sábado, 29 de outubro de 2016

Os Animais

 
 
 
   Esta súbito desvelo pelos os animais tem algo de preocupante; por um lado a aparente evidencia da banalização dos maus tratos, por outro a tendência de equiparação destes aos seres humanos é uma parvoíce que vai custar caro. Não se percebe  como vai controlar-se a proliferação de cães e gatos por esse país fora, havendo já alguns relatos de situações perigosas relacionadas com matilhas em algumas cidades. Noutro âmbito, há que aguardar se esta não é mais uma porta de entrada dos falsos progressistas na esfera política. Veremos.
 
   Tem graça que, segundo constou, uma das primeiras preocupações dos novos políticos foi expressarem a sua discordância pela utilização da Águia Vitória do Benfica nos espetáculos de futebol no Estádio da Luz!
 
   Compreendo; a águia deveria andar lá pelas florestas a caçar coelhos, ratos e outras iguarias e a procriar livremente. Nada contra. Mas então e os animais do Jardim Zoológico de Lisboa? Haverá algo mais deprimente e bárbaro para os animais? Se tivesse poder para tal, mandava encerrar todos os Jardins Zoológicos do planeta. Ao menos o de Lisboa. O que é aquilo? Para que serve? É demência civilizacional sem qualquer razão de ser nos dias de hoje. E o Pan está calado porquê? Estes animais não têm direitos?
 
   É este silencio que nos faz duvidar dos verdadeiros propósitos deste partido.
 
   A ver vamos!

sábado, 22 de outubro de 2016

Do Capitalismo (IX)


No início do século XVIII alvoreceu a Revolução Industrial com seu cortejo de implicações económicas e sociais muito semelhantes às que se verificam hoje, refletidas num texto anónimo de 1701 de nome Considerations upon the East Indian Trade: com efeito fará desaparecer naquelas indústrias, as que são menos úteis e menos lucrativas. As pessoas que aí estiverem empregadas procurarão outras ocupações, mais simples e mais fáceis de encontrar: ou então ocupar-se-ão de tarefas parcelares e especiais nas indústrias mais complexas. ...Assim, o comércio com as Índias terá o seguinte resultado: distribuir-se-ão as diferentes operações que constituem os trabalhos mais difíceis por vários operários qualificados, em vez de confiar excessivamente na habilidade de um só. …Enfim, o comércio com as Índias Orientais, trazendo-nos artigos fabricados por um preço mais baixo que os nossos, terá muito provavelmente como efeito obrigar-nos a inventar processos e máquinas que nos permitam produzir com menos mão de obra e menor custo, e através disso, baixar os preços dos produtos manufaturados. 

A Revolução Industrial, considerada por muitos como a transformação mais fundamental da vida humana na História do mundo, surgiu e desenvolveu-se no quadro da expansão comercial decorrente da colonização encetada pelos portugueses em 1419 com a tomada de Ceuta, confundindo-se por breve período com a História da Grã-Bretanha, na sequência da Revolução Gloriosa, de 1688 - que impôs o fim da Monarquia absolutista - Jaime II -, e implantou a Monarquia Parlamentar Constitucional - Guilherme III - proporcionando a ascensão da burguesia responsável pela criação das condições para a sua eclosão: …a única oficina do mundo, o seu único importador e exportador em grande escala, o seu único transportador, o seu único imperialista, praticamente o seu único investidor estrangeiro; por essa razão a única potência naval e o único país que se pode dizer que possuía uma verdadeira política mundial (E.J.Hobsbawm, Industry and Empire 1968/69). 

Combatem-se os monopólios, aumenta a concorrência, introduzem-se na sociedade inglesa; o chá das Índias, as porcelanas da China popularizadas pela rainha Maria da Holanda, os tecidos de algodão - indianos, persas, de Calicut - e os mais variados produtos característicos da riqueza da Inglaterra à época. 

Na sequência de um empréstimo de 1,5 milhões de libras esterlinas, à Coroa Inglesa, ao juro de 8% ao ano, para financiamento da guerra com a Flandres, um grupo de financeiros é autorizado a criar, em 1698, o Banco de Inglaterra, especializado nos pagamentos entre Estados e companhias de comércio em todo o mundo, na tradição dos financeiros de Londres, tendo-lhe sido concessionado o monopólio da emissão de notas de Inglaterra e do País de Gales.  

