domingo, 1 de maio de 2016

Falar de menos

 
The Piano Lesson, Pierre Auguste Renoir
 
   Cristina Casalinho, a atual responsável pela gestão da dívida pública, numa palestra realizada algures, segundo noticiou a comunicação social, diagnosticou forte défice cultural entre os portugueses, trabalhadores e empresários, razão da pasmaceira económica em que o país se encontra. Confrontada com a permanente necessidade de recurso à emissão de dívida para financiamento da voraz administração pública e do estado social, Casalinho entende que os trabalhadores devem fazer-se à vida em terras que não as suas e que os empresários devem vender as suas empresas e comprar outras mais rentáveis com mais frequência. Presume que daí adviriam recursos que reduziriam a cavalgada do endividamento do país.
 
   Na verdade mais não faz que exprimir uma ideia que vem fazendo caminho, propulsionada, sobretudo, por políticos, altos funcionários públicos e "intelectuais"; universitários, ou gente "da cultura". Lembro por exemplo Passos Coelho ao desdramatizar a emigração e um sociólogo, em plena TV a explicar a importância da mobilidade laboral, entre outros casos. Sobretudo  recordo os numerosos atos condicionadores do acesso ao trabalho e à atividade empresarial, promovidos pelos sucessivos governos tentando induzir essas dinâmicas laborais e empresariais, mas, paradoxalmente, destruindo as economias locais, produzindo exclusão profissional e social, fomentando a concentração económica e acentuando as assimetrias regionais.
 
   Repare-se que, a Casalinho, não preocupa a felicidade de cada um, mas tão somente as necessidades de financiamento dessa máquina incompetente e trituradora dos recursos populares que constitui o Estado, de que faz parte; a sua própria felicidade, no fundo. Poderia, por exemplo, admitir, que muitas pessoas são felizes nas suas terras, junto da sua família e amigos e, sobretudo, que têm o direito de escolher o seu destino livremente, sem tutelas de funcionários abastados. Poderia, por exemplo, considerar que a necessidade de repovoamento do interior implica precisamente o contrário e propor políticas públicas nesse sentido. Poderia, por exemplo, considerar, que a falência eminente do sistema de proteção social, nomeadamente, do sistema de saúde e de segurança social, aconselha o regresso ao ancestral dispositivo familiar, hoje em decadência, incompatível com o nomadismo laboral indutor de solidão e desproteção a longo prazo. Poderia até supor que a melhor forma de prevenir a  "tão perniciosa emissão de dióxido de carbono" e o alegado aquecimento global, consiste, precisamente, no desenvolvimento das economias locais e na eficiência, em vez de no crescimento  económico perpétuo. Enfim, deveria ponderar que as necessidades de financiamento público seriam bem menores se houvesse menos corrupção e maior eficiência na alocação dos dinheiros públicos por parte dos mandatários do Povo. Deveria, sim, sensibilizar governantes e responsáveis partidários a adotarem políticas e posturas públicas que possibilitem a redução dos custos de financiamento. Isto é que é da sua competência. 
 
   Casalinho não prestou atenção à realidade, que consiste, precisamente, no inverso do que diagnosticou; a macrocefalia das maiores cidades Lisboa e Porto e o definhamento das cidades do interior assim o testemunham, tal como a emigração maciça que se tem verificado nos últimos anos , sobretudo, para os países do norte da europa.
 
  Também me parece que há um problema cultural crescente entre os portugueses e que consiste na decadência moral induzida pela ideologia prevalecente, na promoção da passividade geradora de dependência e paternalismo, tão necessárias à captura do eleitorado pelos partidos dominantes. Em suma e numa palavra; Respeito! Respeito pelos outros é o défice crónico cultural dos portugueses, salvo as exceções, evidentemente. Promove-se uma cultura de egoísmo crescente e pratica-se uma política de repressão para compensação dos seus nefastos efeitos. Tenta-se corrigir um erro com outro ainda maior!
 
   Cristina Casalinho, pretendendo, porventura, agradar aos que a mantêm no cargo, evidenciou a maior e mais grave distorção caracterizadora das sociedades atuais e que consiste na inversão das funções dos Estados; em vez de servirem os povos exigem ser servidos por eles. Uma realidade que deveria mobilizar as massas na sua correção.

