Mário Soares, pela omissão
de oposição, apesar do enorme prestígio de que gozava, na época, junto da
população e da generalidade da Comunicação Social.
O
processo da desastrosa descolonização imposta pelas grandes potências do pós
guerra incluindo dos países agora “nossos amigos” no âmbito da União Europeia,
permanecerá como uma mancha negra indelével da sua atividade política. Apesar
da partilha de responsabilidades, Mário Soares foi cúmplice nesse processo de
que resultou dezenas de milhares de mortos, centenas de milhar de desalojados,
milhões de africanos subjugados pelos novos opressores e de que nunca se
arrependeu apesar do estado de miséria dos respetivos povos. O conceito de
Liberdade de Mário Soares, neste caso, cingiu-se às elites dos partidos
envolvidos na guerra colonial de matriz socialista e não ao Povo correspondente,
no afã de agradar aos novos senhores do mundo que lhe proporcionavam a ascensão
ao poder em Portugal. Nem libertador nem Patriota. Mário Soares foi um ás da
sobrevivência política, de ética e altruísmo duvidosos.
Também lhe
tem sido, consensualmente imputado, o crédito da adesão de Portugal à CEE, enquanto
opção estrategicamente decisiva para a estabilidade política e o progresso
económico do país. Não o vejo assim. Antes de mais, as negociações com a CEE
tinham sido estabelecidas por Marcelo Caetano, na sequência do 2º Pacto
Colonial, que definia o objetivo comum de desenvolvimento da economia Portuguesa
e em especial das Colónias com o propósito de a preparar para a liberalização.
Por outro lado, a adesão, implicitamente, constituiu a capitulação de uma nação
que, em mais de oito séculos, travou, com todas as vicissitudes conhecidas, as
mais bravas batalhas em todos os continentes, algumas simultâneas, por vezes
contra inimigos mais poderosos, então sim, compelida pela ânsia de Liberdade,
de resto, fundadora da Nação, pela mão e pelo génio de Afonso Henriques. Com a
adesão à CEE e mais tarde à UE com a anuência de Mário Soares e, mais uma vez,
pela mão do PS, Portugal alienou os principais fatores que caracterizam um país
livre; emissão de moeda, política cambial, pautas alfandegárias e política
macroeconómica. As duas intervenções do FMI, em 1977 e 1983, no financiamento
do Governo após o desbaratamento das reservas herdadas do Antigo Regime,
revelaram a incapacidade de sobrevivência da III República sem apoio externo.
Foi então que se verificou o período de ouro da economia portuguesa do atual
regime, de 1986 e 1992, graças, essencialmente, aos fundos europeus. Mais
revelou covardia política na medida em que tal visava, também, comprometer os
parceiros europeus na salvaguarda de eventuais riscos de nova deriva comunista
interna. Tal não é compaginável com os atributos de coragem política, de amor à
liberdade e de patriotismo com que Mário Soares foi consagrado pelos seus
correligionários.
Relativamente à sua lendária lealdade aos amigos, recordo os casos de Henrique
Galvão, Salgado Zenha, Rui Mateus, Edmundo Pedro e de José Sócrates.
Henrique
Galvão, sim, foi um herói rocambolesco cuja história tem sido ignorada, apesar
do seu pioneirismo na luta contra o regime de Salazar, que enfrentou de peito
aberto, sem apoios e com destemor, acusando frontalmente o regime, num discurso
histórico que proferiu na Assembleia Nacional, pelas atrocidades cometidas
contra os negros das colónias. Valeu-lhe, mais tarde a prisão no forte de
Peniche e toda uma história fascinante que encheria os écrans caso tivesse
acontecido noutras paragens. Morreu no Rio de Janeiro, na miséria, apesar da
caridade do país irmão. No leito de morte, teve um visitante político nacional.
Um só. Mário Soares! Confesso que é comovente. Mas, em 42 anos de democracia,
Mário Soares não foi capaz de enaltecer publicamente o contributo remoto de
Galvão, “o inventor” de Humberto Delgado na luta contra o regime autoritário
de Salazar. Por uma razão; Henrique Galvão, sendo democrata, era anticomunista
e iberista. E Mário Soares queria todos os louros da luta “antifascista”. Falhou
a lealdade à memória do principal precursor do 25 de Abril.