O desenvolvimento interno é financiado por bancos provinciais fundados, muitos deles, por manufatureiros - entre os quais os Lloyds e os Barclays - havendo na praça de Londres, 24 em 1725, 42 em 1770, 52 em 1776. Os bancos do interior são de 12 em 1755, 150 em 1776 e 400 em 1793. 

Num século, o valor das trocas comerciais aumenta por 5,5 vezes, quadruplicando o rendimento nacional. Primeiro comércio mundial, a Inglaterra exporta produtos fabricados, hulha - em detrimento do milho -, vende-se transportes marítimos e serviço de entreposto aos operadores comerciais entre as Américas, as Índias, o mediterrânio e o Báltico. No Comércio Triangular - Europa, África e América -, floresce o negócio dos escravos, do açúcar, das armas e do algodão, destacando-se, respetivamente, as cidades de Bristol, Liverpool, Birmingham e Manchester. Graças ao Union Act, publicado em 1707, a Escócia prospera ao participar no comércio colonial, que lhe era anteriormente inacessível. 

Todo este fervilhar económico suscita inovações de monta, em particular nos transportes, desenvolvendo-se a rede viária num modelo de financiamento agora designado por PPP - em que particulares abastados, recorrendo a capitais próprios ou emprestados, financiavam as obras a troco de cobrança futura das correspondentes portagens - em vez do recurso à corveia - trabalho gratuito dos servos ou camponeses - praticada em França e outros países do continente europeu. No transporte rodoviário passa a usar-se o cavalo em detrimento do Burro e os caixeiros viajantes fazem concorrência às feiras, vendendo por amostra. A grande inovação acontece no desenvolvimento maciço do transporte fluvial tornando navegáveis rios e ribeiros e construindo canais entre os centros de produção e de consumo ou expedição, proporcionando, por exemplo, a redução do custo da hulha a metade.  A espiral da procura impelia a expansão da produção agrícola, mineira e transformadora.

(Síntese livre da "História do Capitalismo, de Michel Beaud)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Velhas metáforas

   

Trabalhadores 

   Era noite de inverno, Zézito, de onze anos, fora incumbido pelos seus pais, ausentes nos suas azáfamas da subsistência, de tomar conta do seu irmão, Miguelito, sete anos mais novo. Era uma casa meio solitária onde o zumbido do vento ao vergar as árvores dos pinhais próximos, metia respeito. Zé lembrou-se de uma brincadeira; foi à sala do lado, cobriu-se com um lençol dos pés à cabeça e foi ao encontro do irmão lançando exclamações anunciadoras dum pretenso "papão". Miguelito assustou-se desatando a chorar. Zezito, estarrecido, comoveu-se, tirou o lençol, e mais comovido ficou ao constatar a alegria do mano ao vê-lo. Não havia papão! Zezito gostou que o mano visse nele um amigo e protetor capaz de afastar os "papões". Repetiu a façanha uma ou duas vezes até sentir-se desconfortável  ao perceber a desonestidade que consistia em assustar Miguelito para "ganhar" a sua amizade.
 
  
Trabalhadores
 
   Veio-me isto à ideia a propósito das recentes polémicas sobre matéria tributária que puseram o país em alvoroço, com o Primeiro Ministro em visita oficial ao Brasil. Depois do prolongado pavor a que foram submetidos pelo "destrambelhamento" fiscal anunciado pelos apoiantes institucionais do atual Governo, os cidadãos alvo tranquilizaram-se, agradecidos, perante as referências apaziguadoras do Primeiro Ministro no seu regresso, vendo nele o providencial protetor contra a insaciável voracidade dos tributaristas. Fica assim mais uma vez demonstrada a "indispensável" função de "charneira" política que tem sido atribuída ao atual partido do Governo como o único capaz de controlar os excessos da esquerda radical. O Primeiro Ministro conta assim contabilizar mais uns milhares de eleitores agradecidos e empenhados na sua reeleição, graças à sua "moderação".

Homens do Mar


"Na sequência da biografia marítima de João Fernandes Mano (Agualusa), só poderia ocupar-me, de seguida, da de João Maria da Madalena, respectivamente, Capitão e piloto do lugre Gamo que, em 1918, foi torpedeado por um submarino alemão camuflado, a 31 de Agosto, navegando o lugre na latitude 46º 02’ N e longitude 32º 32’ W, na rota dos Açores, tendo sobrevivido a uma aventura extenuante. Salvaram-se 34 dos 39 náufragos que tripulavam o bacalhoeiro Gamo, tendo aportado ao Faial em 8 pequenos dóris, quase sempre sem comer nem beber, 470 milhas à vela, a remo e a correr com as vagas." (Ana Maria Lopes em Marintimidades)
"Por volta das 5 horas, rebentou dentro do navio um grande golpe de mar que inteiramente varreu o convés, formando a água castelo que ia até meia altura do mastro e que levou toda a borda falsa dos dois lados e 33 dories, arrancando as poucas velas que estavam içadas, partiu com fragor os «alvois» das escotilhas, a roda do leme e levou tudo quanto se encontrava solto no convés." (respigado por Ana Maria Lopes, do diário de bordo do Santa Regina, em Marintimidades)
 