   Se, como alguns dizem, militam na administração pública os profissionais mais qualificados, razão dos mais elevados salários que nela auferem face aos correspondentes da sociedade civil e se acredita no que diz, por favor, dê-nos ula lição de cidadania e responsabilidade cívica; convide os seus colegas a dispensar o conforto dos privilégios do Estado e, com eles, venha para o setor privado fundar, sucessivamente, empresas de alto valor acrescentado e elevados salários. E não pense que faz algo inédito; felizmente, ainda há quem prefira a incerteza da luta diária no setor privado pela satisfação do exercício de Liberdade que tal representa. São esses afinal que têm suportado economicamente todos os desmandos públicos e  de promiscuidade política que conduziram o país, por três vezes desde 74, ao estado de pré-falência.
 
...vai mal! 

domingo, 24 de abril de 2016

O Liberalismo Contemporâneo

 
 
(Pierre Auguste Renoir, The-Children-Of-Martial-Caillebotte)
 
    Quem tem o prazer da leitura e não pode andar por aí a comprar livros a quinze, vinte, trinta ou mais euros, nem se importe demasiado com a estética da biblioteca, não desespere, há por aí livrarias, algumas meio esquecidas, onde se encontram bons livros a preços módicos e onde ainda poderá travar algumas conversetas, habitualmente pitorescas, com o livreiro, personagem geralmente culta, por vezes algo excêntrica.
 
   É o caso da livraria do meu amigo Mário Bandeira "le philosophe", que um bandido sem escrúpulos assaltou recentemente, levando-lhe alguns artigos; tabaco (ao preço que está transformou-se num bem de luxo), dinheiro, e ainda lhe provocou extenso ferimento na cabeça. A polícia tomou nota da ocorrência; servirá para alimentar os organismos produtores de estudos sobre criminalidade e extorquir à vítima mais um cobres em taxas por emissão de relatório do evento, se dele necessitar.
 
   Lá encontrei, entre outros, este livrinho de Maurice Flamat, à época, 1987,  professor de Ciências Económicas na Sorbonne, uma edição Europa-América da sua coleção Saber, por...€2,50! Se agora até temos um Ministério da Cultura, porque não investir alguns euros dos dinheiros públicos, na produção de livros baratos e difundi-los pelo país e pela web de forma a torná-los acessíveis a todos? O catálogo teria de ser elaborado por entidades independentes e idóneas de forma a prevenir  a tentação doutrinária dos partidos dos governos.
 
   Pois neste livrinho, apesar da tradução medíocre, podemos verificar sem espanto, que as transformações sociais e económicas que Portugal atravessa, aconteceram, mais coisa, menos coisa, no arranque de outras democracias mais antigas, como é o caso da francesa, que serve de referência ao autor.  Sem espanto, mas com alguma perplexidade, pelo anacronismo de grande parte das elites políticas atuais, que, paradoxalmente, se autointitulam progressistas, apesar da sua manifesta incapacidade de aprender com os erros do passado, cegos pelo fascínio do acesso ao espaço mediático e ao poder.
 
   Alguns extratos:
 
   "Estes mesmos países (capitalistas), são também aqueles que atingiram os mais elevados níveis de vida; em parte alguma o bem estar material da maior parte da população - e portanto das pessoas mais modestas - é tão elevado."
 
   "...a democracia - pelo menos no sentido que hoje damos a este termo -, não é, de modo algum, possível se não no seio de uma economia capitalista. Porque, no caso contrário, o poder e o peso das autoridades tornam-se literalmente esmagadores para o indivíduo. Se se abolir a liberdade económica, as outras liberdades não demoram a desaparecer."
 
   "A coexistência do capitalismo com as ditaduras militares não impediu a evolução política para a democracia, como foi o caso de Portugal, Espanha, Argentina e Brasil. Porque o capitalismo não pode, duravelmente, coexistir com ditaduras e, ainda menos, com regimes totalitários....Porque a liberdade é contagiosa: instaurada em primeiro lugar em matéria económica espalhar-se-á e estender-se-á a toda a vida política e social."
 