Quanto a
Salgado Zenha, cofundador do PS e figura destacada na afirmação política deste
partido, sofreu as consequências da oposição e da ira de Mário Soares, quando percebeu,
denunciou e combateu a tentativa de infiltração comunista no partido através do
MES de Manuel Serra. Apesar da vitória interna, Salgado Zenha acabou isolado e
votado ao ostracismo político na sequência da sua derrota eleitoral às
presidenciais. Mário Soares foi fiel aos amigos subservientes; que não punham
em causa a sua liderança e autoridade. Afinal, a luta de Zenha, apenas retardou
a vitória dos radicais que ascenderam ao poder pela mão de António Costa sem
que se conheça qualquer oposição da parte do “pai da democracia”. Este, nunca
hesitou em trucidar politicamente os amigos que o desafiavam.
O caso
Rui Mateus é, talvez, o mais emblemático de todos. Fundador da primeira hora,
Rui Mateus garantiu, por vários anos, o financiamento do PS e a difusão externa
do partido, graças aos conhecimentos que adquiriu na sua estadia no Reino Unido, na Suécia e
nos Estados Unidos. Mário Soares permitiu que Rui Mateus fosse brutalmente
sacrificado, destruído politicamente e pessoalmente, na sequência do caso Emáudio,
do qual constituía a origem. Mais importante que salvar o amigo foi salvar-se a
si próprio e ao partido. Sem dó nem piedade.
Edmundo
Pedro, o honrado, corajoso e leal Edmundo Pedro, que penou nas masmorras do
Tarrafal as agruras da oposição ao regime de Salazar, “malhou” mais uma vez nos
calabouços, agora do regime “democrático”, na sequência do caricato episodio
das armas distribuídas ao PS por um subordinado de Ramalho Eanes por ordem
deste, nos dias que antecederam os conflitos do 25 de Novembro de 1975. Edmundo
Pedro, apesar de inocente, suportou silenciosamente o desconforto e opróbrio da
cadeia “democrática” sem que Mário Soares, Manuel Alegre, companheiro do episódio,
ou outro “camarada” o ilibassem do ilícito, como era de justiça. Mais uma vez,
a amizade foi sacrificada ao partido e seus dirigentes.
E o que
dizer do incansável apoio de Mário Soares a José Sócrates até ao último
momento? José António Saraiva referiu o seu recente livro “Eu e os Políticos” a
respeito deste que “todos na esfera política e jornalística conheciam a sua
compulsiva tendência para a mentira. Como foi possível a Mário Soares apoiá-lo
apesar disso e do estado caótico das finanças públicas escondidas do grande
público mas não ignoradas pelos mais próximos e que haveriam de conduzir o país
à vergonha da exiguidade política e da indigência financeira? Fica bem
confortar um amigo caído em desgraça, exceto quando, este, em nome do partido,
conduziu o país à pré-insolvência, sacrificando os cidadãos, e é arguido de ilícitos graves cometidos durante o exercício dos mais altos cargos
públicos. A pátria de Mário Soares nunca foi Portugal, mas o Partido
Socialista, ao qual tudo e todos sacrificou quando entendeu necessário.
Filho
duma relação amorosa ilícita dum prelado com uma paroquiana, Mário Soares,
foi um instrumento político de seu pai contra a igreja - que o excomungou - e
contra o regime de Salazar - que o ostracizou - tal como o famoso Colégio
Moderno, alfobre de socialistas e comunistas, entre os quais o célebre Álvaro
Cunhal. Menino mimado, Soares nunca conheceu as agruras da luta pela
subsistência material beneficiando do apoio paterno, do apoio do empresário
português Manuel Bollosa quando no exílio em Paris, mais tarde, dos donativos dos
países amigos ao Partido Socialista e, finalmente, do erário público seja pela
remuneração das funções públicas que exerceu, seja pelos sucessivos financiamentos
públicos e privados da sua fundação.
Posto
isto, a seu crédito releva a extraordinária sagacidade e coragem política que o
caracterizou no combate ao regime de Salazar e a determinação na oposição à agenda totalitária do Partido
Comunista, embora por causas meramente partidárias e apesar de nunca ter
conseguido desenvencilhar-se da “chantagem política” que este partido exerceu
sobre o PS que, finalmente, deu frutos em 2016, o ano da sua “partida”.
Que tenha
“partido” em paz consigo e com os seus são os meus votos, apesar de tudo.
Peniche 15 de Janeiro de 2017
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