https://youtu.be/0ge5M92dtqI

O Homem e o Mar

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente 
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado, 
Como em puro cristal, contemplas, retratado, 
Teu íntimo sentir, teu coração ardente. 

Gostas de te banhar na tua própria imagem. 
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos 
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos, 
As queixas que ele diz em mística linguagem. 

Vós sois, ambos os dois, discretos tenebrosos; 
Homem, ninguém sondou teus negros paroxismos, 
Ó mar, ninguém conhece os teus fundos abismos; 
Os segredos guardais, avaros, receosos! 

E há séculos mil, séc'ulos inumeráveis, 
Que os dois vos combateis n'uma luta selvagem, 
De tal modo gostais n'uma luta selvagem, 
Eternos lutador's ó irmãos implacáveis! 

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" 
Tradução de Delfim Guimarães 
Obtido em Wikisource 


domingo, 9 de outubro de 2016

Incoerência


  
 As justificações do Governo e seus apoiantes para o agravamento exacerbado do património e do controlo das contas bancárias com saldos superiores a cinquenta mil euros, revelam-se destituídas de autenticidade quando nos apercebemos de outras realidades em marcha desde os últimos dez anos. 
   A sobretributação do património visa corresponder à doutrina dos teóricos inspiradores do socialismo, como Rousseau, reduzindo as desigualdades socioeconómicas pela redistribuição. Trata-se duma forma de controlo de concentração de riqueza atenuando ou eliminando o "ciclo virtuoso"  que estabelece uma relação exponencial entre as mais-valias e o respetivo capital. Na verdade, nas suas "contradições do capital" Marx concluiu o contrário, isto é; que as mais-valias regridem com o aumento do capital. À parte estas minúcias, o que releva é que, nos últimos dez anos, foram postas em marcha pelos sucessivos Governos uma série de medidas "subterrâneas" que têm o efeito contrário ao que agora se alega. A "revolução tecnológica  anunciada  por José Sócrates como estratégica para o seu Governo e, atualmente, a " nova revolução industrial" referida por António Costa, têm o objetivo de promover a concentração económica e o afastamento dos trabalhadores mais velhos e os menos qualificados. Repare-se; não se visa criar condições para os ganhos de competitividade e de produtividade das empresas e dos trabalhadores no ativo, deixando ao mercado a função de seleção dos mais eficazes. Trata-se de, por via administrativa, escolher os mais "convenientes" na perspectiva da Administração Pública, fazendo tábua rasa do dever de promoção da igualdade de oportunidades. Os baixos níveis etários e a qualificação da população ativa, por um lado, e a maior intensidade de capital das empresas, por outro, potenciam, de facto, o crescimento económico e os níveis salariais, mas tal não deve ser alcançado ao atropelo da cultura humanista ocidental consagrada na Declaração Universal dos Direitos do Homem. O sentimento de indignação aumenta pela constatação da hipocrisia dos argumentos; o do ambiente, o do aquecimento global, o da qualificação, o da segurança, o da eficiência energética, e tudo o mais que se queira imaginar. Se por um lado foi reduzido o IRC de 32 % - ao tempo do Governo de Durão Barroso em 2004 a 2006, salvo o erro -, para 17 % e 21 % - no Governo de Passos Coelho de 2011 a 2014 -, por outro, multiplicaram-se as entidades parasitárias dos Técnicos e das empresas, cada uma cobrando suas taxas regulares, pela multiplicidade de serviços anacrónicos impostos, agravando os custos operacionais e reduzindo a competitividade e a produtividade, agravadas pelo aumento do desemprego inerente. É certo que a produtividade - e os salários - nas grandes empresas, duplica relativamente à das pequenas, mas então como se concilia isto com o manifesto empenho do atual Governo e seus apoiantes contra a acumulação? Para além de todas as contradições apontadas há um lado cínico no processo; o afastamento obtém-se submetendo empresas e Técnicos, a sucessivas vagas de exigências progressivas autofinanciadas. A suprema ironia consiste na promoção empenhada deste objetivo, durante décadas, por entidades políticas autodesignadas  progressistas e defensoras dos direitos dos trabalhadores.
A vertente do controlo dos saldos bancários visa, alegadamente, combater a evasão fiscal, detetando variações injustificadas nos mesmos. Compreende-se e percebe-se a dificuldade em fazer pagar impostos a alguns setores; nomeadamente os que estão no fim da cadeia económica. Mas tal releva da ineficácia e preguiça da Administração Fiscal que se revela destituída de reserva quanto aos direitos legais e morais dos cidadãos. Por outro lado, que credibilidade merece, ao cidadão, esta intenção do atual Governo quando, com os seus apoiantes, revelou falta de vontade política na aprovação duma Lei do Enriquecimento ilícito? Nenhuma! É que, esta Lei, visa os detentores de cargos políticos e não a sociedade civil! Ora, o atual Governo, com o controlo das contas bancárias, inverteu o objetivo focando-o na sociedade civil! Tal denuncia real falta de vontade no combate à corrupção cuja principal origem foi há muito identificada na Administração Pública por várias entidades.
O que daqui podemos concluir é a falta de coerência política da maioria que suporta o atual Governo, degradando a confiança dos cidadãos nas instituições, enfraquecendo a democracia e provocando fraturas sociais e políticas cada vez mais profundas e irreversíveis, de consequências imprevisíveis.
Liberdade não é isto! Isto é coerção duma parte de sociedade para financiamento do bem estar de outra parte.Afinal, é o que caracteriza as ditaduras.
  