   "O adversário de uma verdadeira liberdade é um desejo excessivo de segurança (La Fontaine, Le Loup et Le Chien). É a isto que poderemos chamar a ilusão da segurança....perante a evolução rápida da nossa sociedade, muitas pessoas - aliás em todos os meios; gostariam de ser mais protegidas. Porque a família, no sentido amplo, deixou de ser uma célula tutelar. Na sociedade tradicional, o indivíduo em dificuldades ter-se-ia voltado para ela; dirige, a partir de agora, ao Estado os seus pedidos, sob a forma de exigências."
 
   "Abraham Lincoln, que acabava de ser eleito Presidente dos Estados Unidos, em 1860, declarava: "não podeis instaurar a prosperidade desencorajando a poupança..., auxiliar o pobre arruinando o rico..., forjar o caracter e a coragem dissuadindo iniciativa e independência..., ajudar os homens fazendo por eles o que poderiam e deveriam fazer eles mesmos". Como isto continua a ser atual!"
 
   "No fundo dos grande êxitos económicos, encontra-se sempre outra coisa: aquilo a que se deve chamar - nem que o termo esteja fora de moda - valores morais. O caso do Japão ilustra-o de maneira brilhante: neste país, tanto como - se não for mais - a procura do lucro, contam o sentido da lealdade para com o grupo, do dever e do espírito cívico. A "mão invisível" que guia este povo não é animada apenas pelo interesse pessoal. Até mesmo nos Estados Unidos, apesar de num grau menor, pôde observar-se que o liberalismo de Reagan se apoiou no fundamentalismo dos protestantes evangélicos e - não evidentemente por identidade, mas por convergência - no apoio dos católicos e dos judeus sionistas; tudo constituindo uma espécie de "direita" conservadora."
 
   "O Liberalismo não traça os planos de uma sociedade futura; e menos ainda os de um mundo ideal."
 
     "O Liberalismo não pode oferecer senão a utilização e a prática da Liberdade. Isto é pouco, e é tudo. Assim é por essência pluralista. Para ele, o futuro será aquilo que os homens, se forem livres, quiserem; mas pelo menos, tê-lo-ão querido dispondo assim do que tantos outros regimes lho recusariam: a escolha do seu destino. "
 
   "Desconfiamos daqueles que entendem tornar as pessoas felizes, nem que fosse contra sua vontade."
 
   "Porque a liberdade é, apesar de muitos equívocos - para além de tantos egoísmos com que acontece esbarrarmos - um dos mais belos ideais pelos quais bate o coração dos homens."
 
Também acho!

domingo, 17 de abril de 2016

Panamá Papers

   (Claude Monet Painting in his Garden, Auguste Renoir)
 
   Do charivari que por aí vai a propósito dos "Panamá Papers", a novidade reside apenas na descoberta de algumas "carecas"; gente da economia subterrânea, hipócritas do espetro governativo, elites nobilitadas e gente anónima. Tudo o resto já sabíamos, desde há muito.
 
   Desta mega operação fica desde já justificado o descalabro económico dos países afetados , como Portugal, libertando os responsáveis políticos do odioso da bancarrota. Afinal não é possível ter sucesso com tamanha conspiração!
 
   Vamos por partes:
 
   As sociedades Off-shore resultam de um compromisso intergovernamental e constituem um instrumento de desenvolvimento de zonas geográficas de fraco potencial económico, incentivando fiscalmente a atração de empresas. Ou seja, perante a debilidade de algumas regiões, os Estados abdicam de parte da sua receita fiscal como incentivo para o desenvolvimento destas, atenuando os seus esforços de investimento direto e, simultaneamente, melhorando a autonomia económica daquelas. Qual o mal disto? Nenhum!
 
   Por outro lado, os honrados cidadãos têm o direito de proteger o seu património da ilimitada voracidade dos Estados, incapazes de controlar os seus défices, resultantes da captura dos aparelhos públicos pelas corporações e clientelas partidárias e da demagogia política característica das democracias subjugadas pelos partidos políticos em detrimento do Estado.
 
   Outra coisa, censurável, é serem utilizadas para esconder património ilícito, resultante da corrupção e tráfico diverso, descapitalizando as economias e desestabilizando as sociedades com práticas degradantes da integridade humana.
 
   Ora, não podemos ignorar, por exemplo em Portugal, a persistente incapacidade política de penalização do enriquecimento ilícito, denunciando uma cumplicidade panpartidária, que sugere má consciência. Ou seja; apesar da retórica, não há nos Estados, efetiva vontade de combate ao crime económico, a não ser que tal possa servir de bode expiatório da incompetência acumulada. Desde que ouvi, há muitos anos, do honrado Coronel Costa Brás, Alto Comissário Contra a Corrupção, a justificação para o seu pedido de demissão, que perdi as ilusões na ética política e na inviolabilidade da integridade da Justiça.
 
   Tenhamos em conta porém que, na sequência do descalabro económico-financeiro dos Estados, assistimos, nos anos recentes na União Europeia, provavelmente, ao maior roubo legal daqueles aos seus cidadãos, causado pela imposição pelo Banco Central Europeu, de taxas de juro historicamente baixas, com o propósito de proporcionar o refinanciamento das astronómicas e compulsivas dívidas públicas, destruindo projetos de vida sustentados no trabalho, sobriedade e renúncia, propiciadores de rendimentos patrimoniais dos que deles necessitam por se situarem fora da esfera dos privilégios públicos. Este sim, é grande off-shore interno de que não se fala. Exauridos os cofres públicos, destruído o sistema financeiro interno pela promiscuidade político-económica, fortemente condicionado o recurso a financiamento externo, os governos não hesitam em confiscar o rendimento e o património de quem se sacrificou por um futuro que julgava melhor.  
 
   Bem vistas as coisas poucos são os que têm autoridade moral para condenar as off-shore; para acabar com elas, basta que as populações exijam aos seus governos, moderação fiscal, parcimónia e competência nos gastos públicos, combate ao nepotismo e à corrupção, fim do financiamento público aos partidos e valorização de quem trabalha e poupa.
 
Je suis anti-hypocrites 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Cidadãos, administrados, ou servos?

   Mais coisa menos coisa, considero a estratégia económica do anterior governo a mais adequada às necessidades de crescimento económico sustentado do país, sintetizada pelo equilíbrio das contas públicas e externas. Num contexto de grande aflição financeira, sem margem de manobra para negociação com os credores e apesar de alguma instabilidade na coligação, o governo de Passos Coelho aplicou a truculenta receita dos credores conseguindo cumprir com sucesso o Plano de Assistência Económica e Financeira, consubstanciado pelo cumprimento dos prazos, pela dispensa da última tranche de financiamento, pela inversão do saldo das contes externas, pelas, historicamente reduzidas, taxas de juro da República, pela redução substancial da despesa pública, pelo aumento das exportações, pela alteração estrutural da economia, pela reversão, ainda que parcial, do rating da República, pelas reformas da lei das rendas, dos códigos civil e penal e da legislação laboral, pela reestruturação do Ministério Público,...mas também por um tremendo terramoto económico que se abateu sobre o país, resultado do agravamento fiscal, da redução de salários, pensões e rendimentos patrimoniais, financeiros e imobiliários, e da extração de liquidez da economia imposta pelo BCE aos bancos e aos Estados para capitalização destes,...etc. Imperdoável, mesmo, para mim, foi não ter posto fim à prepotência dos "administradores" que caracterizou, afinal, o colonialismo, constituída pelas notificações e penhoras automáticas bem como a criminalização da não exigência de fatura em coisas tão prosaicas e comezinhas como a compra de uma bica numa tarde soalheira de sábado. Excessivo e cruel, a dar substância aos que acusaram Passos Coelho de insensibilidade na sequência dos infelizes convites à emigração.
 
   Vem isto a propósito do cancelamento da execução das penhoras das casas de família por dívidas dos seus titulares ao Estado. Apesar de ser crítico do atual governo e de António Costa; por falta de ética política, pela desastrosa estratégia económica e de alianças que assumiu e pelo seu destrambelhado conceito de igualdade, tenho de lhes dar um grande aplauso por pôrem fim àquela brutal crueldade. Então, o principal responsável pelo desemprego, pela redução ou extinção de rendimentos complementares do cidadão comum, pela redução do salário real, pela ineficácia do combate à corrupção e da supervisão financeira, o Estado, ainda tem a "coragem" de despejar as famílias sem recursos que ele próprio contribuiu para arruinar? Deixando homens, mulheres, velhos e crianças ao Deus dará? À míngua? Não, isto não é tolerável em parte nenhuma do planeta, sobretudo naquelas que fazem da Declaração Universal dos Direitos Humanos parte integrante dos seus princípios fundadores, ainda por cima vertidos na respetiva lei fundamental. Passos Coelho tem muitas virtudes e revelou preocupação com as pessoas de menores rendimentos no ajustamento fiscal, eminentemente progressivo, que levou a cabo, mas falhou estrondosamente naquelas matérias. Para as pessoas indefesas deve usar-se a compreensão e não o chicote. Espero que tenha aprendido com estes erros. Só assim poderá ser útil à Nação.
 