Os perigos do ódio e da ignorância

  
   Turgot, Inspetor Geral das Finanças de Luis XV, um fisiocrata esclarecido que conheceu Voltaire e Adam Smith, que escreveu alguns textos para a "Enciclopédia" e  que publicou , em 1766, as "Reflexions sour la Formation et la Distribuition des Richesses, apesar de considerar, como Quesnay, que era a terra, a primeira e única fonte de toda a riqueza e que o país mais rico era aquele onde havia mais trabalho, interrogava-se, relativamente ao ofício da curtição de peles:

"Quem quer que tenha visto a oficina dum curtidor de peles sente a impossibilidade absoluta de um homem, ou mesmo de vários homens pobres se abastecerem de couros, de cal, de casca de carvalho, de ferramentas, etc., construírem os edifícios necessários para instalar uma oficina de curtumes e viverem vários meses até que os couros sejam vendidos.... Quem mandará construir os canais, os mercados, os edifícios de toda a espécie? Quem permitirá que viva até à venda dos couros o grande número de operários de que nenhum poderia sozinho preparar um único couro, e de que o lucro da venda de um único couro não poderia permitir a subsistência de um único operário?

   Quem suportará as despesas com a instrução dos alunos e dos aprendizes? Quem conseguirá obter com que subsistir até que sejam instruídos, fazendo-os passar por graus dum trabalho fácil e proporcionado à sua idade, até aos trabalhos que exigem mais força e habilidade? Será um desses possuidores de capitais ou valores mobiliários acumulados que os empregará, parte com os adiantamentos da construção e da compra de materiais, parte com os salários diários dos operários que trabalham na sua preparação. E ele que esperará até que a venda dos couros lhe renda não só todos os adiantamentos efetuados mas ainda um lucro suficiente para os indemnizar do que lhe teria valido o seu dinheiro, se o tivesse aplicado na compra de terras, e, além disso, do salário devido pelo seu trabalho, pelos seus cuidados, pelos seus riscos, mesmo pela sua habilidade, visto que, para um lucro igual, teria sem dúvida preferido viver sem nenhuma preocupação, do rendimento duma terra  que teria podido adquirir com o mesmo capital. À medida que este capital vai sendo recuperado pela venda dos produtos acabados, aplica-o em novas compras para alimentar e sustentar a sua fábrica através desta permanente circulação: vive à custa dos lucros e põe de parte o que pode poupar para aumentar o seu capital e aplica-lo na empresa aumentando a massa dos seus rendimentos, afim de aumentar ainda mais o seu lucro."

O confisco do capital acumulado compromete o progresso económico gerando exclusão e pobreza. A função do Estado deverá concentrar-se no incentivo ao reinvestimento produtivo sucessivo desses capitais e no restabelecimento dos equilíbrios sociais, apoiando e reintegrando os excluídos do processo económico.

A ignorância e o ódio podem destruir uma democracia.

sábado, 8 de outubro de 2016