(Dance at Bouguival, Auguste Renoir)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Explicar o Mundo (notas II)




 Adoração dos pastores

 (Giancarlo Da Castelfranco)
 
    
        A doutrina de “um primeiro motor” deu ao cristianismo e ao islamismo a justificação para a        existência de Deus, contestada na Idade Média, pela conclusão de que Deus não  poderia  ter     criado o vazio, o nada. 

 
      Quando, no século XIII, São Tomás de Aquino, na esteira de Abelardo nascido no século XI, desenvolveu a sua dialética de conciliação do aristotelismo com o cristianismo, tornou obrigatório o estudo do pensamento de Aristóteles  na educação universitária europeia.
 
      A importância da Ciência, reside, essencialmente, no seu contributo para a compreensão do mundo e não necessariamente na resolução de problemas científicos populares do nosso tempo.
 
       Com a morte de Aristóteles, em 322 a. C., logo depois da morte de Alexandre da Macedónia, em 323 a. C., iniciou-se o crepúsculo da era Clássica grega, um dos períodos mais luminosos da história da humanidade, que constituiu, afinal, a alvorada de uma era ainda mais luminosa, o helenismo.
 
       Gustav Droysen, em 1830, designou por helenismo - Hellenismus, em alemão -, o período que decorre desde a morte de Alexandre, em 323 a.C. à batalha de Ácio, em 31 d. C, na qual, Otávio derrota os exércitos de António e Cleópatra, e o Egipto, que tinha sido governado por uma sucessão de reis gregos, desde Ptolomeu I, um dos generais de Alexandre, a Ptolomeu XV, filho de Cleópatra e, eventualmente, de Júlio César, é absorvido pelo império romano. Foi a era científica mais extraordinária da humanidade, até aos séculos XVI e XVIII.
 
       Estratão observou o aumento crescente do afastamento entre gotas de água que caíam de um telhado, o que se deve à aceleração da gravidade, ainda desconhecida; uma gota desloca-se mais depressa do que a que seguinte porque iniciou o movimento há mais tempo.
 
      A diferença entre os pensamentos ateniense e alexandrino é que, enquanto o primeiro é abrangente, o seguinte é específico.
 
      Euclides viveu no tempo de Ptolomeu I e foi o provável fundador do estudo da matemática no museu de Alexandria.
 
      Ptolomeu, não compreendeu que, sendo irrelevante para a reflexão, a distinção entre distância mínima e tempo mínimo dada a relação de proporcionalidade entre eles, faz diferença na refração, em que a velocidade da luz se altera ao passar de um meio para o outro. A lei da refração - também conhecida por lei de Snell ou de Descartes - só seria descoberta no século XVII d. C..
 
       Arquimedes foi o mais importante cientista da era helenística, ou, talvez, de qualquer era; viveu em Siracusa no século III a. C. . e tinha particular orgulho em ter provado que o volume de uma esfera é dois terços do volume do cilindro nela circunscrito.
 
       Depois de Arquimedes, Apolónio, nascido em Perga em 262 a. C., distinguiu-se na matemática, em especial no estudo das secções cónicas; a elipse, a parábola e a hipérbole, sem aplicação no mundo antigo, mas de importância crucial  para Kepler e Newton.

domingo, 3 de abril de 2016

Explicar o Mundo (notas, I)


 A Senhora e o Filho (Paolo Varonese, Renascimento italiano) 
Explicar o Mundo (Steven Weinberg, tradução Francisco Silva Pereira, Marcador Editora)
Tema; como foi que aprendemos a saber mais sobre o mundo.

Hoje a ciência é internacional…mas a descoberta da ciência moderna deu-se…no Ocidente.

O Ocidente…foi ao Egipto buscar a Geometria; à Babilónia, os dados astronómicos; à Índia e à Babilónia, as técnicas da aritmética; à China, a bússola magnética…mas não importou os métodos da ciência moderna.

A contribuição para a ciência e para a matemática do helenismo e do império romano só foi significativamente ultrapassada na revolução científica e matemática dos séculos XVI e XVII.

Em Mileto, no século VI a. C, mais de um século antes do tempo de Sócrates, os Gregos começaram a especular a respeito da substância fundamental que constitui o mundo.

O primeiro Milésio parece ter sido Tales, que viveu dois séculos antes de Platão, e previu um eclipse solar que ocorreu em 585 a. C. e foi visível em Mileto.

Anaxímenes, um pouco mais tarde, defendeu que era o ar e não a água, a substância comum a tudo.

Leucipo, filósofo de Abdera cerca de 499 a.C., afirmava que tudo acontece por um motivo e por necessidade.

Demócrito, natural de Mileto, viajou pela Babilónia, Egipto e Atenas antes de se fixar em Abdera no século V a. C., de cuja vasta obra sobrevivem abundantes fragmentos, afirmava que toda a matéria é constituída por pequenas partículas indivisíveis chamadas átomos.

No século V a. C., Zenão de Eleia, discípulo de Parménides, na sua obra “Ataques”, defendeu que todo o movimento era impossível, uma vez que, por exemplo, para percorrer uma pista era necessário primeiro percorrer metade da respetiva distância, depois, metade da distância restante e assim indefinidamente, tornando-se impossível chegar ao fim.

O estudo de fenómenos de energias elevadas, apesar de criticado, permite criar partículas hipotéticas de massa elevada, como as partículas de matéria negra, que os astrónomos afirmam constituir cinco sextos da matéria do Universo.

No entanto, os fenómenos de baixa energia concitam igualmente a atenção dos cientistas, que calcularam a intrigante massa dos neutrinos em cerca de um milionésimo da do eletrão.

Platão, como Sócrates, mais preocupado com as questões humanas do que com a natureza da matéria, ambicionava uma carreira política que lhe permitisse pôr em prática as suas ideias utópicas e antidemocráticas. Felizmente, não teve oportunidade de o fazer.

Tal não é inteiramente verdade, uma vez que, Platão, especulou sobre os quatro elementos de Empédocles, atribuindo às partículas - átomos - que os constituíam, a forma de quatro dos cinco corpos sólidos conhecidos como poliedros regulares; o cubo, para as partículas da terra, o tetraedro, para as do fogo, o octaedro, das do ar, e o icosaedro, das da água.

Aristóteles, avançaria com um quinto elemento, o éter, a quintessência, que supunha preencher o espaço acima da órbita da Lua.

O esforço de identificação dos constituintes elementares da matéria durou mais de dois milénios, e só no início da era moderna os alquimistas identificaram o mercúrio, o sal e o enxofre.

Priesley, Lavoisier, Dalton e outros, foram os instigadores da revolução química iniciada no final do século XVIII, que permitiu identificar os 92 elementos atuais, desde o hidrogénio ao urânio (com exclusão do sal).

No século XII a. C, na idade do bronze, depois das invasões dóricas e do desmantelamento da civilização micénica, os gregos tornaram-se quase analfabetos, tendo-se generalizado, naturalmente, o uso da poesia para a comunicação intergeracional em detrimento da prosa, devido à eficácia proporcionada pela estética que lhe é inerente.

Só por volta de 700 a.C. a literacia grega ressurgiu com o novo alfabeto, importado dos fenícios, que Homero e Hesíodo usaram na sua poesia, alguma dela designada como a da idade das trevas grega.

O elemento poético característico do helenismo parece subsistir na Física moderna, não pelo talento literário dos cientistas atuais, mas por, estes, orientarem as suas investigações segundo critérios estéticos, sem prejuízo da validação pelo método da verificação, pouco comum entre os gregos da antiguidade.

Pitágoras, originário da ilha jónica de Samos, emigrou para Cretona, no sul de itália, em 530 a.C, onde fundou um culto de características teocráticas, no qual os seus membros usavam vestes brancas, acreditavam na transmitação das almas e onde era proibido o consumo de feijão por se assemelhar ao feto humano. Sob seu governo o povo de Cretona destruiu a vizinha cidade de Síbaris em 510 a.C.

Parece ter sido a música a causa da dedicação dos pitagóricos à matemática ao descobrirem, acidentalmente, que a condição de harmonia entre cordas de iguais características se verifica quando a relação dos respetivos comprimentos se traduz numa fração de pequenos números inteiros.

Eudoxo de Cnido, aluno de Arquitas, este, por sua vez discípulo de Pitágoras, terá sido, provavelmente, o maior matemático grego do século IV a.C..

Na sequência da batalha de Queroneia na qual Filipe derrotou os exércitos de Atenas e Tebas, a Macedónia dominou o mundo grego. Após a morte de Filipe, Aristóteles regressou a Atenas e fundou o Liceu, a sua escola, uma das quatro grandes escolas de Atenas; O Jardim, de Epicuro, a Colunata, dos Estoicos e a Academia, de Platão, que durou até 529 d. C.; um ciclo de vida superior ao de qualquer universidade até aos dias de hoje.
(cont.)

segunda-feira, 7 de março de 2016

Cultura da morte

      Quando, ainda no Governo de Sócrates foi lançado o tema do Testamento Vital, era óbvio que, tal, constituía a introdução ao tema da eutanásia. Pela mão da esquerda. A tal da "injeção atrás da orelha". Veio há dias à liça a bastonária dos enfermeiros afirmar ter presenciado casos em que o assunto terá sido abordado em hospitais onde prestava serviço. Parece que não se apercebeu da gravidade do que estava a dizer, ou julga que ela e a sua corporação estão acima da lei, como, infelizmente, acontece a muitos nesta incipiente democracia. Afinal parece que a senhora bastonária pretendia mostrar que a despenalização da eutanásia nada mais é do que a descriminalização de uma prática corrente no Serviço Nacional de Saúde. É uma suspeita que atormenta muitos dos que tiveram a infelicidade de passar pelos hospitais nacionais. Ainda há demasiado secretismo nos diagnósticos e terapêuticas e os serviços de inspeção carecem de independência e capacidade para enfrentar a fortíssima corporação médica. Sustenta-se a ideia com a proteção da dignidade na morte e o exemplo de outros países. Conhecem-se casos dramáticos onde a morte assistida parece ter constituído um ato piedoso, um imperativo de consciência. Porém há numa perspetiva mais radical de olhar o tema; as sociedades ocidentais, em particular a portuguesa, em prolongada decadência,  incapazes de lidar com a tragédia demográfica e depois de terem banalizado o aborto, com os hospitais a abarrotar e com défices crónicos, tratam de criar as condições necessárias para se livrarem dos velhos sem constrangimentos legais, nem, pelos vistos, de consciência. A moral cristã, principal alavanca do progresso das sociedades a ocidente, apesar de toda a trágica influência do catolicismo, até, pelo menos, ao Concílio de Trento, parece cada vez mais diluída num crescente egocentrismo coletivo que chega a recordar a célebre Sodoma; a grande metáfora do hedonismo.
 
   Tal como no caso do aborto em que o novo ser é irrelevante para quem decide, também na eutanásia serão os burocratas dos Serviço Nacional de Saúde que decidirão sobre a morte de quem quer que seja, em função da sua viabilidade económica. Os mesmos burocratas que reivindicam privilégios que negam aos outros e que agora pretendem criar condições para os liquidar, pela simples razão de que lhes dão demasiado trabalho e consomem os recursos de que carecem as suas vidas flauteadas. Uma civilização que cultiva a morte em vez da vida. Se o argumento é o do sofrimento sem cura e se o sofrimento é, em última instância, psicológico, então, poderão começar a matar todos os que sofrem por não ter com que sustentar-se e às suas famílias. Os desempregados. Os sem abrigo. E por aí adiante. Afinal, o Estado de Direito serve a quem, senão aos que o dominam e controlam? Trata-se afinal, de uma nova forma de barbárie, uma barbárie paradoxal, porque aparentemente civilizada; não se mata dignamente, em luta,  na selva, na montanha, no mar ou na planície, mata-se covardemente na sombra e no silêncio dos hospitais às mãos dos novos senhores.

Vai mal!
 
(Salvador Dali, Metamorfose)